Frente a Frente: Firefly enfrenta Mini Cooper SE

Com quatro metros de comprimento e motor traseiro de 141 cv, o Firefly aterra em território Mini. No entanto, com cinco portas e orientação funcional não representa ameaça ao espírito desportivo do Mini Cooper SE.

Com quatro metros de comprimento e motor traseiro de 141 cv, o Firefly aterra em território Mini. No entanto, com cinco portas e orientação funcional não representa ameaça ao espírito desportivo do Mini Cooper SE.

Há um novo miúdo na cidade. Chama-se Firefly. Parece a designação de um modelo, mas é uma submarca do construtor chinês Nio. Fundada em 2014 e especializada no desenvolvimento e produção de automóveis elétricos, a Nio apresenta a Firefly como uma proposta diferenciadora no âmbito dos elétricos compactos. Um modelo que pretende tornar a mobilidade elétrica mais acessível, conectada, sustentada e emocional.

Se há marca que fez da emoção uma bandeira, essa marca é a Mini, também ela nascida e criada na cidade. No entanto, apesar da tração traseira e dos 141 cv do Firefly, o Mini Cooper SE JCW não tem de se preocupar com o utilitário chinês... no que respeita ao comportamento desportivo.

Se o foco passar para a habitabilidade, funcionalidade ou mesmo preço a vantagem passa para o lado do Firefly. Proposto desde os 30 900 € da versão Select, o Firely não excede os 32 490 € da versão topo de gama Comfort das imagens. Já o Mini Cooper SE tem um preço base de 38 395 € ao qual o modelo ensaiado soma opcionais suficientes para elevar o preço final até aos 52 670 €.

Podíamos divagar sobre as motivações por trás da compra de um automóvel e se um cliente Mini Cooper, mesmo elétrico, ia olhar duas vezes para um Firefly. Talvez um cliente que valorize a funcionalidade, como o do Mini Aceman, mas não vamos fazer esse exercício. Vamos encarar o Firefly e o Mini Cooper SE como duas formas de viver a cidade sem o ruído e as vibrações dos motores térmicos.

Condução integrada

Optar pela carroçaria de três portas do Mini, independentemente da motorização, equivale a prescindir dos bancos traseiros enquanto solução para transporte de adultos. O mesmo é válido para objetos volumosos nos 210 litros da mala. Desenhado sobre uma base com 3,86 metros de comprimento e 2,53 m de distância entre eixos, o Cooper SE aposta tudo nos lugares dianteiros. Bancos baixos, com regulações amplas, para deixar o condutor integrado no automóvel e bem enquadrado com o volante.

Atrás não há espaço para as pernas nem piso plano. O acesso é complicado e o túnel central é coroado por um prolongamento da consola central para que serve para depositar objetos. Os materiais têm uma qualidade razoável e os acabamentos uma apresentação cuidada, em nada se destacando do interior do Firefly.

O espírito Mini está presente por todo o habitáculo, que ganha volante e bancos desportivos John Cooper Works graças à versão de equipamento JCW (3620 €). O ecrã central redondo de 9,4 polegadas continua a dominar as atenções, com o painel de instrumentos projetado tipo head-up display. Mantém alguns comandos físicos com aspeto retro para a direção de marcha, arranque e modos de condução. O sistema operativo 9 não necessita de cabos para integrar com smartphones e tem um assistente virtual denominado Spyke.

Triunfo da originalidade

Enquanto o Mini segue, por dentro e por fora, as linhas que transformaram a marca numa referência, o Firefly aposta na originalidade. Construído sobre a plataforma elétrica dedicada FT1, tem quatro metros de comprimento e 2,26 metros de distância entre eixos.

O design exterior é marcado pelas óticas circulares, agrupadas em conjuntos de três unidades, que se destacam numa carroçaria praticamente limpa de arestas e vincos muito definidos. Outra caraterística distintiva do Firefly é o denominado “arco dinâmico” em torno do pilar C. Uma faixa na cor da carroçaria que une dos dois pilares, interrompendo a macha negra que representa toda a superfície acima da linha de cintura.

Sem chave convencional, a abertura pode ser feita desde o smartphone, com a aplicação Firefly, ou com o toque de um cartão no espelho retrovisor do lado do condutor. Os puxadores estão embutidos e o botão que aciona o movimento elétrico do portão traseiro está integrado na base do limpa-para-brisas.

A mala, com o fundo muito desnivelado em relação ao plano de carga, tem 404 litros de capacidade, aos quais se juntam os 92 l da frunk. Para além de rebater as costas dos bancos 40:60 é possível levantar os assentos na mesma proporção, numa solução idêntica à popularizada pelo Honda Jazz. A secção maior esconde um pequeno compartimento de arrumação.

O acesso aos lugares traseiros obriga os ocupantes de estatura elevada a baixar a cabeça. O espaço para as pernas e em altura é adequando para dois adultos, que beneficiam de um piso totalmente plano. O lugar central é para decorar.

Excesso de toques

Espaço, conforto e luminosidade. Estas são as primeiras impressões de quem se senta ao volante do Firefly. A tendência é para melhorarem à medida em que se descobre que os bancos dianteiros para além de ajuste elétrico têm aquecimento, ventilação e massagem. Não é uma descoberta imediata porque o interior minimalista, com acabamentos cuidados e materiais de qualidade, é desprovido de botões.

A interação com o sistema operativo Aster é feita no ecrã de 13,3 polegadas com uma interface confusa, carregada de submenus, que exige um número exagerado de toques para chegar ao resultado pretendido.

Apresentando-se como um automóvel tecnologicamente avançado, o Firefly tem tudo. Da condução autónoma apoiada por 21 unidades de deteção de alto desempenho a um assistente inteligente denominado Lumo. Dependendo das funções selecionadas, este pode ser ativado manualmente, como para criar as condições de conforto e segurança para quando é deixado um animal de estimação dentro da viatura, ou de forma automática no caso do estacionamento assistido. O sistema de som imersivo 7.1 com 14 colunas e Dolby Atmos promete fazer as delícias dos melómanos.

Sem botão de arranque, o Firefly é daqueles automóveis elétricos nos quais basta sentar ao volante, deslocar o seletor da caixa para D ou R e seguir viagem. Se tiver a aplicação. Sem aplicação (o nosso caso) é necessário colocar o cartão NFC no carregador sem fios (50 W) da consola central.

O volante oval tem uma pega mais agradável que a do Mini e o tamanho necessário para deixar ver o painel de instrumentos de seis polegadas por baixo do aro superior. Há três modos de condução (Eco, Conforto, Desporto), quatro opções de travagem regenerativa (Baixa, Padrão, Alta, Auto) e um modo de condução com um pedal.

Mundos distintos

Suspensão independente, amortecedores macios e direção filtrada fazem do Firely a escolha acertada para navegar nas cidades nacionais. O Mini é mais pequeno e, porventura, mais ágil nos centros históricos.

No entanto, a suspensão firme, que tão bons resultados obtém no controlo de movimentos da carroçaria, pode ser demasiado seca sobre piso degradado. Nestas situações agradece-se o pisar descontraído do Firefly. Os dois modelos optam por jantes de 18 polegadas, com pneus 225/40 no Cooper SE e 215/50 no Firefly.

Apesar do aparato criado pela opção de equipamento JCW, o Mini Cooper SE mantém os 218 cv, menos 40 cv que o John Cooper Works de origem. Como é um Mini, consegue manter uma dinâmica desportiva, mesmo que de vez em quando se sinta que está a lutar contra o peso da bateria.

Os modos de condução Core, Green e Go-Kart gerem a potência e resposta do motor, que tem tendência para fazer as rodas dianteiras patinar durante acelerações fortes. Nas transferências de massas é seguro e bastante mais contido de movimentos que o Firefly. Este, contudo, curva de forma rápida e segura. Em algumas acelerações em molhado, com de meia-volta de volante para um dos lados, foi possível sentir a traseira a querer escorregar. Não chega a acontecer nada de extraordinário porque a eletrónica não deixa. Para este género de emoção continua a compensar levantar o pé a meio da curva e deixar a transferência de massas levar a traseira do Mini.

Só cidade

Dependente de uma bateria de 41,2 kWh, o Firefly anuncia 330 km de autonomia. Este valor pressupõe um consumo médio de 14,5 kWh/100 km, que consideramos excessivamente otimista. O melhor que conseguimos em circuito exclusivamente urbano foram 14,9 kWh/100 km. Em circuito misto não baixou dos 19,2 kWh/100 km, com a carga total da bateria a não anunciar mais do que 275 km de autonomia.

Condução rápida ou em autoestrada é totalmente desaconselhada a quem precisar de fazer mais de 200 km de uma vez. O carregamento CC de 100 kW permite repor dos dez aos 80% em 29 minutos.

Com bateria de 54,2 kWh (49,2 kWh úteis), o Mini Cooper SE anuncia 390 km de autonomia. Ao contrário do Firefly, os consumos anunciados de 14,5 kWh/100 km são realistas. A nossa média ponderada fixou-se nos 15 kWh/100 km, com as voltas na cidade a caírem facilmente para os 12,9 kWh/100 km. O carregamento rápido de 100 kW repõe a bateria dos dez aos 80% em meia hora.

Não é normal ser o Mini a gastar menos, principalmente um Mini Cooper SE disfarçado de JCW. Mas é o que acontece, desde que não se ande a testar os 6,7 segundos do arranque até aos 100 km/h ou os 170 km/h de velocidade máxima. O Firefly, apesar de ser maior, é mais leve. No entanto, é mais lento a arrancar até aos 100 km/h (8,1 segundos), não ultrapassa os 150 km/h de velocidade máxima e tem consumos mais sensíveis ao acelerador.

VEREDICTO

Como referimos no início, não estamos perante concorrentes diretos. Enquanto o Mini Cooper SE representa a vertente emocional, com três portas e um comportamento dinâmico interessante, o Firefly aposta no conforto e na funcionalidade. Oferece mais espaço para passageiros e bagagens, equipamento de série completo e um preço mais competitivo. O cliente que aprecia o prazer de condução vai sempre escolher o Mini Cooper SE. Os outros têm muito por onde se apaixonar pelo Firefly.

FICHA TÉCNICA

Firefly

PREÇO  30 900€ (32 490€ versão ensaiada)

MOTOR Elétrico (1)

POTÊNCIA 105 kW (141 CV)

BINÁRIO 200 NM

TRANSMISSÃO Traseira, Auto, 1 vel.

COMP./LARG./ALT. 4,00/1,89/1,56 M

DISTÂNCIA ENTRE-EIXOS 2,62 M

PESO 1492 KG

MALA 92 + 404 -1253 L

ACEL 0 - 100 KM 8,1 S

VEL. MAX 150 KM/H

CONSUMO WLTP 14,5 (19,2*) kWh/100 km

EMISSÕES 0 G/KM

CAPACIDADE BATERIA 41,2 kWh

AUTONOMIA 330 KM (215 km*)

TEMPO DE CARGA ND (11 KW) 29M - 10% A 80% (100 KW) 

IUC 0 €

* Medições Turbo

FICHA TÉCNICA

Mini Cooper SE JCW

PREÇO  38 395€ (52 670€ - versão ensaiada)

MOTOR Elétrico (1)

POTÊNCIA 160 kW (218 CV)

BINÁRIO 330 NM

TRANSMISSÃO Dianteira, Auto, 1 vel.

COMP./LARG./ALT. 3,86/1,76/1,46 M

DISTÂNCIA ENTRE-EIXOS 2,53 M

PESO 1680 KG

MALA 210 - 800 L

ACEL 0 - 100 KM 6,7S

VEL. MAX 170 KM/H

CONSUMO WLTP 14,5  (15,0*) kWh/100 km

EMISSÕES 0 G/KM

CAPACIDADE BATERIA 54,2 kWh (úteis: 49,2 kWh)

AUTONOMIA 390 KM (328 km*)

TEMPO DE CARGA 05H30 (11 KW) 30M - 10% A 80% (95 KW) 

IUC 0 €

* Medições Turbo

GOSTÁMOS

NÃO GOSTÁMOS

Firefly
Conforto
Funcionalidade
Equipamento

Mini Cooper SE JCW
Comportamento
Posição de condução
Consumos

 

Firefly
Consumos
Autonomia
Sistema operativo confuso

Mini Cooper SE JCW
Preço
Muitos opcionais
Habitabilidade