Velocidade Relâmpago – Mercedes EQ Silver

Texto: António Amorim
Data: 29 Abril, 2019

Dando largas à imaginação, a Daimler inspira-se nos Silver Arrow dos anos 1930 para nos abrir, de par em par, uma janela sobre o futuro

Em 1937 uma flecha de prata atingiu os 432,7 km/h na auto-estrada A5, entre Frankfurt e Darmstadt, na Alemanha, estabelecendo um recorde de velocidade em estradas públicas que se manteria até novembro de 2017. Era o Mercedes W 125 de 12 cilindros, pilotado por Rudolf Caracciola. Um marco histórico que a Mercedes jamais esqueceu e que ainda hoje lhe alimenta a alma. A tal ponto que serviu de inspiração para um dos concepts mais arrebatadores jamais criados pela Daimler: o Mercedes EQ Silver Arrow, desvendado na Monterey Car Week, na Califórnia, e agora exibido no salão de Paris.

O diretor de Design da Daimler, Gorden Wagener, tem uma profunda paixão pelos Mercedes recordistas do passado. Silhuetas longas, esguias e baixas, com longos capots, cockpits reduzidos, traseiras afiladas e descendentes, rodas grandes, linhas esculpidas pelo vento. São estas as formas que encontramos numa coleção de concepts desenhados pelo seu lápis nos últimos anos, e que têm deliciado os visitantes dos mais recentes salões internacionais.

Vision Mercedes-Maybach 6 e Maybach 6 Cabriolet são os exemplos mais marcantes, aos quais se junta este EQ Silver Arrow, uma autêntica montra sobre o Design futuro da marca que, à partida, pode parecer demasiado vanguardista para se tornar realidade, mas que não deixa de incluir várias soluções que se encaminham para as nossas estradas, sejam elas tecnológicas ou estilísticas.

 

A busca pela beleza pura combina-se aqui com o choque consciente entre o digital e o analógico. Os 5,3 metros de comprimento e apenas um metro de altura resultam numa silhueta que o liga aos parentes antes referidos, destacando-se também o cockpit monolugar. Toda a estrutura e carroçaria são feitas em fibra de carbono, com a inevitável e histórica pintura em tons prateados, que a marca pretendeu aproximar ao futurístico efeito do metal líquido. Recorde-se que a própria designação Silver Arrow (flecha de prata) resulta da ausência de pintura nos carros históricos, por razões de redução de peso, deixando o alumínio das carroçarias à vista.

 

Detalhes igualmente marcantes e que não estarão tão desligados de uma futura realidade quanto isso são, por exemplo, as rodas parcialmente carenadas, por questões aerodinâmicas. O difusor traseiro tem idêntica finalidade, assim como os dois spoilers traseiros a funcionarem como travões aerodinâmicos.

Há também neste concept várias soluções que nos alertam para a importância crescente da inteligência artificial. Um ecrã panorâmico mostra-nos em imagens 3D tudo o que se passa à volta do carro, incluindo eventuais faixas de rodagem onde esteja disponível a recarga das baterias em andamento, por indução.

Outra solução curiosa é a projeção de um adversário fantasma numa situação de corrida virtual, um pouco à semelhança do que fazem os atuais jogos de consola, assim como a interacção com um “treinador” digital que nos dá conselhos de pilotagem a cada momento.

Mais próximo da realidade está o ecrã tátil colocado no volante, através do qual o condutor pode selecionar os diversos modos de condução disponíveis, assim como os diversos tipos de sonoridade do motor, seja o grito de monolugar de Fórmula 1, seja o rugido grosso de um V8 da AMG.

Assim se disfarça o silêncio mecânico que se vive a bordo do EQ Silve Arrow, já que se trata de um elétrico puro, equipado com um motor de 750 cv de potência e a anunciar uma autonomia de 400 km, proporcionados por uma bateria com 80 kWh de capacidade, arrefecida por entradas de ar colocadas na lateral da carroçaria.

 

A origem – Mercedes W 125 Silver Arrow de 1937

Para construir o W 125 de 12 cilindros recordista de velocidade dos anos 1930 a Mercedes-Benz foi buscar inspiração à indústria aeronáutica da época. As alterações feitas à carroçaria do W 125 de Grande Prémio com vista ao recorde em estrada levariam muito em conta as orientações definidas por Ernst Heinkel e por Willy Messerschmitt, apelidos que a Luftwaffe se encarregaria de gravar na História.

 

Alguns exemplos dessa influência estão na projecção dianteira encurtada, na frente mais arredondada e rebaixada para reduzir a elevação do eixo dianteiro a alta velocidade, na traseira alongada e substancialmente mais elevada para reduzir a elevação do eixo traseiro. Outro exemplo muito inspirador para o Silver Arrow da era moderna é o cockpit em forma de gota de água.  Foi com estas alterações que o W 125, pilotado por Robert Caracciola, conseguiu atingir os 423,7 km/h, há 80 anos atrás, numa auto-estrada pública alemã, recorde que continuaria imbatível até ao ano passado.

 

Artigo publicado na Edição Premium da Revista Turbo 446, de novembro de 2018. Adquira a nossa edição digital ou assine a Turbo e tenha acesso a mais conteúdos exclusivos

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