Ford Capri Premium RWD Autonomia Alargada: Poder de sugestão

Apesar da evocação histórica, o novo SUV coupé da Ford não tem nada que ver com o Capri original. É um automóvel elétrico, com 286 cv, tração traseira e autonomia superior a 600 km. Uma alternativa estilosa a pesos pesados do segmento como o Peugeot E-3008 ou o Tesla Model Y

Apesar da evocação histórica, o novo SUV coupé da Ford não tem nada que ver com o Capri original. É um automóvel elétrico, com 286 cv, tração traseira e autonomia superior a 600 km. Uma alternativa estilosa a pesos pesados do segmento como o Peugeot E-3008 ou o Tesla Model Y

Projetado como alternativa europeia ao Mustang, o Ford Capri foi um caso de sucesso entre o final da década de 60 e meados da década de 80 do século passado. Cinquenta e seis anos depois, uma parte da história repete-se. A divisão europeia da Ford volta a produzir um Capri específico para o mercado do Velho Continente. Sem relação com o Mustang Mach-e ou previsão de comercialização nos EUA, o novo Ford Capri é uma versão coupé do Ford Explorer. Como este último, é produzido nas instalações do construtor americano em Colónia, Alemanha, sobre a plataforma MEB da VW.

Sem o acesso à arquitetura elétrica da VW, a Ford arriscava-se a perder o comboio da eletrificação e com ele a presença num dos segmentos mais procurados do momento. Evitando “concorrentes internos” como os VW ID.4 ou ID.5, Audi Q4 Sportback e-tron, Cupra Tavascan ou Skoda Enyaq Coupé, o Ford Capri tem um espectro de potenciais clientes que vai do BMW iX2 ao Tesla Model Y, passando pelo Kia EV6 ou Peugeot E-3008. A estes junta-se o Ford Explorer que, com as mesmas motorizações, é cerca de 1500 € mais barato.

Não vale a pena procurar pistas do Ford Capri original no novo SUV coupé elétrico do construtor americano. Os designers encontram semelhanças e inspirações na linha de cintura elevada, no pilar C volumoso ou no escurecimento dos pilares A e B para criar o efeito de tejadilho flutuante. Não vimos nada disso. As pessoas com idade para saber o que foi o Ford Capri com quem nos cruzámos também não. Reconheceram o estilo, o arrojo das linhas, as formas arredondadas que melhoram o coeficiente aerodinâmico do Explorer (0,29) até aos 0,26, mas nada de Capri.

Estilo coupé

Com 4,63 metros de comprimento, o Ford Capri situa-se entre os 4,54 m do Peugeot E-3008 e os 4,70 m do Kia EV6 e Tesla Model Y. O Ford Explorer, com quem partilha os 2,77 metros de distância entre eixos e a disposição do interior, mede 4,47 metros de comprimento. O maior comprimento permite acrescentar 100 litros à bagageira do modelo com quem partilha a plataforma MEB. Os 572 litros da mala do Capri só são ultrapassados pelos 854 l do Tesla Model Y.

Como acontece com tantas carroçarias estilo coupé, a linha de tejadilho do Capri compromete o acesso aos lugares traseiros. O pouco ângulo de abertura das portas também não ajuda, mas, uma vez no interior, a diferença de altura livre ao teto quando comparado com o Explorer é de apenas 3 mm. O posicionamento dinâmico do Capri reduz a altura ao solo a 135 mm, quando o Explorer oferece 193 mm. É o menos apto para aventuras fora de estrada, com os concorrentes a variarem entre os 155 mm do Kia EV6 e os 198 mm do Peugeot E-3008.

Construído sobre uma arquitetura elétrica dedicada, o Ford Capri tem o interior espaçoso caraterístico dos automóveis livres do túnel de transmissão. Não há restrições com o espaço para as pernas e a única limitação é o acesso aos lugares traseiros. Uma vez sentados, dois adultos viajam com todo o conforto. O lugar central está lá para as emergências. Eventualmente, face a modelos mais funcionais, sente-se a falta de locais de arrumação ou do controlo da temperatura da saída da climatização. Um par de tomadas USB-C garante a energia para os acessórios eletrónicos.

Atalhos virtuais

Partilhar a arquitetura elétrica com a VW não acelera apenas o processo de produção. Traz também alguns vícios, como os comandos do volante, coluna de direção, luzes e vidros. Estes com apenas dois comandos e um sensor háptico para escolher entre os vidros dianteiros ou traseiros. Como acontece com a VW, uma armadilha sensível a toques involuntários e um desatino na hora de pagar portagens. Felizmente a Ford desenvolveu um interface próprio que se sobrepõe ao sistema operativo VW, resolvendo a maioria dos caprichos de este. Ao contrário do que acontece com os lugares traseiros, não faltam soluções funcionais para arrumar os objetos do quotidiano. Os materiais têm boa apresentação e qualidade em linha com o segmento.

Atalhos virtuais tentam compensar a falta de comandos físicos de um interior decalcado do Ford Explorer. Linhas direitas, design minimalista, dominado por uma barra de som do sistema Premium da B&O. Em baixo, o infotainment conectado Sync Move é apresentado num ecrã vertical com 14,6 polegadas. É o complemento do painel de instrumentos de cinco polegadas e do head-up display. Se no que respeita à posição de condução e visibilidade dianteira não há nada a apontar, a visibilidade traseira está dependente das câmaras. O óculo não passa de uma nesga longínqua.

Disponível com três motorizações, entre os 170 cv de tração traseira e os 340 cv de tração integral, o Ford Capri tem nesta variante de autonomia alargada e 286 cv a mais apetecível. A bateria NMC de iões de lítio, com 82 kWh (77 kWh úteis), promete 627 km de autonomia, com carregamentos rápidos de 135 kW a reporem 80% da carga em 28 minutos. O peso a rondar as 2,1 toneladas deixa o Capri entre as duas toneladas do Tesla e as 2,2 do Peugeot. Como apresenta um centro de gravidade mais baixo consegue uma abordagem incisiva às curvas sem penalizar o conforto.

Tração traseira

Sem motor no eixo dianteiro, o Ford apresenta um diâmetro de viragem imbatível. Dependendo das jantes, pode ser inferior a 10 metros, facilitando as manobras em locais apertados. A direção ligeira ajuda a enfrentar as agressões do piso citadino, onde a suspensão independente nos dois eixos mantem o empedrado e as bandas sonoras a uma distância confortável do habitáculo.

Conhecida por criar automóveis ágeis e divertidos de conduzir, a divisão europeia da Ford voltou a não desiludir. Enquanto SUV médio sem pretensões desportivas, o Capri proporciona uma condução mais envolvente que a generalidade dos rivais. Só perde a prova de arranque para o Tesla, falha que compensa com uma direção comunicativa e um comportamento intuitivo. A tração traseira é para esquecer enquanto motivo de diversão. No entanto, as transferências de massa em desaceleração são fáceis de controlar, de forma a induzir movimento à secção posterior.

Há modos de condução e de travagem regenerativa que devem ser deixados em normal. A exceção é o modo Sport, mas apenas quando a estrada o pede. Caso contrário o Capri ganha um nervosismo desnecessário. A rever, só mesmo os travões. São difíceis de dosear em todas as circunstâncias, sendo particularmente falsos nas travagens citadinas, onde o pedal afunda, afunda e só lá mesmo no final do curso é que começa a travar. O tratamento agressivo da condução desportiva atenua ligeiramente esta falta de sensibilidade.

VEREDICTO

Com um preço base de 41 105 € para a versão de 170 cv, o Ford Capri posiciona-se na zona superior do segmento, acima do Tesla Model Y (39 990 €) e em linha com o Peugeot E-3008 (41 750 €). A versão ensaiada (51 372 €) ultrapassa os modelos base do Kia EV6 (49 905 €) e BMW iX2 (51 100 €). Um posicionamento difícil de justificar apenas pelo estilo e envolvência da condução. Para piorar a situação, os consumos do Ford Capri andam longe dos números oficiais, com a nossa média ponderada a chegar aos 18,8 kWh/100 km. Muito acima dos 13,8 kWh/100 km homologados e com efeitos significativos na autonomia, cujo valor real cai para os 436 km.

FICHA TÉCNICA

Ford Capri Premium RWD Autonomia Alargada

PREÇO  41 105 € (51 372 € - unidade ensaiada)

MOTOR 1 X Elétrico

POTÊNCIA 286 cv (210 kW) 

BINÁRIO 545 NM

TRANSMISSÃO Traseira

COMP./LARG./ALT. 4,63/1,95/1,63 M

DISTÂNCIA ENTRE-EIXOS 2,77 M

PESO 2114 KG

MALA 572-1510 L

ACEL 0 - 100 KM 6,4 S

VEL. MAX 180 KM/H

CONSUMO WLTP 13,3 (18,8*) kWh/100 km

CAPACIDADE BATERIA 82 kWh (77 kWh úteis)

AUTONOMIA 627 KM (436 KM*)

TEMPO CARGA 8H (11 KW)  

POTÊNCIA MÁX. CC 135 kW

* Medições Turbo

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