Três décadas depois da Diabolique

Texto: Redação / Fotografia: Vasco Estrelado
Data: 17 Maio, 2017

Quase três décadas após o seu encerramento, a equipa privada de maior sucesso dos ralis nacionais continua bem viva no imaginário dos fanáticos pelas corridas. Participamos num jantar exclusivo, onde se contaram história diabólicas

(excerto de um texto editado há dois anos na revista Turbo que, por estes dias, ganha todo o sentido trazê-lo aqui como memória de um tempo muito especial dos ralis)

São 20h15m. Quinze minutos antes da hora marcada, Miguel Oliveira chega ao restaurante na companhia do filho, Miguel Pedro Oliveira, e do amigo e fã da Diabolique, Fernando Coelho. Pouco depois chegam Joaquim “Kikas” Bessa, antigo diretor desportivo, José Leite, antigo chefe dos mecânicos, e ainda o pilotaço Joaquim Santos, com a trupe a completar-se com Irino Pereira e Artur Bastos, dois dos fiéis mecânicos da equipa. O momento é histórico – um jantar do “núcleo duro” daquela que, quase três décadas depois, é ainda uma das equipas privadas de maior sucesso no panorama dos ralis em Portugal. É para nós um privilégio fazer parte deste momento, deste encontro de amigos

Fala-se de futebol, das famílias, dos encontros que se tiveram e das novidades, antes de a conversa fluir, então, ou não fossem todos decanos das corridas, para os triunfos, as desilusões, as peripécias e as memórias. Neste particular, Joaquim Bessa revela uma agilidade mental impressionante, ao contrário de Joaquim Santos, que admite estar esquecido de muitas coisas. Compensa-o com a sua enorme simpatia, tal como os restantes convidados, enquanto Miguel Oliveira revela a cordialidade e gentileza tipicamente “british”.

Muito já foi dito e escrito sobre a Diabolique mas, ainda, assim, temos a certeza de que, na informalidade, vamos conhecer muitas histórias que nem imaginávamos. Assim é. A conversa flui, apanham-se pontas soltas, cada um dá a sua achega. Ficamos a saber, por exemplo, que  Remédios/Portões vermelhos, nos Açores (“Começava mal, passava a asfalto e depois começava a subir estreito… Eu quase que ainda o faço sozinho”) é o troço favorito de Miguel Oliveira. Que o Eduardo Maia Pinto e “a sua mulher francesa” são os responsáveis pelo nome Diabolique e que este, por ter má conotação em Inglaterra (“Diabolic”), impediu a exportação do perfume para o Reino Unido. Que o programa “Onde está o Ás”, de 1984, proposto por Udo Kruse e Miguel Oliveira para reavivar a Fórmula Ford em Portugal foi idealizado “num Domingo”, como conta “Kikas” Bessa que, com uma humildade sem medida assegura-nos que o sucesso da Diabolique foi apenas lógico: “Ele [Joaquim Santos] era o melhor, por isso andar à frente dos outros Escort era lógico, tal como foi perdermos para os Renault e para os Lancia, carros de outra geração. Quando tivemos o RS 200 ganhámos porque era um bom carro e portanto, mais até em função dos carros, nós conseguimos sempre cumprir com o que estava estipulado”. Miguel Oliveira junta o seu ponto de vista.  “Tínhamos o melhor piloto, a melhor organização, os melhores pneus. Até tínhamos um homem, o António, para abrir rasgos nas borrachas de acordo com o piso. Depois, a minha mãe ia sempre com o “Kikas” Bessa e distribuía iogurtes e fruta até que começou a haver dinheiro a mais em jogo, apareceram as marcas e as coisas estragaram-se todas.”

Ao longo dos seus 10 anos de atividade, a Diabolique celebrou 39 vitórias e três títulos de campeões nacionais de ralis. Com 34 triunfos, a dupla Joaquim Santos/Miguel Oliveira ainda hoje é uma das mais vitoriosas da história da modalidade. Houve momentos bons e, como em todas as histórias, também os houve maus. O acidente no Rali de Portugal de 1986 assume-se como o mais doloroso, mas José Leite recorda que, mesmo então, nunca pensaram em terminar o projeto. A decisão de encerrar a equipa aconteceria quatro anos mais tarde, após mais um título perdido e a desilusão com o novo Sierra 4×4: “Mais do que um choque, foi uma tristeza muito grande. Sempre fomos muito bem tratados. Onde ficava o dono da equipa ficava a equipa toda. Jantávamos sempre juntos, portanto nunca houve separação. Ele sempre nos tratou como uma família. Mas o fim era previsível e foi o acumular de uma série de coisas. O nosso Sierra de 1987 era muito mau, em 1988 e 1989 tivemos problemas e depois veio aquela penalização que nos fez perder o campeonato. Em 1990 procurou-se, com um grande esforço financeiro e de todos nós, fazer um carro novo para tentar tudo. Mas depois não se via no horizonte nada de bom da Ford para o nosso campeonato e era o momento de parar. A concorrência estava a aparecer com carros melhores, estava a adivinhar-se a mudança de regulamentação e de evolução dos carros e a Ford não tinha nada, como não teve.

E depois ele sempre teve o objetivo de parar aos 50 anos.

Não me parece  que tenha havido arrependimento porque foram também 12 anos de muitas alegrias e entre os 38 e os 50 preenche-se uma parte da vida. Mas dentro do carro dá para perceber o quanto ele ainda gosta. Ele diz que não, mas é mentira”.

 

À parte

O acerto de contas com um passado glorioso ainda não estava terminado. Falámos das pessoas. Faltava homenagear o carro que… fomos descobrir em Orense, na Galiza, na garagem de Julio Alvarez e de Francisco Alonso, os atuais proprietários do BT-56-16. Os dois recordam os tempos em que viam o Escort RS 2000 dominar alguns dos principais ralis ibéricos, conduzido por Rafaele Cid e depois por Joaquim santos, sempre com Miguel Oliveira como navegador e não encontraram melhor forma de perpetuar essas memórias do que comprar o carro, reconstrui-lo mantendo toda a decoração e especificações e, mais ainda, mantê-lo em competição.

Julio e Francisco revelam um quase “fanatismo” pelo Escort impecavelmente redecorado de vermelho, branco e dourado e justificam a compra há alguns anos. “Na nossa opinião, o valor não passa pelo carro em si, mas sim pela história que tem por trás”. Daí terem procurado mantê-lo o mais original possível: “Num restauro essa história perde-se, por isso demos-lhe apenas o que ele tinha perdido pelo caminho. Fizemo-lo pela sua imagem da Diabolique, recuperando os elementos que tinham sido modificados ao longo dos anos. Agora é um automóvel de época. Sentas-te nele e vês um carro com o envelhecimento natural de quem está vivo há 30 anos”.

T al como Miguel Oliveira deixam para quem sabe a arte de escorregar a traseira ao longo de uma sucessão de curvas. O felizardo é um piloto e mecânico espanhol encarregue não só de conduzi-lo, mas também de preparar o Ford Escort RS 2000 antes das provas — um processo sempre supervisionado por um dos seus proprietários, acrescenta Julio, até porque são os únicos que podem transportá-lo no reboque que também recebeu as cores da Diabolique.

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