Para marcar a parceria com a Gazoo Racing, a Toyota criou 400 Yaris especiais de corrida, com motor 1.8 de 212 cv. Um verdadeiro GTI japonês posto à prova por um clássico europeu, o Peugeot 208 GTi No universo da banda desenhada, a onomatopeia mais utilizada para representar graficamente o estado de irritação de um… Read more »

Texto: Ricardo Machado / Fotografia: José Bispo
Data: 20 Janeiro, 2019

Para marcar a parceria com a Gazoo Racing, a Toyota criou 400 Yaris especiais de corrida, com motor 1.8 de 212 cv. Um verdadeiro GTI japonês posto à prova por um clássico europeu, o Peugeot 208 GTi

No universo da banda desenhada, a onomatopeia mais utilizada para representar graficamente o estado de irritação de um personagem é qualquer coisa como “Grrr”. Foi a primeira ideia que nos ocorreu quando olhámos para o Toyota Yaris Gazoo Racing Masters of Nurburgring, abreviado pelo construtor japonês para Yaris GRMN. Um Yaris tão focado no desempenho e na vertente desportiva que parece estar zangado, numa posição de desafio permanente a quem quer que lhe cruze o caminho. Neste caso foi o Peugeot 208 GTi, um dos mais carismáticos pequenos desportivos, que ao lado do Yaris “zangado” parece um utilitário perfeitamente banal.

 

Com a produção do Toyota limitada a 400 unidades, o paralelismo com a banda desenhada tem implicações para além do nome. Se não for um dos felizes proprietários das três unidades que vieram para Portugal, é pouco provável que veja o Yaris GRMN fora dos quadradinhos das fotos que ilustram este artigo. A fábrica da Toyota em Valenciennes, França, onde o “zangado” partilha as linhas de montagem com o Yaris normal, produziu mais 200 unidades destinadas em exclusivo ao mercado japonês. Edições de colecionador como esta nunca são baratas, daí que não espante que este Yaris GRMN custasse 39 425€, mais quinze mil euros que o Peugeot 208 GTi.

 

Desportivos deste calibre não se medem pelo preço. Quanto muito, medem-se pelos motores. Se o bloco 1.6 e-THP do Peugeot é um velho conhecido – 208 cv, quatro cilindros, turbo, injeção direta – o do Toyota merece um pouco mais de atenção. Trata-se do motor 1.8 Dual VVT-i, com 212 cv, quatro cilindros e compressor volumétrico. Construído pela Toyota em Inglaterra, o bloco segue para os especialistas da Lotus, onde recebe o tratamento desportivo antes de ser enviado para a montagem final, em França. Uma cadeia de acontecimentos bastante mais fácil de descrever do que realizar.

Tudo apertadinho

O Yaris normal não foi pensado para acolher motores tão grandes. Basta levantar o capot para perceber que quase não há por onde deixar cair uma moeda. Arrumar o bloco 1.8 Dual VVT-i, mais o compressor volumétrico Magnusson Eaton e o intercooler num espaço tão exíguo, sem desrespeitar as tolerâncias impostas pela casa mãe, revelou-se um trabalho de precisão e paciência digno de uma peça de joalharia.

O resultado final é uma obra de engenharia, onde cada um dos 212 cv tem de carregar 5,4 kg. O Yaris é leve, mas depois de passar pelo tratamento da Toyota Gazoo Racing, a divisão desportiva do construtor japonês, ficou ainda mais ligeiro. Trocou componentes de série por outros de alta performance criando uma ficha técnica invejável. Tem amortecedores Sachs Performance, jantes de 17’’ BBS, travões Advics e bacquets Boshoku, aos quais se juntam o volante do GT86 e um escape oriundo da Lexus.

A arquitetura da suspensão manteve o esquema McPherson dianteiro com eixo de torção atrás, mas reforçou as ligações dos sub-chassis e aumentou o diâmetro da barra estabilizadora para os 26 mm. Uma barra anti-aproximação entre as torres de suspensão dianteiras completa o fortalecimento da estrutura. Para garantir a melhor aplicação dos 250 Nm de binário disponíveis às 4800 rpm, há um deferencial Torsen no eixo dianteiro.

GTi by Peugeot Sport

No seguimento do sucesso da versão 30º Aniversário do Peugeot 208 GTi, o construtor francês criou o nível de equipamento GTi by Peugeot Sport. Este recupera elementos estilísticos como a pintura de dois tons, as jantes de 18’’ ou os bancos desportivos. Para a imagem bem plantada deste 208 GTi by Peugeot Sport contribuem as vias mais largas, 22 mm à frente e 16 mm atrás, as molas 30% mais firmes à frente e 80% atrás e os amortecedores 10 mm mais baixos.

 

A potência chega aos 208 cv enquanto o binário, soprado pelo turbo, atinge os 300 Nm logo às 1700 rpm. Para que toda esta força não se extravie a caminho do asfalto, também ele recorre aos préstimos de um diferencial Torsen. Os pneus Michelin Pilot Super Sport 205/40 completam o kit de aderência, tão desafiado pelo apuro da mecânica, como pelos travões Brembo.

 

Basta uma pequena volta em torno dos dois desportivos para perceber que, apesar de partilharem o gosto pela condução, nasceram de projetos muito distintos. O Peugeot é um produto de volume, consensual e perfeitamente integrado na estratégia global do Grupo PSA. Já o Yaris GRMN não engana. Partilha a linha de montagem com os modelos “normais”, mas percebe-se que é uma edição limitada. O fruto de dois anos de trabalho de uma pequena e dedicada equipada de maluquinhos dos carros. E conduz-se como tal.

 É para o que é!

Ao contrário do 208 GTi, que parece tranquilo até se apertar com ele, o Yaris GRMN tem uma atitude desportiva desde que se pressiona o botão de arranque. Ou até antes, visto ter um spoiler traseiro maior, ponteira de escape central e uma frente mais agressiva. Só é pena que mantenha o interior do Yaris, com a pouca regulação em alcance do volante a dificultar o ajuste da posição de condução. No 208 já se sabe: ou se gosta ou se odeia o volante pequeno. Nós gostamos.

 

Acordados os motores, cabe aos escapes assumir o protagonismo e o Toyota abafa por completo o Peugeot. Tem notas mais metálicas, mais agressivas, desde o ralenti. Acorda com estrondo, mantendo o alvoroço ao longo de toda a faixa de utilização, enquanto o francês reserva o alarido para os regimes elevados. Razão pela qual consegue ser mais utilizável no dia-a-dia, onde a suspensão mais branda joga a favor dos ocupantes. O refinamento geral também é superior no Peugeot, com o Yaris GRMN a mostrar que os engenheiros da Gazoo Racing consideraram o isolamento das cavas de rodas um lastro supérfluo.

 

Escapes à parte, em cidade os dois pequenos desportivos conduzem-se de forma equivalente. O Yaris GRMN apoiado pelo compressor volumétrico e o 208 GTi a flutuar numa confortável almofada de binário. Rápidas e precisas, as caixas manuais de seis velocidades estão afinadas em sintonia com o posicionamento dos desportivos. Ligeiramente mais confortável para a Peugeot. Com um toque mais mecânico para a Toyota.

Pequeno samurai

As diferenças extremam-se à medida que a estrada aperta. Suave e progressivo na primeira metade da escala do taquímetro, como se tivesse sido afinado para uma condução de cidade, o motor Toyota explode entre as 4000 e as 6000 rpm. Ainda sobe mais 800 rotações, mas é naquele intervalo que brilha. Ao lado, o motor Peugeot assume o turbo e, embora tenha o corte de motor marcado às 6200 rpm, prefere que a agulha se mantenha na primeira metade da escala.

 

Muito direta, a direção do Yaris GRMN surpreende pelo elevado grau de comunicação que estabelece com o eixo dianteiro. Este é muito preciso e fácil de posicionar. No entanto, com a estrada a secar, o Toyota revelou uma inesperada tendência para perder tração na saída das curvas mais fechadas. A segunda é para esquecer! Mesmo nas zonas tradicionalmente feitas nessa relação, é melhor sair de terceira para ter mais poder de fogo.

 

Por causa da chuva, andámos muito de lado, mas sempre de forma fácil de controlar. O Yaris GRMN mexe-se como um bloco, com uma traseira muito fácil de envolver na brincadeira. Um jogo entre o volante e o acelerador tão intuitivo como viciante. Muito resistentes às utilizações intensivas, os travões têm uma dentada inicial dura. Acabam por ser fáceis de modular, mas precisam de habituação. Ao fim de alguns quilómetros acabámos por nos habituar aos consumos, que não baixam dos 10 l/100 km…

Equilíbrio felino

O Toyota pode ter uma caixa com escalonamento curto e relação peso/potência favorável, mas o Peugeot tem mais binário e uma segunda que chega aos 100 km/h e lhe permite ganhar a prova de arranque. Na verdade, o 208 GTi só perde para o Yaris GRMN no quilómetro de arranque e por apenas 0,3 segundos. Também as recuperações são todas favoráveis ao motor 1.6 e-THP.

 

Mesmo sem atingir o nível de comunicação do Toyota, a direção continua a ser uma das mais interativas do segmento. Ampliadas pelo pequeno diâmetro do volante, as correções podem fazer o 208 GTi parecer excessivamente nervoso. Há quem não goste. Nós entendemo-las não como um defeito, antes como uma caraterística. Apanhado o jeito ao volante, o Peugeot agarra-se à estrada com uma determinação felina.

 

O eixo traseiro não é tão fácil de provocar como o do Yaris GRMN. Em compensação, a estabilidade em curva é superior. As irregularidades que podem desequilibrar o Toyota, e a maioria dos concorrentes do segmento, são absorvidas pela suspensão com naturalidade. Com todos os pneus em contacto permanente com o solo e o autoblocante a garantir que o binário não se perde pela roda interior, o 208 GTi é mais eficaz.

 

Lado a lado numa pista, o acerto mais firme da suspensão japonesa é capaz de colocar o Yaris GRMN em vantagem. Nada melhor que um “track day” para tirar as dúvidas. Se a vida fosse como um livro de banda desenhada, íamos já com os dois para uma pista. Como não é, despedimo-nos do Toyota Yaris GRMN com a esperança que esta história tenha continuação. Pode ser excessivamente caro e tão focado na pista que perde alguma funcionalidade no quotidiano, mas é isso que se espera de uma edição especial de colecionador. Igualmente especial é o Peugeot 208 GTi by Peugeot Sport. Não é tão exclusivo, mas é mais eficaz e funcional. Tem outra grande vantagem: se quisermos um, ainda o podemos comprar.

 

Comparativo publicado na Turbo 441

Esta metodologia não se aplica a este comparativo, estando todas as informações no texto principal.

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