Opel Karl 1.0cc 75cv vs Smart ForFour 1.0cc 71cv

Texto: Ricardo Machado / Fotografia: José Bispo
Data: 5 Outubro, 2017

Acompanhar o ritmo de um Smart Forfour no coração de um bairro histórico não é fácil. O novo Opel Karl aceitou o desafio para um frente a frente entre citadinos que não se medem aos palmos.

Ruas estreitas, becos labirínticos, pátios recônditos… os bairros históricos são perfeitos para jogar às escondidas. São também o cenário indicado para pôr à prova o novo Opel Karl frente a um especialista em ambientes urbanos como o Smart Forfour. Pode não ser dos segmentos mais apelativos mas, como o sucesso não se alcança sem uma base sólida, a generalidade dos construtores não pode ignorar os citadinos.

Criada para a cidade, é neste ambiente que a Smart se sente mais confortável. Uma realidade que é tão verdadeira para a carroçaria de dois como para a de quatro lugares. Esta última desenvolvida em conjunto com a Renault e que tem no Twingo um gémeo com pronúncia francesa. A Opel foi, literalmente, mais longe com o Karl que, para além de estrear uma nova plataforma do universo GM, é produzido na Coreia do Sul.

Ao lado da irreverência do Forfour, o Karl parece conservador. Separados pelo posicionamento, os citadinos reencontram-se na escolha de motores. Gasolina, três cilindros, sem os turbos da moda e 999 cc de cilindrada. Naturalmente que potência e prestações não impressionam, mas estão perfeitamente adequadas à condução citadina a que se destinam. As caixas também, ambas com cinco velocidades. Um imprevisto logístico fez com que o Smart Forfour fotografado tivesse caixa automática Twinamic, no entanto, todas as medições e considerações foram feitas com o de caixa manual. Neste cenário, o equilíbrio estende-se ao preço, com os dois modelos a estarem separados por apenas cem euros.

TAMANHO CONTA

Os citadinos querem-se pequenos e, com 3,5 metros, o Forfour tem poucos concorrentes à altura. Com mais 18 cm de comprimento, o Karl não é um deles. Os centímetros a mais foram aplicados no espaço do habitáculo e da bagageira, um campo onde o Smart dificilmente pode competir, uma vez que o motor traseiro rouba um espaço significativo à mala.

Num segmento onde a chapa à vista e os plásticos duros ainda são a regra, Opel e Smart representam duas agradáveis exceções. Não tanto pela suavidade dos plásticos, todos duros, embora com combinações de texturas agradáveis ao toque, antes pelo cuidado da montagem. Interior e carroçaria apresentam painéis bem rematados, folgas uniformes e pouca chapa à vista. Com quatro portas de abertura ampla, não há problemas de acessibilidade. No Smart entra-se melhor para a frente e no Opel para trás, o que os deixa equilibrados.

A balança deste capítulo cai definitivamente para o lado Opel na segurança ativa. Numa época em que o controlo de estabilidade é um dado adquirido, a diferença começa a ser feita por sistemas até agora exclusivos de segmentos superiores, como o assistente de faixa de saída de rodagem. No Opel está incluído, juntamente com as jantes de 15’’ em aço e os faróis de nevoeiro com luz de curva, no Pack Style (700€) que é oferecido no lançamento do Karl. No Smart custa 395€.

CINCO LUGARES

O espaço interior é, provavelmente, o bem mais valioso de um citadino. Karl e Forfour aproveitam-no da melhor forma, refletindo os posicionamentos distintos das carroçarias. O Smart jovem e alegre, o Opel mais conservador, como uma reprodução à escala de um utilitário, o que é inovador no segmento. O Forfour posiciona as rodas nos extremos da carroçaria para oferecer mais 10 cm de distância entre eixos, mas não há nada a fazer. O Karl é maior. Não muito, apenas o suficiente para oferecer um pouco mais espaço para as pernas e três lugares na fila traseira.

O túnel central é mais baixo que o do Smart que, sem roubar espaço para as pernas, por ter apenas dois bancos individuais, pode atrapalhar as passagens de um lugar para o outro. Ambos os bancos têm costas direitas e alinhadas com as molduras das portas, facilitando o acesso, contando os do Forfour com uma posição de carga. As costas ficam demasiado direitas para serem confortáveis, mas ganham-se preciosos litros de espaço na mala.

À frente, a criatividade do Smart esgota-se na decoração. Muito dinamismo e originalidade, poucos espaços de arrumação. Com linhas relativamente direitas, ambos os citadinos terminam pouco depois do vidro traseiro, facilitando a visibilidade durante as manobras de estacionamento. 

Com apenas uma versão e poucos opcionais, o Opel simplifica o momento da compra. Sofrendo de alguns “tiques” da casa mãe Mercedes, o Smart complica a escolha e as contas. A versão base, aquela que só custa mais 100€ que o Karl, não tem nem ar condicionado nem rádio. Para ter estes elementos mundanos é necessário optar por uma das três linhas de equipamento, como a Passion (1800€) do modelo que ilustra estas páginas. De série para todos os Forfour é o airbag para os joelhos do condutor, uma raridade no segmento, e um maior refinamento no pisar, que contribui para uma sensação de conforto global superior. No entanto, não chega para reclamar a vitória num parcial dominado pelo Karl, que reforça a posição com um isolamento acústico superior.

TRÊS CILINDROS

Num outro segmento podíamos entrar em considerações acerca das vantagens dinâmicas da tração traseira do Smart face à dianteira do Opel. Mas estamos perante dois citadinos, com motores de três cilindros, naturalmente aspirados e potências de 75 CV (Karl) e 71 CV (Forfour).

Podendo ser expresso com apenas dois algarismos, o binário também não impressiona. Mesmo chegando mais cedo (2850 rpm) e ao eixo traseiro, os 91 Nm do Smart não conseguem nem descolar a traseira nem ser mais rápidos que os 95 Nm/4500 rpm do Opel. Mais leve e potente, o Karl deixa sempre o Forfour para trás nos arranques e nas ultrapassagens.

Com cinco relações cada, as caixas de velocidades são leves e fáceis de utilizar, como se espera de carros vocacionados para utilizações urbanas, repletas de semáforos, trânsito, cruzamentos… Uma afinação mais suave da suspensão do Smart, mesmo com jantes de 16’’ contra jantes de 15’’ no Opel, favorece o conforto dos ocupantes sem chegar para desfazer o empate neste capítulo.

DIREÇÃO MAIS DO QUE ASSISTIDA

Não é pela falta de regulação em alcance dos volantes que as posições de condução se distinguem. É pela inclinação ligeiramente mais vertical do volante do Smart e pelo espaço que a ausência de motor à frente cria. Para além de melhorar a posição de condução, a arquitetura do Forfour permite encolher o diâmetro de viragem até aos 8,7 metros. O Karl não consegue melhor do que 9,8 metros, tentando compensar esta limitação com um modo de assistência da direção especialmente intenso para cidade, que acaba por não ser necessário dada a leveza do modo normal.

Entre a direção leve de um e o curto raio de viragem do outro, não há manobra urbana que atrapalhe Karl ou Forfour. Em estrada ou autoestrada, os dois citadinos evidenciam as limi
tações caraterísticas dos especialistas quando retirados do seu meio. As direções tornam-se hesitantes, as ultrapassagens exigem cálculo e as curvas antecipação. Com pneus mais largos, 205/45 R16 contra 185/55 R15, o Forfour é mais confiante a curvar. Segura melhor a trajetória e aguenta velocidades mais elevadas antes da inevitável subviragem nas curvas fechadas. A potência de travagem é tão limitada como a potência estando, como esta, adaptada às necessidades da condução em meio urbano.

ECONOMIA CINCO ANOS DE GARANTIA

Embora a probabilidade de alguém comprar uma versão base ser baixa, elas existem e têm de ser consideradas. Nesse cenário, a relação preço qualidade do Karl é superior. Acrescentando os 1800€ da primeira linha de equipamento do Forfour, Passion, a balança inclina-se para o lado do Smart. O Ar condicionado é automático e encontram-se pequenas atenções que podem fazer a diferença, como o espelho de cortesia ou pega para o passageiro. Os vidros traseiros, esses, continuam sempre a abrir em compasso.

As emissões inferiores a 100 g/km e os consumos mais baixos inclinam a balança para o lado do Forfour. Importa referir que o Karl chegou às nossas mãos com pouco mais de 20 km. Pelo que, apesar de termos rodado intensamente com ele durante os dias em que esteve na nossa companhia, é provável que ainda venha a aproximar mais os consumos reais dos 4,5 l/100 anunciados. Acrescentando 10 000 km aos intervalos de revisão do Smart, o Karl responde com custos de utilização inferiores. O golpe final para reclamar a vitória parcial e final é dado pelos cinco anos de garantia.

 


Ensaio publicado na Revista Turbo 408, de setembro de 2015