Mercedes GLC 205 D 4 Matic Coupé vs BMW X4 M40I

Texto: Ricardo Machado / Fotografia: Vasco Estrelado
Data: 26 Agosto, 2017

Há 10 anos, a ideia de produzir um SUV coupé era tão exótica como imaginar um monovolume BMW com sete lugares e tração dianteira. No entanto, em 2008, a BMW apresentou uma versão do X5 com a linha do tejadilho a cair para a traseira e apenas quatro lugares, à qual chamou X6. Recebido pela crítica como um patinho feio, não tardou para que o X6 se transformasse num verdadeiro cisne comercial. De tal forma que fez escola, tanto em casa, com o X4, como fora, onde não faltam construtores com propostas semelhantes.

Quando a escolha de um SUV é orientada por critérios de espaço e funcionalidade, modelos de quatro lugares e altura posterior limitada não têm argumentos para competir com as versões tradicionais. Alterar os critérios de seleção para imagem é o suficiente para inverter os pratos da balança. Isso e acrescentar uma almofada entre os dois lugares traseiros. Não melhora a funcionalidade, mas permite homologar cinco lugares.

Depois da BMW ter adotado esta lotação para o X6 e o X4, a Mercedes não podia ter lançado o tão aguardado GLC Coupé com menos lugares. Curiosamente, a carroçaria mais desportiva do GLC estreia-se no mercado nacional com uma única motorização diesel, o Mercedes GLC 250 d 4Matic Coupé, deixando a versão AMG de 367 CV para o SUV tradicional. No mercado desde 2014, o BMW X4 teve tempo para consolidar uma gama, onde a gasolina tem uma inesperada predominância sobre o gasóleo. Quatro motorizações, contra três diesel, sempre com tração integral.

Com motor de dois litros, quatro cilindros e 190 CV, o X4 xDrive 20d seria o adversário mais direto do GLC 250 d Coupé e do bloco 2.1 de 204 CV. Até no preço, com o BMW a custar 59 845€ face aos 61 150€ do Mercedes (79 287€ depois de somados os extras). Mas como para semelhanças já chegam as das imagens, optámos pela versão mais potente do X4, animada pelo motor de seis cilindros em linha, com três litros e 360 CV. O preço resvala para os 83 881€ (101 274€ com opcionais), aos quais é preciso adicionar 663,75€ de IUC. Um exagero, comparado com os 250,61€ que o Mercedes paga pelo mesmo imposto.

Ensaio publicado na Revista Turbo 423, de dezembro de 2016

SEPARADOS À NASCENÇA

Conviver com o GLC Coupé e com o X4 ao mesmo tempo pode ser monótono. Por melhor que os departamentos de marketing defendam a individualidade de cada modelo, o comentário que mais ouvimos foi: “Mas são iguais…”. Com a prática, a resposta tornou-se automática: Parecem. Mas, na realidade, o GLC Coupé é 6 cm mais comprido, 1 cm mais estreito e 2 cm mais baixo. Também é 75 kg mais leve, mas o mais importante é acrescentar 6 cm à distância entre eixos do X4. “Então é mais espaçoso que o BMW?”, Inquiriam os mais interessados. Sim, mas não é linear. 

Antes de ocupar qualquer dos lugares traseiros é preciso entrar, o que se faz de forma mais desimpedida para o X4. Mais baixo, o GLC obriga a maior agilidade para ultrapassar a linha descendente do tejadilho. Convém igualmente ter um bom jogo de pernas para evitar os estribos que, para além de custarem 600€ e serem muito bonitos, servem para pouco mais do que sujar a roupa de quem entra ou sai do GLC Coupé.

 

Uma vez no interior, há de facto mais espaço no Mercedes. A cabeça não bate no pilar C à primeira distração, como acontece no BMW, e as pernas têm mais folga. Esta deve-se, sobretudo, ao posicionamento mais baixo do piso, que permite arrumar os pés sob os bancos dianteiros. No BMW, o piso mais elevado facilita o acesso e minimiza o impacto do túnel central no conforto de quem tiver de ocupar o lugar do meio. 

Na bagageira é a funcionalidade que resolve o empate das dimensões: quinhentos litros, expansíveis até aos 1400 l pelo rebatimento 40:20:40 das costas dos bancos traseiros. Tudo igual, até na planura do piso. Para desempatar, a BMW posiciona o plano de carga a uma altura mais acessível, ao que a Mercedes responde com o rebatimento das costas dos bancos da fila posterior a partir da bagageira e com um melhor aproveitamento do espaço sob o fundo falso. 

 

PISAR FIRME

Resolvida a questão dos acessórios, vamos ao banco que realmente interessa. O que está diretamente atrás do volante. Voltamos a não encontrar grandes diferenças. Subordinando-se às políticas de partilha de componentes e economia de escala, GLC Coupé e X4 apresentam interiores facilmente identificáveis com os respetivos construtores. O que, sem abonar a favor da individualidade, é garantia de design sóbrio com materiais de qualidade e montagem competente.

Encontrar diferenças entre posições de condução com múltiplas regulações para bancos e volante, não é fácil. É preciso procurar pormenores como o alinhamento da coluna de direção com o banco, melhor na BMW, ou dos pedais com o banco, melhor no Mercedes. Tudo o resto é uma questão de gosto ou orçamento para extras como o Pack bancos conforto (250€) do GLC Coupé ou o Head-up display (1140€) do X4. 

Para além do segredo para a diferenciação, as listas de opcionais escondem igualmente componentes determinantes para o desempenho. Com afinação específica M Performance para a direção, suspensão e caixa de velocidades, o X4 M40i não precisa de mais do que um conjunto de jantes de 20’’ (1035€) com pneus 245/40 à frente e 275/35 atrás. Orientado para o conforto, o GLC Coupé não dispensa a suspensão pneumática Air Body Control (2350€), que pode ser complementada com jantes de 20’’ (1050€), com borrachas 255/45 à frente e 285/40 atrás. Pneus com perfil um pouco mais alto e suspensão pneumática garantem ao GLC Coupé um nível de conforto superior ao do X4, sempre muito controlado de movimentos e seco no pisar.

 

 

Esta metodologia não foi aplicada a este ensaio

SEIS EM LINHA

Unidos pelo conceito e dimensões, tanto exteriores como interiores, GLC 250 d Coupé e X4 M40i não podiam ter posiciona
mentos mais díspares. Em concordância com o M que ostenta no nome, o X4 assume a vertente desportiva. Essencial para segurar quase duas toneladas de BMW em movimento acelerado, a suspensão firme torna-se desconfortável no quotidiano. A cidade não promove as mudanças de direção rápidas ou as curvas em apoio de uma boa estrada de serra. Neste ambiente, o X4 M40i aproxima-se da agilidade de um Porsche Macan, com a direção a reportar com fidelidade o trabalho do eixo dianteiro.

Percorrer os modos de condução até ao Sport+ promete reduzir a intervenção do controlo de estabilidade e ampliar a margem de manobra do eixo traseiro. Intenções boas, com pouco efeito prático num X4 M40i que, para BMW, surpreende pela neutralidade de reações. A tração integral deveria privilegiar a traseira, mas acaba por ser a frente a primeira a ceder. Acelerando o processo de desgaste e perda de sensibilidade, os travões são a forma mais eficaz de desestabilizar o X4.

Não se pode dizer que, com 306 CV, o motor 3.0 de seis cilindros em linha do X4 35i seja desinteressante. Não é. Só não é merecedor de um M. Para o ser, aumentou a pressão do turbo, utilizou uma admissão específica e reprogramou a eletrónica. A potência subiu para os 360 CV e, mais importante, os 465 Nm de binário atingem o planalto às 1350 rpm, mantendo-se estáveis até às 5250 rpm. Tão rápida a desmultiplicar como a reduzir, a caixa automática de oito velocidades ajuda a rubricar um tempo de 5,3 segundos no arranque até aos 100 km/h. Apenas meio segundo mais lento que o M2.

Trocar o X4 M40i pelo GLC 250 d Coupé é como trocar um concerto de AC/DC por um de Michael Bublé sem sair da mesma sala de espetáculos. A energia eletrizante do sexteto de Munique, bem apoiado por um escape desportivo, é substituída pela tranquilidade compassada do quarteto de Estugarda. As notas do escape são tão vivas quanto o andamento, mas já não apetece atacar cada curva como se fosse a última. Há toda uma descontração proporcionada pelo Air Body Control. As jantes de 20’’ deixam de contar todas as irregularidades, enquanto a carroçaria acompanha as curvas com suavidade, sem tentar cuspir os ocupantes para fora dos bancos.

Com a intervenção da AMG limitada aos packs de equipamento, o GLC 250 d Coupé é a escolha racional. Embora tenha o pico dos 500 Nm de binário entre as 1600 e as 1800 rpm, o diesel de 2.1 litros dá o seu melhor por volta das 2500 rpm. Manter este regime é garantia de resposta na ponta do acelerador. Como acontece com a generalidade das transmissões automáticas Mercedes, é no modo Auto que a 9G-Tronic melhor explora os 204 CV. Tanto pode acelerar até aos 100 km/h em 7,6 segundos no modo Sport, como gastar apenas 4,8 l/100 km no modo Eco, com velocidade estabilizada nos 90 km/h.

Agradavelmente comunicativa, a direção mantém uma ligação direta com o eixo dianteiro. Com a neutralidade como nota dominante, volta a ser a frente a primeira a ceder. No entanto, a velocidade de entrada em curva pode ser elevada para um SUV com um nível de conforto comparável. Se as curvas rápidas são despachadas com elegância e rapidez, as saídas dos ganchos podem ser mais mastigadas.

 

Esta metodologia não foi aplicada a este ensaio

Sem entrar em discussões filosóficas sobre a utilidade de um SUV coupé desportivo, não restam dúvidas quanto à superior racionalidade do Mercedes. Mesmo perante um X4 com motor diesel e ambições práticas equivalentes, a habitabilidade superior e alguns pormenores de funcionalidade deixam o Mercedes GLC 250 d Coupé em vantagem. 

 

Ensaio publicado na Revista Turbo 423, de dezembro de 2016