Hyundai Tucson 1.7 CRDI DCT vs Nissan Qasqhai 1.6 DCI xTRONIC

Texto: Marco António / Fotografia: José Bispo
Data: 9 Dezembro, 2017

A rivalidade entre a Coreia e o Japão já vem de longe e por isso o confronto entre as versões de caixa automática do Hyundai Tucson 1.7 CRDi e do Nissan Qasqhai 1.6 dCi acaba por ser um combate sem grandes sobressaltos.

Faz no próximo ano 10 anos que a Nissan lançou o primeiro Qasqhai e que a Turbo foi a única publicação portuguesa e uma das poucas do mundo inteiro que participou num programa inédito de desenvolvimento promovido pela marca nipónica, composta por ações que foram dos ensaios até ao debate sobre as melhores soluções técnicas a adotar por um veículo que queria criar o novo conceito “crossover”, até aí totalmente desconhecido.

Participámos até na discussão académica sobre a utilidade desse conceito, que começou por ter fortes reservas no meio jornalístico especializado. O tempo entretanto serviu para provar que uma ideia visionária se tornou num verdadeiro “case study” de vendas.

O sucesso foi tão grande e tão rápido que o prazo de encomendas chegou a meses de espera, sem que os clientes desistissem, quando no mercado havia outras ofertas mais tradicionais como o VW Golf, na altura o carro mais vendido do seu segmento.

O segredo do conceito “crossover” deve-se, sobretudo, à combinação num só produto de três conceitos base (SUV, monovolume e berlina), uma fórmula que o mercado reivindicava há muito tempo e que a marca japonesa tão bem soube interpretar. O sucesso foi estrondoso e por isso não tardou que muitas marcas tivessem reagido e ido ao encontro de um mercado ávido de carros diferentes.

HYUNDAI ATENTA

Uma das marcas que tentou logo responder foi a Hyundai, quando lançou o Tucson em 2010 (três anos depois), recuperando um nome dado a anteriores SUVs, a que se seguiu o iX35, ao qual a nova geração do Tucson foi buscar grande parte das soluções tecnológicas, ao mesmo tempo que reforçou a vertente SUV.

Uma fórmula cuja evolução tem perturbado e condicionado a estratégia da Nissan para o Qashqai, que também tem vindo a evoluir bastante, como comprova a segunda geração, lançada em 2013 depois de sucessivos “upgrades” da primeira, como uma versão mais longa de sete lugares, o “Qasqhai+2”.


Comparativo publicado na Revista Turbo 421, de outubro de 2016 

O conceito crossover é hoje em dia tão popular que rapidamente se estendeu a outros segmentos de mercado nomeadamente aos mais pequenos. A febre é tão grande que há quem chame “crossovers” a monovolumes como forma de animar um conceito que tem vindo a perder terreno, não só para os crossover como para os SUVs, um segmento que também está a crescer muito na Europa.

Como dissemos anteriormente, qualquer destes dois protagonistas conduz-se como um carro, tem o estilo e anda fora de estrada como um SUV e tem espaço e funcionalidades típicas de um monovolume, podendo nalguns casos chegar a ter 7 lugares.

O novo Qasqhai perdeu no entanto essa caraterística, que passou a ser oferecida pela nova geração do Nissan X Trial que usa a mesma plataforma, um pouco mais comprida. O sucesso do carro japonês é tão grande que a tendência tem sido copiar (nalguns casos clonar) certas soluções, nomeadamente o estilo!

A fusão é por vezes tão evidente que há quem diga que a identidade de cada modelo está hoje bastante mais diluída. Seja como for, isso não tira o mérito de algumas soluções. É o caso do Hyundai Tucson, que segue a mesma receita numa carroçaria que supera o seu adversário nas dimensões exteriores.

Não só é mais comprido (10 centímetros), como é 5 centímetros mais alto e mais largo. Por essa razão, infelizmente, o Hyundai só consegue pagar classe 1 nas portagens com via verde, enquanto o Qasqhai não precisa de fazer nenhum contrato com a Brisa.

Sendo maior, o modelo coreano é mais espaçoso, como prova a diferença de 210 pontos a seu favor no índice de habitabilidade. Este aumento deve-se, sobretudo, à vantagem de ser mais largo e mais alto internamente à frente e atrás e de ter o habitáculo mais comprido. Também a mala recebe mais bagagem, superando os 500 litros, enquanto o Nissan se fica pelos 430 litros.

Como o interior não se mede só aos pontos, na funcionalidade o Qasqhai não fica a dever nada ao seu adversário, ainda que, neste conceito de crossover, não seja tão radical quanto os monovolumes, pois não tem bancos individuais atrás, nem tanto locais para guardar pequenos objetos, debaixo do piso e outros. Mas há uma coisa que o Qasqhai tem mais: equipamento. A tal ponto que a versão mais equipada do Nissan custa quase tanto como a versão menos dotada de equipamento do Hyundai. Esta vantagem torna o interior não só mais agradável e confortável como mais hi-tech.

Com uma superfície vidrada muito semelhante, devido à forma da carroçaria, o Qasqhai tem melhor visibilidade graças à câmara de 360 graus. A sua eficácia é tão grande que se tapássemos todos vidros conseguíamos estacionar ou executar as manobras mais fáceis olhando simplesmente para o ecrã de 8 polegadas, tantas quanto o ecrã do Tucson que, não tendo tantas funções, tem um manuseamento muito semelhante.

HYUNDAI COM MAIS 10 CV

Neste caso, a caixa automática de sete velocidades e dupla embraiagem do Hyundai Tucson é um exclusivo do motor 1.7 CRDi de 141 CV (mais 10 CV que o motor 1.6 dCi do Nissan) enquanto o Qashqai tem como alternativa à caixa automática de variação continua Xtronic a caixa manual de 6 velocidades. A marca coreana só oferece essa opção na versão de 115 CV do mesmo motor.

Esta é a principal novidade do Tucson e a razão de ter desafiado o líder de vendas do segmento. Devido a problemas de calendarização, o Nissan que utilizámos para a sessão fotográfica não é o mesmo que usamos para as medições e toda a avaliação comparativa, feita com a versão automática.

As caraterísticas de cada uma das transmissões são completamente diferentes e por isso seria de supor que o resultado final, em termos de prestações, pudesse ser diferente. Porém, não é muita a diferença e, se nas acelerações o Tuson é ligeiramente mais rápido, também porque é mais potente e tem mais binário, nas recuperações a caixa de variação contínua com conversor de binário do Nissan consegue ser tão ou mais rápida que o Hyundai.

Isso deve-se ao facto do motor 1.6 dCi possuir um índice de elasticidade ligeiramente mais elevado e ter praticamente o mesmo rendimento. E se na versão manual uma das críticas mais comuns é um fosso antes das 2000 rpm, nesta versão automática esse sintoma desvanece-se tornando a condução mais agradável e suave, eliminando a tendência para carregar no acelerador nesse período.

PESO CONDICIONA COMPORTAMENTO

No Tuson e ao contrário do que acontece com o motor de 115 CV, esta versão com mais músculo é mais “bruta”. No entanto, consegue proporcionar um comportamento equilibrado, especialmente se o trajeto não tiver muitas curvas. Embora a diferença de peso entre os dois não seja muito grande, o facto de o Hyundai ser mais alto gera um rolamento lateral maior, que só não é mais acentuado porque a estrutura da suspensão contraria essa tendência.

O esquema mais simples do Nissan, juntamente com jantes de 19 polegadas e pneus de baixo perfil, garantem um comportamento mais agradável, ainda que essa escolha penalize o conforto nos pisos mais irregulares, onde as jantes mais pequenas do Hyundai e os pneus de maior perfil garantem um padrão de conforto mais elevado. Como diz o velho ditado “não há bela sem senão” e por isso as ajudas ativas nestas versões 4x2 atuam mais frequentemente no Hyundai. Acresce que, nas descidas fora de estrada, o Hyundai tem uma assistência específica que controla a travagem nessa situação. O Nissan não conta com isso nesta verão 4x2 mas tem travão elétrico.

Metodologia não aplicada a este ensaio. Passar para o próximo capítulo.

Como dissemos mais atrás, a relação preço/equipamento, também conhecida por “value for money”, é melhor no carro japonês, que tem um preço mais baixo. Tal como no Hyundai, este pode descer com as campanhas de desconto, enquanto a garantia de 3 anos ou 100 000 Km pode subir até aos 5 anos ou 100 000 quilómetros caso o cliente já tenha um Nissan! Nos custos de utilização, o Hyundai tem ainda a vantagem de oferecer manutenção programada durante 5 anos.

Também o tipo de financiamento proposto gera um abatimento significativo, colocando o preço do modelo coreano quase ao mesmo nível do Nissan, que tem nessa situação uma redução mais modesta. No pronto pagamento o abatimento é mais pequeno. Neste capítulo, a vantagem do Nissan é mesmo o nível de equipamento. Em resumo, nunca a vantagem do Qasqhai foi tão pequena no cômputo geral, o que prova que os concorrentes, neste caso o Hyundai, estão cada vez mais atentos.