HONDA JAZZ 1.3 I-VTEC vs NISSAN NOTE 1.2 DIG-S

Texto: Marco António / Fotografia: José Bispo
Data: 5 Julho, 2017

As parecenças entre o Jazz e o Note ditam grande rivalidade. Mas ganha o Honda…

Construído a partir da mesma plataforma do HR-V, o Jazz não só mantém intactas as suas qualidades técnicas como reforça a vocação familiar, graças ao conceito de pequeno monovolume replicado por outras marcas. É o caso do Nissan Note, um modelo que, tendo mais espaço interior, apresenta também várias soluções interessantes no domínio da funcionalidade, a par de uma inovação tecnológica abrangente, que vai desde a segurança até aos motores. Basta referir que, enquanto o Honda Jazz conta apenas com um motor e quase uma lista de equipamento única, o Nissan Note é mais eclético graças a um portfólio que contempla várias motorizações, incluindo uma versão diesel, vários níveis de equipamento e uma lista de opções mais completa. Neste segmento de mercado poucos são os concorentes com as mesmas qualidades.

MONOVOLUMES MAIS PEQUENOS

Com um design mais arrojado para alguns e menos apelativo para outros, o novo Honda Jazz é 9,5 centímetros mais comprido que o seu antecessor, enquanto a distância entre eixos cresceu 3 centímetros. Mesmo assim é mais pequeno que o Nissan Note. Em contrapartida, oferece uma qualidade real e percecionada melhor, devido à sua conceção mais recente. A qualidade de construção é, desde logo, valorizada pelo rigor de uma montagem que não cede um milímetro ao seu adversário. O design exterior coloca o Jazz em linha com o resto da gama, ao mesmo tempo que estreia novas tecnologias, como as luzes diurnas tipo LED.

As jantes de 16” valorizam entretanto o aspeto robusto e a segurança do Jazz (no Note as jantes são mais pequenas). Esta é valorizada por uma panóplia de novidades que vai muito além dos sistemas mais conhecidos. É o caso do assistente de condução ágil ou da lógica EDDB (Reduções Antecipadas Durante a Travagem) ou ainda da função Fast Off (Desaceleração Rápida) cujos efeitos estudaremos adiante. A melhor resposta nesta matéria por parte da Nissan é o inovador monitor de visualização da área circundante, que tanto jeito dá nas manobras na cidade.

Mudando de tema e voltando à influência da forma sobre a aerodinâmica, os valores apresentados não favorecem nenhum dos modelos, ainda que o Honda apresente uma maior superfície frontal. Esta não tem, contudo, nenhuma influência na forma e capacidade da mala, maior e mais funcional no Honda Jazz, enquanto na acessibilidade há vitória “ex-quo”, pois se à frente o Jazz é melhor, atrás passa-se exatamente o contrário.

AS APARÊNCIAS ILUDEM

O maior indice de habitabilidade pertence ao Note, que obteve mais 20 pontos na fórmula que avalia o espaço interior, o que não impede o Honda de continuar a apresentar a funcionalidade mais inovadora do segmento B. Isso deve-se à magia do banco traseiro que, dividido assimetricamente, assume configurações que mais nenhum outro modelo oferece. Esta solução, não sendo nova, é uma mais valia que garante ao pequeno monovolume japonês uma grande capacidade de carga ao ponto de podermos transportar uma bicicleta atrás dos bancos dianteiros ou objetos mais longos sem constrangimentos. O Note responde apenas com o mecanismo de deslizamento do banco posterior. Mesmo assim, essa não é uma opção transversal a todas as versões, ao contrário do que acontece com o Honda Jazz. O Nissan também não oferece um fundo de mala plano com os bancos rebatidos.

O interior vale também pela qualidade dos materiais, um aspeto favorável ao Honda, que estreia novas soluções, e pela qualidade real, medida por níveis de conforto que aproximam o Honda de modelos mais evoluídos. O mesmo acontece com um conjunto de equipamentos, mas aqui o Nissan acompanha o seu rival. É o caso do ecrã tátil a partir do qual podemos aceder e controlar múltiplas funções. O do Honda é maior, garantindo melhor visualização da informação, incluisé a imagem da câmara traseira. A superior qualidade do Honda tem também reflexos na insonorização, conforme se constata nos valores de ruído medidos no interior, embora para isso contribua o funcionamento mais irregular do motor 1.2 DIG-S de três cilindros da Nissan.

3 CONTRA 4 CILINDROS

O conceito “dowsizing” é uma das caraterísticas dos carros mais pequenos, como o Nissan Note, cujo motor tem três cilindros contra os quatro do Honda Jazz. Mas existem outras diferenças: enquanto o motor do Honda é atmosférico, o da Nissan é sobrealimentado por um compressor volumétrico. Mesmo assim, o motor do Note tem menos 4 CV (98 CV). Em compensação oferece um binário mais elevado que surge mais cedo. Isso não pressupõe que as prestações sejam mais rápidas, conforme confirmámos.

Para além das acelerações mais lentas, as recuperações não conseguiram ser mais rápidas, devido à caixa de apenas 5 velocidades, contra as 6 velocidades do Honda. Este revelou uma gestão mais inteligente da distribuição, de forma a compensar as vantagens da solução que combina a injeção direta e a sobrealimentação proposta pelo Nissan no motor 1.2 DIG-S. Há, no entanto, uma solução técnica comum aos dois motores, trata-se do ciclo Atkinson usado pela Honda e o ciclo Miller adotado pelo Nissan. Apesar de terem nomes diferentes, ambos os ciclos defendem o mesmo principio de funcionamento. Neste caso a ideia é criar um efeito equivalente ao aumento da taxa de compressão sem correr o risco de haver detonação. Para que isso aconteça a válvula de admissão fecha mais tarde, de forma a provocar um refluxo dos gases no coletor de admissão. A injeção direta associada à sobrealimentação do pequeno motor de 3 cilindros do Note garante consumos ligeiramente mais baixos.

De referir também que na construção do motor a Honda teve o cuidado de reduzir o peso, utilizando algumas soluções inova doras, como um coletor feito integralmente em resina. Em relação ao anterior motor, o 1.3 i-VTEC é 27 por cento mais leve, aproximando-se do peso do motor da Nissan, que tem menos 1 cilindro. Apesar da atenção dada aos motores há outras áreas que sofreram melhorias significativas, nomeadamente no domínio das plataformas, com destaque para a do Honda que é nova e para as suspensões que, não sofrendo alterações estruturais, se apresentam mais leves. Especialmente no Honda, onde os amortecedores são agora mais eficazes do ponto de vista do comportamento dinâmico.

MUITA PARRA POUCA UVA

Apesar da falta de regulação do volante em profundidade, o Nissan Note 1.2 DIG-S causa no imediato uma melhor impressão. Isso deve-se, sobretudo, à boa resposta abaixo das 3000 rpm, quando até essa altura o Honda Jazz praticamente não dá sinais de vida, dando a sensação de não ter 102 CV! A partir dessa fronteira tudo se transforma e a prova disso são as acelerações mais fulgurantes, enquanto o escalonamento da caixa de 6 velocidades mostra maior simpatia pelos regimes mais altos onde garante melhores recuperações. Mesmo assim, os tempos não são muito diferentes. E se nos baixos regimes o motor de 3 cilindros é mais ruidoso, quando o ponteiro das rotações sobe a presença do motor 1.3 i-VTEC no interior do habitáculo é mais evidente, uma desvantagem que só não é tão incomodativa devido à superior qualidade dos materiais, associada a uma montagem cujo rigor coloca o pequeno Jazz num patamar superior.

O Honda mostrou também ser mais ágil em curva, graças não só a uma suspensão mais eficaz como a uma direção elétrica mais rápida, que transmite ao condutor um feedback melhorado das trajetórias. Destaque também para a influência da melhor relação entre a largura das vias e a distância entre eixos no comportamento dinâmico do Honda. O Jazz também revelou melhor aderência ao piso, mesmo descontando o facto de a unidade ensaiada trazer jantes maiores e pneus com um perfil mais baixo. Uma prova evidente do bom desempenho do Jazz, especialmente nos trajetos mais sinuosos e de piores condições de aderência, foi a fraca intervenção das ajudas ativas, que no Nissan intervêm mais cedo. Mesmo assim, o Note teve um bom desempenho em provas tão importantes como a travagem, onde só não foi ainda melhor porque a Nissan quis poupar, utilizando tambores nos travões traseiros em vez de discos.

VALHAM-NOS AS CAMPANHAS

A propósito de poupança, merecem destaque as várias campanhas que reduzem significativamente o preço de ambos os modelos. Não fossem os 3000 euros de desconto e o Honda custaria mais de 20 mil euros, um valor que está muito acima da média do segmento e que o afastaria substancialmente do seu adversário, enquanto no Nissan o desconto é de 1300 euros. Mais barato, o Nissan oferece uma melhor relação preço/equipamento, com alguns elementos inovadores neste segmento, como a visão 360º. Também nas garantias as ofertas são semelhantes, a única diferença é que os dois anos suplementares do Note apenas são dados a clientes da marca.

Como já foi referido anteriormente, o Nissan tem consumos ligeiramente mais baixos que, para além de contribuirem para custos de utilização reduzidos, beneficiam as emissões com a vantagem de isso se refletir positivamente do ponto de vista fiscal. Só é pena que não tenha um impacto maior no preço final proposto. Mesmo assim, o Nissan é quase 1000 euros mais barato que o Honda. Se isso é suficiente para anular o fator novidade da terceira geração do Honda Jazz, é o que veremos.

#1HONDA JAZZ 1.3 I-VTEC

A terceira geração do Honda Jazz, que só tem este motor, vence este comparativo graças a um conjunto de atributos, dos quais destacamos a qualidade geral e a excecional funcionalidade


#2NISSAN NOTE 1.2 DIG-S

O pequeno monovolume da Nissan resiste bem à novidade do Honda Jazz, ainda que não o consiga acompanhar em aspetos fundamentais como a qualidade e a funcionalidade.

 

Artigo publicado originalmente na Revista Turbo 411, de dezembro de 2015