Audi Q2 1.6 TDI Sport 1.6 116 cv

Texto: Marco António / Fotografia: Vasco Estrelado
Data: 19 Agosto, 2017

É pequeno, ágil, confortável e move-se bem, quer nos meios mais urbanos, quer nos trilhos offroad, desde que estes não sejam muito radicais, uma tarefa que fica reservada para os seus irmãos mais crescidos (Q3 e outros maiores)

Um olhar atento ao novo Q2 confirma o posicionamento que a marca quer dar ao “Q” mais pequeno da gama, um SUV compacto com ar de coupé. Uma solução que pretende diferenciar-se de todos os possíveis concorrentes e são muitos, fruto da “suvomania”, uma espécie de virose que parece afetar todas as marcas com medo de estar fora de moda. Na verdade, olhando para o panorama das vendas na Europa este é, juntamente com os crossover, o segmento que mais tem crescido e por isso não há marca nenhuma que não esteja contaminada com essa doença. Dizia-nos há tempos um responsável da Nissan que, cada vez são mais os clientes que procuram carros diferentes.

É precisamente essa a resposta que a Audi quer dar ao alargar a gama dos “Q” com este modelo mais pequeno que o Q3, em relação ao qual tem menos 20 centímetros. Uma diferença que não se reflete muito no espaço interior, como veremos mais à frente num confronto direto entre os dois e os seus principais rivais, quase todos eles mais baratos. Neste caso, a versão escolhida para este primeiro grande ensaio tem o motor 1.6 TDi de 116 CV, caixa manual de 6 velocidades e tração dianteira. Neste caso, a tração “quattro” apenas existe na versão equipada com o motor 2.0 TDi de 150 CV e 190 CV. Na verdade, este é um segmento onde nem todos os concorrentes oferecem tração total, especialmente nas versões mais fracas onde essa opção não se justifica, quer do ponto de vista dinâmico, quer do ponto de vista económico já que encarece bastante o preço final.

A forma exterior do Audi Q2 carateriza-se pelos numerosos vértices e linhas bem vincadas num estilo muito anguloso que, segundo a marca, pretende transmitir uma sensação de energia e confiança, mas ao mesmo tempo de robustez.

Ensaio publicado na Revista Turbo 423, de dezembro de 2016

 

A robustez começa por ser trabalhada a partir da plataforma MQB e de um conceito de construção leve, quando comparado com outras realizações do género. Em resumo, o Q2 defende os mesmos padrões de qualidade dos seus irmãos, sejam eles SUV ou não, como se pode observar pelos elevados valores de rigidez torcional, uma caraterística que influencia positivamente outros parâmetros como o comportamento dinâmico e, consequentemente, a segurança ativa. Nesta área, a Audi volta a distinguir-se por oferecer elementos como o bloqueio eletrónico do diferencial (EDS) ou o Audi Drive Select, uma opção que recomendamos e que tanto jeito dá ao recriar vários estilos de condução.

Do seu design algo inovador destacamos, para além da grelha que o identifica com o resto da família, o tejadilho descendente e que se une com os pilares “C” pintados de uma cor que contrasta com o resto da carroçaria e que confere ao Q2 um caráter mais desportivo. Só é pena que o seu tamanho limite bastante a visibilidade traseira e nos faça depender muito das ajudas para facilitar certas manobras, como a câmara e os sensores de estacionamento. Em compensação, as acessibilidades estão muito acima da média, quer à frente, quer atrás ou à mala. Esta não tem uma capacidade tão grande quanto muitos gostariam. Mesmo assim é possível ampliar os 405 litros iniciais até aos 1050 litros se abdicarmos de uma das partes assimétricas do banco traseiro, abdicando em parte ou totalmente da lotação máxima do Audi Q2.

Embora o Q2 esteja homologado para transportar cinco pessoas, o passageiro do meio tem de se contorcer um pouco para se manter sentado comodamente. Isto porque o espaço para as pernas nessa zona é exíguo e porque a largura atrás não é das melhores, ao contrário do comprimento total do habitáculo, que consegue ser 5 centímetros maior que o do Q3 e do A3 Sportback. No total, o índice de habitabilidade do Q2 soma 9484 pontos, um valor que está abaixo da média dos SUVs com dimensões semelhantes (9578 pontos). Neste capítulo, o maior de todos é o Opel Mokka, seguido da nova geração do Honda HR-V. Mas se atrás o Q2 não é muito desafogado, à frente tem espaço suficiente, por ser mais largo e mais alto que a média, com destaque para a posição do banco do condutor que, sendo mais baixa, garante uma postura mais desportiva.

O equipamento, não sendo muito rico, pelo menos nesta versão (Sport) intermédia, oferece na área da conetividade tecnologias avançadas,  à semelhança de outros Audi. É o caso do sistema infotainment, controlado por controlo rotativo com um botão de pressão e dois botões, podendo este sistema evoluir para outros patamares na versão mais alta (Design) ou se for essa a nossa opção nas versões mais baixas. Neste caso a versão Sport ensaiada tinha, no total, mais de 7 mil euros de opcionais. Um deles, como já referimos, é o “Audi Drive Select”, um sistema que altera o comportamento do carro, nomeadamente o conforto. Este tem outras traduções, como a comodidade, o apoio dos bancos ou a boa insonorização, resultado da qualidade já referida ou dos materiais utilizados. A prova do esforço feito nesta matéria tem tradução nos baixos níveis sonoros registados pelo sonómetro, inclusive a mais de 100 km/h, embora neste caso isso não se deva tanto à aerodinâmica, pois esta não goza de um Cx muito baixo (0,32) mas mais à baixa resistência ao avanço devido a uma superfície frontal projetada mais baixa que a média dos seus concorrentes. Sendo um SUV seria de esperar mais funcionalidades que não tem, além daquilo que é normal. 

Com uma posição de condução baixa para um SUV, o corpo fica bem apoiado graças à ergonomia dos bancos. 

Tecnologia é o que não falta ao Q2, ainda que a versão ensaiada não tivesse muitas por ser mais baratinha. A começar pelo sistema “Quattro” reservado para as versões mais potentes. Verdade seja dita que, não saindo do alcatrão, esta versão do motor 1.6 TDi de 116 CV não precisa dessa ajuda suplementar, até porque o Q2 não tem os ângulos de todo o terreno adequados para uma aventura mais radical. Digamos que o Q2, como a marca diz, é um SUV compacto do tipo urbano para uma condução diária e para os tempos de lazer, sem nunca referir os termos "radical" ou "fora de estrada". Digamos que é mais uma aposta num estilo irreverente. E para isso este motor serve e sobra, pois parece ter mais potência do que anuncia, talvez porque a caixa manual de 6 velocidades aproveita muito bem toda a faixa de potência compreendida entre as 2500 e as 4000 rpm. Isto porque o binário máximo, sendo constante entre as 1500 e as 3250 rpm, garante uma boa capacidade de resposta como veremos nas boas prestações alcançadas. A facilidade e a suavidade de progressão do motor é uma caraterística bem agradável, com repercussões no consumo e nas emissões.

Mas a tecnologia está cada vez mais focada noutras áreas, nomeadamente nos sistemas de assistência à condução. Estes provêm de outros segmentos, sendo os mais comuns a travagem automática de emergência quando circulamos numa velocidade relativamente baixa. Também o cruise control adaptativo dá muito jeito numa viagem mais longa, ao manter a distância para o carro da frente, contribuindo para uma condução mais relaxante. Outros sistemas que começam a ser comuns são o avisador de mudança de faixa, ou o park assist. Embora a versão ensaiada tivesse uma caixa manual de 6 velocidades, é possível encomendar o Audi Q2 1.6 TDi Sport com caixa DSG, uma transmissão bem conhecida de outros modelos e com provas dadas na forma como aproveita os motores sem penalizar os consumos e as emissões.

O comportamento do Q2 é agradável e assemelha-se muito ao do Q3, ainda que o centro de gravidade mais baixo lhe garanta mais ligeireza nos troços com mais curvas. Neste meio, mal se sente a transferência de peso, que a Audi teve o cuidado de distribuir bem entre os dois eixos. Estes possuem uma estrutura simples à frente e atrás, mas nem por isso menos competente se comparadas com soluções mais complexas. Isso deve-se, sobretudo, à boa rigidez estrutural do chassis e ao olhar atento de todas as ajudas ativas, a começar pela possibilidade de bloquear eletronicamente o diferencial (EDS), um sistema usado em muitos modelos do grupo alemão, nomeadamente no VW Golf com excelentes resultados. Tão bons que mal sentimos a sua intervenção, seja qual for o modo de condução escolhido pelo “Audi Drive Selet”. Este tem três afinações (Comfort, Dynamic e Individual).

Curiosamente e sem ainda sabermos porquê, o controlo de estabilidade tem uma intervenção mais precoce no modo mais desportivo do que no modo mais confortável ao ponto do Q2 ter passado melhor na prova de ultrapassagem no programa mais cómodo, quando o suposto era o contrário. O Sistema Drive Select, para além de modificar a resposta do motor, altera também o funcionamento da direção, que se torna mais ou menos direta. Isto porque o formato dos dentes da cremalheira está concebido para variar a relação de engrenagem, de acordo com o ângulo das rodas. Esta é a razão porque o Q2 tem boa agilidade e uma grande precisão na definição das trajetórias. Para além de agradável a sua condução não exige esforço, quer no trânsito citadino, quer em estradas sinuosas.

Embora esta versão não tenha o modo off-road, é possível melhorar o comportamento fora de estrada desligando totalmente o ESP. Só é pena que a altura ao solo não permita grandes aventuras. Com preços que começam nos 29 mil euros, a versão ensaiada era um pouco mais cara, para além de ter mais de 7 mil euros de opções. Este posicionamento coloca-o acima da totalidade dos seus adversários mais generalistas.

Por enquanto, o novo Audi Q2 não tem concorrentes diretos nas marcas premium como a BMW e a Mercedes. Num mercado largamente pulverizado de propostas do género, o facto de ser o único modelo premium pode ser uma vantagem para aqueles clientes que procuram como elemento diferenciador a imagem e não o preço.

O prestígio da marca valoriza igualmente outros parâmetros como o valor de retoma. Entretanto, os custos de utilização são baixos graças a uma garantia mais alargada (4 anos ou 80 mil quilómetros) e consumos médios que poucas vezes ultrapassam os 6 l/100 Km, a que correspondem níveis de emissões de 110 g/Km de CO2.