Da parceria entre a Abarth e a Yamaha resultou uma edição única. Carro e moto com a mesma atitude, a mesma pintura e até o mesmo escape Akrapovic. Edições de colecionador para guardar e desfrutar com moderação Um preparador de automóveis italiano e um fabricante de motos japonês parecem uma combinação altamente improvável. A descontração… Read more »

Texto: Ricardo Machado / Fotografia: Luís Viegas
Data: 4 Novembro, 2018

Da parceria entre a Abarth e a Yamaha resultou uma edição única. Carro e moto com a mesma atitude, a mesma pintura e até o mesmo escape Akrapovic. Edições de colecionador para guardar e desfrutar com moderação

Um preparador de automóveis italiano e um fabricante de motos japonês parecem uma combinação altamente improvável. A descontração natural transalpina simplesmente não combina com o caraterístico rigor nipónico. E no entanto, há mais de uma década que Abarth e Yamaha formam uma salutar parceria. Tudo começou com o patrocínio da Fiat à equipa Yamaha de MotoGP e atualmente a parceria compreende também o fornecimento de uma frota de viaturas Abarth.

Tanta proximidade entre criadores de máquinas de paixão, só podia resultar em edições especiais. As primeiras foram só para ver. Em 2007 Valentino Rossi correu em Phillip Island com uma M1 decorada com as cores da Abarth. Um ano mais tarde, Abarth e Yamaha estiveram a um passo de lançar uma edição limitada da FZ1. Foi criado e apresentado um protótipo, sem que a versão de produção chegasse a ver a luz do dia. Situação que faz desta XSR900 Abarth a primeira versão de produção de uma Yamaha com o selo da Abarth. Uma ocasião tão rara como o número de unidades disponíveis: 695.

Edição de colecionador

Do lado da Abarth, a história não é muito diferente. Homenageando na estrada os heróis das pistas, o preparador italiano criou diversas versões específicas com inspiração na equipa de MotoGP. A mais célebre terá sido a Yamaha Factory Racing Edition do Abarth 695 Biposto, com pintura azul e branca. Uma homenagem às cores das motos pilotadas por Valentino Rossi e Jorge Lorenzo. Agora, quando “The Doctor” tem como companheiro de equipa na Movistar Yamaha MotoGP o espanhol Maverick Viñales, a Abarth lança a edição especial 695 XSR Yamaha, limitada a 695 coupés e outros tantos cabrios.

Unidas pelo Cinzento Pista da pintura, pela profusa utilização do carbono e pelos sistemas de escape Akrapovic em titânio, as duas máquinas apresentam-se como edições de colecionador. Propostas exclusivas que se complementam e ficam bem em qualquer garagem. E devem ser guardadas na garagem ou não estivéssemos a escrever sobre um Abarth de 30 300€ e uma Yamaha XSR900 de 13 096€.

Escape Akrapovic

Quando se apela diretamente ao coração, as considerações racionais que se possam fazer sobre o preço caem para segundo plano. Ou se pode. Ou não se pode. O resto? É claro que faz sentido! O revestimento em Alcantara do painel de instrumentos reduz os reflexos. O ecrã de 7’’ serve para ver as informações da telemetria Abarth. A placa numerada garante o acesso ao registo Abarth, com o correspondente valor histórico e vantagens reservadas a veículos com mais de 20 anos.

E claro, o escape Akrapovic, com Active Dual Mode e terminais em fibra de carbono, ajuda a elevar a potência do motor 1.4 T-Jet dos 157 cv para os 165 cv. Soprado por um turbo Garret, o bloco de quatro cilindros desenvolve 230 Nm às 3000 rpm, o que lhe permite rubricar o arranque até aos 100 km/h em 7,3 segundos e atingir uma velocidade máxima de 218 km/h. Com curso longo e cinco velocidades, a caixa manual tem um seletor em alumínio, tão bom a queimar a palma da mão direita, depois de ter ficado ao sol num dia de verão, como a gelar a mesma numa manhã de inverno.

Menos sensíveis às variações de temperatura, os acabamentos em carbono reforçam a imagem desportiva. Encontram-se um pouco por toda a carroçaria, estando as maiores concentrações no tablier e volante. Este tem o fundo plano, que no caso do Abarth faz realmente sentido. Ajuda a aceder ao banco desportivo exclusivo desta versão 695 XSR, com forro em pele e costuras vermelhas a combinar com os detalhes da pintura exterior.

Carbono especial

Na melhor tradição do estilo café racer clássico, a Yamaha XSR900 Abarth é uma moto de produção personalizada. Neste caso, o “tuning” é feito com elementos de marca, com uma forte componente de carbono. A base mecânica, a XSR900 com motor de três cilindros e 115 cv, não sofre qualquer alteração. Significando que, para além do motor, as ajudas eletrónicas, os pisa-pés, as rodas, os travões e a suspensão cumprem as especificações de série.

Criada como uma moto de imagem, a XSR900 cumpre o seu objetivo na plenitude. Uma opinião que parece ser partilhada pelo público geral, que não ficou indiferente à passagem da Abarth. Só não percebemos qual dos elementos exclusivos captou mais atenções. Pode ter sido o carbono da pequena carenagem dianteira estilo retro, importada da XJR1300 Racer, e da proteção do banco do passageiro. O esquema da pintura Abarth também não passa despercebido, tal como a placa numerada na proteção da caixa dos fusíveis ou o banco em camurça com costuras em vermelho.

Observando com atenção o catálogo de opcionais da XSR900 vamos encontrar o suporte de matrícula, o escape Akrapovic e até o guiador invertido. Baixando os punhos para uma posição típica de avanços, o guiador transforma-se no elemento fulcral desta XSR900 Abarth, promovendo uma posição de condução suficientemente radical para alterar a direção e o equilíbrio natural da Yamaha.

Domingueiros

Curioso como a ergonomia da posição de condução parece não estar no topo das prioridades de quem desenhou estas versões especiais. É por isso que as consideramos boas para guardar na garagem e conduzir ao fim-de-semana. Quando o que está em causa é descomprimir de uma semana de trabalho, preferencialmente aos comandos de uma máquina desportiva numa estrada de serra deserta, não há nada de errado em ser condutor de domingo. Pelo contrário.

Mantendo o comportamento de cubo com rodas que é familiar ao Abarth 695, a versão XSR Yamaha não deve muito ao conforto. Os amortecedores traseiros Koni com molas Eibach estão lá para segurar os movimentos da carroçaria e não para suavizar o piso. Esta solidez, associada a uma direção que sem ser particularmente comunicativa se encontra mesmo em cima do eixo, torna o Abarth bastante intuitivo e previsível.

Não se livra da tendência natural para sair de frente, mas é muito fácil de corrigir com o acelerador. Sendo compacto, também é muito fácil de posicionar nas travagens em apoio. Mesmo em situações de limite, como quando a saída de uma curva com pouca visibilidade esconde outro domingueiro mais lento, roda sempre como um todo. O modo Sport acrescenta algum peso à direção e capacidade de resposta ao pedal direito. O motor não chega a ser explosivo e não precisa de o ser. Quando cada um dos 165 cv tem de mover apenas 6,3 kg, a resposta não pode ser lenta. Já o som do escape, apesar de ser música para os nossos ouvidos, não faz esquecer o Record Monza de outras criações da Abarth.

Ginástica japonesa

Na mesma boxe repousa a Yamaha XSR900 Abarth. Linhas revivalistas, a puxar para o estilo café racer, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Se o bom é a imagem, o mau é a condução. Percebemos o problema assim que nos sentamos. O clássico rabo para cima e cabeça para baixo, como se tentássemos ler as letras pequeninas do painel de instrumentos digital. Esta posição não seria de todo descabida se as pernas estivessem recuadas como numa desportiva. Como não estão, ficamos com a sensação que nos desequilibrámos para a frente a meio de um agachamento.

A carga nos pulsos é inevitável, tonando-se particularmente cansativa no trânsito e a baixa velocidade. Aumentando o ritmo começa a fazer sentido, à medida que o vento sustenta o tronco aliviando a pressão sobre os pulsos. A direito é fantástico, com a resposta pronta do motor sempre disposta a levantar a roda da frente. Mas andar de moto a direito é maçador.

Nas curvas, a posição de condução volta a atrapalhar. O centro de gravidade altera-se e com ele o equilíbrio natural da XSR900 fica comprometido pelo peso inesperado sobre a roda da frente. Mais do que a ciclística, que se revelou muito permissiva, é a nossa confiança que se ressente da falta de equilíbrio entre a posição das pernas e dos braços. Os pulsos aproximam-se perigosamente do depósito, transformando o controlo preciso do acelerador numa tarefa inesperadamente delicada. Situação que se agrava quando é preciso fazer uma pequena correção a meio da curva. Basta um grau de rotação a mais para sair da curva aos soluços, como o mais inexperiente dos condutores. Isto acontece em qualquer dos três modos de condução – A, mais agressivo, STD, normal, e B, piso molhado. Com uma manete muito sensível, o travão dianteiro também não é dos mais fáceis de dosear.

E no entanto, a Yamaha XSR900 Abarth pode ser uma moto bastante divertida de conduzir e até mais confortável do que parece, desde que a velocidade o permita. Não lhe falta motor, nem ciclística apurada. O problema está na posição de condução radical, incompatível com o equilíbrio da afinação de série da XSR900. No fundo, um moto com um estilo que promete muito mais do que consegue oferecer ou, por definição, uma café racer.

Menos radical, apesar de tudo, o Abarth 695 XSR Yamaha é uma opção mais consensual. Se a estrada for lisa até parece confortável, é despachado na cidade e divertido em percursos sinuosos. Mas é demasiado caro e exclusivo para ser conduzido todos os dias. Vemo-nos no próximo domingo?

 

Comparativo publicado na edição impressa Turbo 438