Terra do Fogo: Fomos ao fim do mundo

Fomos ao fim do mundo não à procura de uma notícia (como diz o slogan de uma das mais populares estações de radio portuguesas) mas para desafiar as capacidades da Toyota Hilux, a pick-up mais popular naquela que é tida como uma das mais inóspitas regiões do mundo: a Patagónia argentina

Há uma aura especial que envolve Ushuaia, a cidade mais a sul do continente americano, por isso mesmo apontada como o “fim do mundo”. Só isso explica a atração quase magnética que um par de ruas emolduradas pela cadeia andina e pelo estreito de Beagle, com cafés confortáveis e lojas vulgares, exerce nos apaixonados pela aventura e pelas viagens exóticas.

O inverno no hemisfério norte, principalmente entre dezembro e março, é o momento ideal para visitar esta vasta região onde termina (ou começa) a Terra do Fogo, denominação dada pelo navegador português Fernão de Magalhães quando, em 1520, na expedição destinada a descobrir uma rota alternativa para a Índia, avistou ao longe uma terra repleta de fogueiras que serviam para aquecer os habitantes.

O rigor dos longos invernos, com neves persistentes e temperaturas (muito) negativas dá, na verdade, uma pequena trégua nesse período que é aproveitado por muitos visitantes seduzidos pela ideia de averbar no passaporte o carimbo daquela que é a última fronteira do mundo – a partir daqui, a cerca de 1300 km apenas as neves permanentes da Antártida, acessível exclusivamente aos navios das expedições científicas.

Inevitavelmente, a paisagem, tal como a vida das pessoas, é fortemente determinada pelo rigor do clima. Tal como a própria história de Ushuaia cuja relevância deve-se à construção, em 1902, daquela que foi, ao tempo, a principal prisão de alta segurança da Argentina.

Uma obra inteiramente levada a cabo pelos próprios prisioneiros na qual foi utilizada a principal matéria-prima existente na região: a madeira proveniente das florestas daquele que é hoje o Parque Nacional da Terra do Fogo, sendo necessária, para o seu transporte, a construção do caminho de ferro cujos sete quilómetros finais são hoje uma das principais atrações turísticas (hoje conhecida como o Trem do Fim do Mundo), com vistas incríveis.

Meca de aventureiros

Desde Buenos Aires, alcançámos Ushuaia após um voo de três horas e meia e uma das primeiras surpresas foi constatar a quantidade de aventureiros que optam por cumprir os 3078 km da mítica Ruta 3” que liga a capital argentina à Baia da Lapataia, no Parque Nacional da Terra do Fogo, atravessando o Estreito de Magalhães e vencendo um conjunto de desafios que vão do vento fortíssimo ao piso em péssimo estado que caracteriza grande parte do trajeto.

Não admira, por isso, a euforia do grupo de motards brasileiros que tinha saído de São Paulo (5300 km), no momento da fotografia da praxe junto ao marco que assinala o km zero da Ruta 3: “no Brasil só é merecedor do título de motard aquele que alcança Ushuaia”- diziam-nos.

Um sentimento de superação e triunfo partilhado por aqueles que realizam esta viagem icónica utilizando veículos de quatro rodas, sendo surpreendente o número de “motorhome” com matrículas europeias com que nos cruzámos ao longo dos dias em que percorremos o extremo sul da Patagónia. 

Uma viagem em que utilizamos aquele que é, não por caso, o veículo mais popular por estas paragens: uma Toyota Hilux na versão SRV, equipada com o motor turbodiesel de 2,8 litros com 204 cv associado a uma caixa automática de seis velocidades.

A tração integral de acionamento eletrónico, com diversos modos adaptados aos diferentes tipos de piso (lama, neve profunda, terra, estrada e gravilha) e a possibilidade de bloqueio do diferencial traseiro, associada à reconhecida robustez de construção e, principalmente, a uma arquitetura de suspensão muito evoluída com amortecedores telescópicos na frente e eixo rígido na traseira, garante uma capacidade de carga de até 1000 kg (consegue rebocar até 3500 kg) e explica a facilidade com que consegue ultrapassar as situações mais delicadas.

Dicas de viagem

Ao longo de quatro dias, através da Ruta 3, no “coração” do Parque da Terra do Fogo, ou explorando o extremo sul, pela designada Secção J, até Puerto Almanza, ponto de partida para a Ilha de Martillo onde existe a maior colonia de Pinguins de Magalhães, foi, na verdade, possível perceber o porquê da Toyota se referir à Hilux como a mais resistente pick-up do Mundo.

Tal como os motivos para a enorme popularidade de que goza nesta zona do Globo onde as estradas asfaltadas são uma raridade e o rigor do clima torna infrutíferos todos os esforços para manter minimamente transitáveis os (predominantes) caminhos em terra compactada.

A par da capacidade da Hilux para suplantar todas as dificuldades impressionou-nos o nível de conforto, mesmo nos lugares traseiros, num interior com muito espaço, muito bem isolado e com diversos equipamentos de última geração, como a camara de visão traseira que facilita bastante as manobras num automóvel com 5,3 metros de comprimento, e a possibilidade de, através dos sistemas Android Auto ou Apple CarPlay, espelharmos no display central as principais funcionalidade do nosso smartphone.

Planeamento

Para quem visita esta região remota - e não faltam motivos para o fazer – deixamos como principal recomendação que a viagem seja bem planeada e realizada entre o final de novembro e o início de abril pois nos restantes meses o frio e a neve que cobre a totalidade das estradas e as montanhas inviabiliza qualquer deslocação.

Fundamental é também o aluguer de um carro como a Toyota Hilux, única forma de aceder aos locais mais emblemáticos, devendo ter sempre em conta que, fora da cidade de Ushuaia os postos de reabastecimento de combustível são uma raridade. Uma dica importante para quem vai conduzir: a menos que existam indicações específicas, a prioridade é sempre de quem sobe ou de quem desce e não de quem se apresenta pela direita.

Esta é uma viagem verdadeiramente inesquecível e, feitas as contas, bastante menos incomum do que se pode pensar. Tenha em conta que desde Buenos Aires (via Madrid,) o voo de ida e volta custa cerca de 150 euros quando reservado com antecedência e uma noite de hotel (quatro estrelas) custa pouco mais de 100€ por quarto duplo, o mesmo preço do aluguer diário de uma Toyota Hilux, já com os seguros básicos incluídos.