Os 13 mitos do Brexit no automóvel para os britânicos… desfeitos

Texto: Nuno Fatela
Data: 12 Março, 2019

Como em muitas outras áreas, também no automóvel foram vendidas algumas ideias erradas sobre o Brexit aos cidadãos do Reino Unido. Mas a SMMT, que funciona como a ACAP em Portugal, veio agora desfazer essas ideias e anunciar os perigos que a saída sem acordo representa

Estamos quase a chegar a 29 de março e, apesar de existir um novo projeto de entendimento assinado entre a União Europeia e o Governo de Teresa May, que hoje será avaliado pelo parlamento inglês,  não é certo que haja acordo sobre a saída do Reino Unido da comunidade europeia. Talvez como forma de pressão, a SMMT (Associação de Fabricantes e Comerciantes Automóveis no Reino Unido), veio agora alertar para os perigos de um ‘Hard Brexit’ sem acordo, desfazendo alguns dos mitos que foram sendo difundidos aos ingleses sobre potenciais vantagens da saída da Europa. E alinhando com o conjunto de ideias já apresentadas pelos responsáveis das marcas, anunciando um cenário caótico caso não exista acordo. Como poderá ver de seguida, e como se tem verificado em muitas outras áreas, também no automóvel existem muitos mitos sobre o Brexit que foram agora desfeitos…

1. Não há motivo para a indústria se preocupar
A SMMT alerta para “o maior terramoto nas condições de trocas comerciais no Reino Unido”. Porque não perde apenas o acesso livre aos Estados-Membro, mas também deixa de usufruir de todos os acordos estabelecidos entre a União Europeia e outras regiões.
Serão pagos milhões de euros com a entrada dos produtos nas alfândegas europeias, será mais difícil o acesso à cadeia de fornecimento de componentes a nível continental e, além disso, as ilhas britânicas tornam-se um local menos atrativo para investidores.
2. Os receios são apenas rumores da indústria
A quebra no investimento, vendas e na produção já se estão a fazer sentir neste período de incerteza. Além de ter tornado impossível atingir a meta de 2M de automóveis produzidos em 2020, já se assistiu mesmo ao inverso, com investidores a saírem do território.
3. O Brexit é uma desculpa para o abrandamento da economia mundial e queda dos Diesel
Uma coisa não desculpa a outra e juntar à queda das economias e à transição energética uma saída caótica da comunidade europeia é criar condições para a tempestade perfeita
4. O Brexit permite concentrar esforços nas trocas com economias emergentes ao invés da “decadente” Europa
Existem vantagens e desvantagens neste acesso mais “livre” a novos territórios. Mas não é preciso esquecer que mesmo aumentando o volume de exportações, será necessário fazer isso com automóveis mais baratos e, consequentemente, encurtar as margens de lucro
Além desta situação, é preciso não esquecer que mesmo para estas novas economias será necessário pagar as respetivas taxas alfandegárias. O que de momento não acontece no mercado comum europeu
5. O Brexit vai desvalorizar a libra, tornando menos onerosa a exportação
Além de nunca ser boa notícia ter uma moeda mais fraca, há outro problema a considerar. Trata-se do facto da importação de componentes, essenciais para fabricar os automóveis, se tornar mais cara.
6. O Brexit vai reduzir o preço dos carros e aumentar a escolha
Com as taxas alfandegárias a aumentarem o valor de compra dos carros importados, existe até o perigo de algumas marcas com menor volume deixarem o território.
7. As regras europeias atrasam a inovação
Além da Europa ser o berço dos automóveis mais avançados do mundo, esta questão nem se coloca. Isto porque, para vender no mercado europeu, os automóveis feitos no Reino Unido vão ser obrigados a seguir as mesmas regras de homologação
8. O Brexit vai criar mais trabalhos na indústria automóvel
1/8 das empresas já confirmou que vai reduzir a força laboral, e ainda nem está a ser considerado o potencial encerramento de fábricas. Além disso, a saída da Europa tornará mais difícil atrair novos talentos
9. Será possível estabelecer acordos comerciais com outras regiões
Isso é verdade, mas comparando a dimensão britânica com a de toda União Europeia, provavelmente será mais difícil negociar condições mais favoráveis.
Além disso, estes acordos são complexos e demoram muito tempo a ser alcançados. E a data de 29 de março está já à porta, o que pode significar um “congelamento” das trocas comerciais.
10. Os fabricantes locais ficam em vantagem no mercado interno
Se o mercado inglês fosse “autossuficiente” isso poderia ser verdade. Mas apenas 12% do mercado local está a cargo de carros feitos em solo britânico, e as fábricas locais exportam 80% da produção, logo não há nada a ganhar com este “encerramento das fronteiras”.
11. Podem surgir tarifas para proteger os fabricantes locais
Donald Trump pode ser visto como um exemplo nesta reivindicação. Afinal, cada vez que ele prometeu introduzir tarifas para proteger os produtos americanos, a resposta que teve de Europa e Ásia foi idêntica. Portanto, uma vantagem apenas mitológica
12. A Alemanha necessita um acordo com o Reino Unido, pois vende 750. 000 carros/ano neste país
Além da Inglaterra ter maior necessidade de escoar os automóveis feitos no país, a verdade é que os germânicos já avisaram que não colocam as relações com os britânicos à frente da relação com a Europa.
Não podemos esquecer também a questão da coesão europeia. Forjar um acordo mais vantajoso com os ingleses pode abrir fraturas na União, fazendo outros pensar também em fazer “exit” da comunidade
13. Se a extinção da indústria automóvel é o preço a pagar, o R.U. fica melhor com o Brexit
Matar um dos principais sectores produtivos de um país é sempre uma medida suicida. E falamos de uma indústria que gera 82 mil milhões de libras anualmente (com as atividades associadas são 205 mil milhões) e emprega 180.000 pessoas.
Portanto, seria algo caótico economicamente e também para a sociedade.

Fonte: SMMT

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