Guiámos todos os Abarth em Braga

Texto: Nuno Fatela
Data: 25 Junho, 2018

No dia anterior ao Abarth Day 2018 estivemos no Circuito Vasco Sameiro, em Braga, para dar um pequeno “aquecimento” a toda a gama da marca italiana. E também nós ficámos “envenenados” pela adrenalina dos 595, 695 e 124 Spider.

Para quem não esteja associado ao mundo do automóvel, a expressão “O Doce Veneno do Escorpião” remete imediatamente para o livro e o filme brasileiro sobre a famosa Bruna Surfistinha. Mas, para os amantes da velocidade e das emoções fortes, do coração a palpitar à vertiginosa velocidade a que se engolem curvas e se galgam metros a alta velocidade no asfalto, o Doce Veneno do Escorpião tem outro significado: Abarth. Também a Turbo foi picada por este viciante e potente concentrando de adrenalina na última sexta-feira, quando estivemos no Circuito Vasco Sameiro, em Braga, na antevisão ao Abarth Day 2018.

Fotos: AIFA/Jorge Cunha, para a Abarth. (nas fotos não surge apenas o jornalista da Turbo no local, mas os vários convidados para esta antevisão ao Abarth Day 2018)

Antes de mais, uma ressalva. Gostaríamos de mostrar os vídeos de todos os modelos que testámos no Circuito Vasco Sameiro, mas infelizmente um problema na gravação apenas nos permite apresentar as experiências ao volante dos 595 Pista e 695 Rivale. Que foram os dois primeiros modelos testados, numa fase em que ainda pesava bastante na consciência o aviso para termos alguma prudência extra para manter os carros em boas condições para os muitos fãs que no fim de semana tiveram oportunidade de estar em pista, no Abarth Day 2018.Com o autódromo mais a norte do país a mostrar-nos, tal como uma Bruna Surfistinha, todas as suas curvas, fomos contagiados pelo veneno não apenas de um escorpião mas de uma verdadeira família. Isto porque estiveram ao dispor dos presentes os 595 (145cv), 595 Pista (160cv) nas versões coberta e cabrio, 595 Competizione (180cv), o novo 695 Rivale (180cv) que já lhe mostrámos aqui na Turbo, o 124 Spider e do também novo 124 Spider de capota rígida em carbono. E, obviamente, o mais estupendo dos Abarth do momento, o tremendamente eficaz 695 Biposto.

 

Reconhecimento em Rivale

Primeiro fomos deitar um olho ao novo 695 Rivale, que com a sua capota aberta, decorações de pele em tons azulados e o seu painel em madeira a evocar as embarcações da Riva até nos deixa inicialmente com a sensação de que este não é um modelo para brincar aos pilotos. Quase como se existisse um Abarth apenas para passear com calma… Nada mais errado. Assim que se acorda o motor e o escorpião se faz ouvir através das ponteiras do escape percebemos que não estamos a falar de um dócil animal de estimação para andar “apertado com trela”.

Como referido, mesmo com a consciência de que era preciso manter os carros em bom estado e tendo em conta que estávamos a descobrir o circuito, ao pouco fomos dando rédea solta a este “bichinho” feroz. E o resultado foram travões a fundo quando se chega a mais de 170km/h ao final da reta, antes da divertida entrada para as curvas do circuito, com uma direita em desaceleração que nos envia rumo a uma pequena “semi-parabólica” para a esquerda. Depois entramos numa secção que combina curvas mais apertadas com outras já em aceleração, seguindo para a reta interior.

Aqui entramos em terceira já com o acelerador a fundo e passamos para quarta antes de reduzir para lidar com a chicane em segunda velocidade. Segue-se depois uma combinação bastante divertida, com ligeiras travagens  a anteceder uma combinação de uma esquerda, duas direitas e mais duas curvas à esquerda em aceleração para reta da meta. Estava feito o reconhecimento, com o 695 Rivale…

Fotos: AIFA/Jorge Cunha, para a Abarth.

Em crescendo…

Após termos utilizado o cinema e literatura como inspiração inicial, na referência ao Doce Veneno do Escorpião, vamos agora passar para uma outra forma de arte. Trata-se da música, pois o seguinte paralelismo tem a ver com a forma como são habitualmente realizados os concertos. Começa-se com uma boa canção/música, como o Rivale de 180cv e depois acalma-se o público com umas baladas “mais tranquilas”. Ou, falando da experiência no Vasco Sameiro, para os 595 Pista de 160cv, fazendo depois um crescendo das batidas para o Competizione de 180cv e culminar com a apoteose do 695 Biposto.

Este teve uma estupenda atuação. E nesta versão automóvel “Rock in Braga”, fez levantar a plateia dos aurículos e ventrículos com o aumento da frequência cardíaca, saltar as duas bancadas dos pulmões na caixa torácica com a respiração mais ofegante e ainda deixar em nervoso miudinho toda a bancada central dos músculos do jornalista ao volante. Além disso, com um calor na cidade dos Arcebispos que até fez desmaiar no dia seguinte o Presidente da República, a experiência com o 695 Biposto após o almoço, com as suas duas janelinhas onde não cabe mais do que um braço, teve o mesmo efeito que duas horas a saltar em frente a um palco num concerto: suar até mais não…

Voltando ao começo, a iniciação ao modo de condução mais intensa ficou a cargo do 595 Pista, que desde logo mostrou como os Abarth são, efetivamente, modelos dotados para os circuitos. A forma como ele lida com as transferências de massa durante a passagem entre as curvas é algo que convida a ir sempre um pouco mais depressa, e rapidamente se começou a ouvir o som dos pneus a gritar durante as mudanças de direção.

A forma como essa transferência de massas é eficaz começa a fazer-se notar logo na passagem entre as duas primeiras curvas do circuito, quando após a travagem desde os 170km/h da reta se faz a entrada em aceleração para uma direita rápida e se move depois rapidamente o volante para, em aceleração, se entrar nos 90º da primeira parte da  “quase parabólica” que começa o Circuito Vasco Sameiro. De tal forma este Fiat 500 vitaminado nos leva um pouco mais além que por diversas vezes acabámos por perder o ponto de corda para a segunda metade desses 180º cumpridos em duas fases. Mas, mesmo com o carro a querer sairda trajetória interior, o comportamento do 595 Pista em pista não nos faz “surpresas desagradáveis” que nos levem a perder por muito tempo a trajetória.


Desfrute do nosso comparativo entre o Abarth 595 Competizione e o Abarth 124 Spider


Depois merece igualmente referência a forma como se entra “a gás” na reta interior e depois se volta a travar para cumprir, com a agilidade que só um pequeno citadino desportivo nos proporciona, a chicane. Logo após terminada a travagem para a primeira curva desse apertado “S” já estamos novamente no acelerador a entrar a fundo para pouco depois da saída da chicane estar no limite das rotações e com o carro a pedir a terceira. Obviamente, depois temos de lidar a velocidades próximas dos 100km/h com a entrada e saída nas várias curvas rápidas da pista de Braga.

Já começávamos a “tomar o jeito à coisa” e portanto passamos para um escorpião ainda mais venenoso, o 595 Competizione. A diferença para o anterior começa logo a notar-se assim que se pisa o acelerador. O “kick” que se sente com as costas a quererem colar mais ao banco e o silvar do turbo não mentem, este modelo tem ainda mais adrenalina. E assim começamos a ir ainda mais além nas acelerações, travagens e velocidade em pista. É pena que após a chegada à redação tenhamos tido a infeliz notícia de que o cartão de memória da câmara não resistiu ao Veneno do Escorpião e “encomendou a vida ao criador” nesta altura, pois não podemos também mostrar em vídeo a diferença…

 

“Hottentotta Tamulus”, o mais venenoso…

Foi depois do almoço que fomos testar o “Hottentotta Tamulus” do asfalto, o mais venenoso dos escorpiões que se pode guiar atualmente. Falamos, obviamente, do 695 Biposto, que além da sua potência de 190cv extraída do bloco 1.4 T-Jet conta ainda com outras armas para afirmar como o derradeiro predador da gama. Exemplo disso são as janelas em policarbonato, o escape Akrapovich, a fibra de carbono nas portas ou a sua muito peculiar caixa de velocidades da Bacci Romano. Para explicação mais técnica recorremos à definição do Ricardo Machado na Turbo 408, quando ensaiámos este supervitaminado desportivo: “caixa de velocidades de dentes direitos, conhecidas como ‘dog ring’, com H invertido com o mecanismo interno exposto”.

Depois de já antes termos falado de algumas das formas de arte, caso da literatura e cinema, com a alusão à Bruna Surfistinha, continuamos aqui a viagem pelas expressões clássicas. Desde logo pela escultura agressiva das formas no exterior, com as bossas no capot e a definida e poderosa musculatura extra dado pelo cinzel. Quase uma versão automóvel de um Rafael Sanzio moderno. A bordo temos novamente uma aula prática de como esculpir um desportivo, com a fibra de carbono exposta, as tiras de pano a substituir os puxadores das portas e a referida caixa Bacci Romano. Faltavam apenas as bacquets com os cintos de quatro pontos para nos sentirmos a bordo de um verdadeiro carro de competição.

Fotos: José Bispo, para o ensaio publicado na Revista Turbo 408, de setembro de 2015

Sem nenhum desprestigio, a forma final evoca um Picasso (e quem se poderia sentir desprestigiado com uma comparação ao mestre espanhol…), em que temos uma combinação oposta entre tamanho compacto e formas volumosas. Grande e pequeno juntos. Contenção no tamanho e a liberdade sentida ao pressionar o pedal do lado direito e sentir os 190cv a fazer disparar o leve desportivo. Portanto, uma verdadeira obra de arte plástica colocada em movimento… acelerado.

Depois da escultura e da pintura, passamos para a arquitetura, pois em pista fica imediatamente comprovada a forma como a Abarth trabalhou excecionalmente bem no desenvolvimento deste 695 Biposto. A precisão com que ele entra nas primeiras curvas, mantendo a trajetória mesmo seguindo a velocidades superiores aos modelos testados anteriormente revelam que esta é uma subespécie muito especial do escorpião. Essenciais nesta arquitetura são os matérias que reduzem o peso até 997kg, componentes como o autoblocante, a roll-bar atrás dos dois bancos e os travões da Brembo.

Mas a trave-mestra é obviamente um motor que pede para se andar sempre nas rotações mais elevadas , exigindo que o condutor não pare de pisar com veemência o acelerador ou o travão (por vezes também é necessário…) e coloque as mudanças corretas “à bruta”. Sim, este H invertido não é para delicadezas, exige que se coloquem as mudanças com precisão e quase como se estivéssemos a fazer um remate de andebol. E, para adensar ainda mais sensações ao volante, nada como sentir o abrasador calor de Braga (que no sábado até levou ao desfalecimento o Sr. Presidente da República) a escapar-se apenas pelas microjanelas laterais de forma a sentir o calor de um verdadeiro carro de competição.

 

O resultado é uma experiência divinal de mudanças de direção com o ronco do motor a ecoar com toda a veemência num interior. Este não é um modelo que exija foco máximo por ter “traquinas” e poder escapar-se do controlo, mas que nos convida precisamente a focar-nos na próxima curva e a entrar sempre a todo o gás porque tem um comportamento de tal forma aditivo. A estabilidade com que efetua as sucessivas transferências de peso nas zonas mais intrincadas oferece precisamente a confiança para querer ir sempre a pisar o acelerador.

O resultado são velocidades já na casa dos 180 km/h quando chegamos ao final da reta (e médias instantâneas de 54L/100km no painel), que levam o carro a oscilar levemente quando pressionamos o travão a fundo para lidar com as primeiras curvas. Depois, é um carrossel contínuo, quase como se o 695 Biposto estivesse preso a carris e não se afastasse das trajetórias interiores onde podemos acelerar à saída das curvas o mais cedo possível. Poderíamos ter levado as coisas um pouco mais além? Talvez sim, mas descobrir os limites do 695 Biposto não se coaduna com o conselho para nos lembrarmos que no dia seguinte havia um Abarth Day e era preciso ter os necessários cuidados para os fãs da marca poderem desfrutar das mesmas sensações que nós desfrutámos.

 

Uma dança bem sedutora para terminar…

Como já devem ter reparado, das sete formas de arte mais famosas só nos falta a que junta Teatro e Dança. Mas o que fazer para a incluir neste artigo, se o comportamento incisivo e confiável dos 595 e 695 não parece a melhor forma de as juntar? A resposta dá pelo nome de Abarth 124 Spider. Embora não fosse possível testar a nova versão com a capota em fibra de carbono (adiciona mais 3500€ ao preço do modelo, ficando avaliado desde 45500€), tivemos a oportunidade de “dançar” um pouco com este roadster que passou pelo ginásio.

Dançar é precisamente a melhor expressão para definir aquilo que nos oferece o 124 Spider em circuito. A traseira a “mexer a cintura” nas saídas das curvas para depois o seu par, a frente do carro, a agarrar e continuarem a sentir o ritmo do motor a galgar asfalto a velocidades cada vez mais altas.

Se para os primos mais agressivos do 500 com tração dianteira é a forma como se procura passar de cada curva para a seguinte mais rápido que seduz, o que nos deixa maravilhados neste roadster de tração traseira é a forma como ele nos permite pequenos “drifts” com os pneus a chiar para depois se voltar a agarrar ao asfalto e embalar rumo à próxima traquinice. O truque é entrar em desaceleração e depois começar a virar e a acelerar em simultâneo, o que nos faz sentir imediatamente a traseira a querer alargar e a pedir para dançar um pouco em pista. O resultado é quase de rir ás gargalhadas dentro do carro, tal a diversão que estes momentos nos proporcionam.

Foi então que terminou a brincadeira e, desfrutando do ar condicionado no máximo, que trouxemos o roadster para as boxes. E, depois de tanta palpitação e emoção forte, nos próprios encostar às boxes e procurar uma garrafa de água fresca para voltar a hidratar. Bem sabemos que só a possibilidade de conduzir todos os Abarth em pista faz crescer água na boca, mas depois de estar em pista eles fazem-nos suar à procura dos limites…

Uma última referência para os modelos que mostramos na última galeria de imagens deste artigo e que nos trazem os clássicos Abarth que se reuniram com os modelos mais modernos no Circuito Vasco Sameiro em Braga. Porque foram estes antepassados, muitos deles da altura em que era o próprio Carlo Abarth a comandar a empresa, que ajudaram a criar uma filosofia de performance que deu origem aos atuais 595, 695 e 124 Spider. Portanto, não podíamos finalizar sem deixar uma mensagem para todos estes ícones do passado: muito obrigado!

 

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