Evolução na continuidade… e muito mais: Museu Porsche


Data: 14 Abril, 2017

Esta última vaga de superdesportivos híbridos pode parecer algo despropositada, mas se há marca com legitimidade histórica para conceber um modelo assim é a Porsche. Ferdinand Porsche (1875-1951) era um génio criativo com talento para entender os desígnios da eletricidade e, no ano de 1898, viria a criar o seu próprio motor elétrico para instalação num veículo. Assim nascia o primeiro automóvel com assinatura Porsche: o Egger-Lohner C2 Phaeton, uma “carroça” capaz de atingir 25 km/h e com autonomia para seis horas de condução.

Dois anos mais tarde, o jovem austríaco de 24 anos viria a dar nas vistas no Salão de Paris com a apresentação do Lohner-Porsche Mixte, com rodas dianteiras que mais não eram do que motores elétricos, devidamente auxiliados por uma unidade a gasolina. Eis o precursor dos atuais híbridos… Até poderá encará-lo como o líder espiritual do eletrizante Porsche 918 Spyder Plug-in, o tal que tanto arrasa o Nürburgring em menos de sete minutos como anuncia apenas 3,1 l/100 km de consumo combinado.

É possível saber tudo isto com uma breve pesquisa na internet, mas não há nada como dar de caras com a História. E é exatamente isso que acontece ao sair das longas escadas rolantes que dão acesso ao museu da Porsche, onde somos recebidos pelo Egger-Lohner C2 Phaeton que o próprio Ferdinand Porsche guiava pelas ruas de Viena, no decorrer dos testes dinâmicos. A Wikipédia não lhe dá isto.

 

LOCAL DE PEREGRINAÇÃO
Erigido em Zuffenhausen, no coração industrial da Porsche, o insólito edifício do museu parece levitar na Porscheplatz como uma nave alienígena num cenário fabril. Na mesma praça vai encontrar a administração da marca e o concessionário oficial, onde alguns felizardos materializam a ambição de possuir um modelo da marca – nem mesmo quem já se dirige ao museu resiste a contemplar esta montra. O ambiente na rua é dominado pelas vozes roucas dos muitos motores “boxer” que por ali passam a todo o instante e, a 10 metros das portas do museu, sou brindado com um par de sonoras reduções magistralmente executadas pelo condutor de um 964 RS. O sítio fervilha de paixão automóvel.

Aberto ao público desde 2009, o Porsche Museum conta com uns desafogados 5600 m2 de área de exibição e tem cerca de 80 veículos expostos num ambiente de luz artificial e despojado de adornos – de alguma forma, o minimalismo funcional deste espaço vai ao encontro dos valores da própria marca. O visitante é convidado a acompanhar o percurso de vida da família Porsche, numa caminhada com ligeiro pendente rumo ao topo do edifício, na qual se revive a formação da história da marca através dos seus modelos mais marcantes, do imenso legado desportivo e de zonas temáticas.

 

MUSEU VIVO
Por norma, arrelia-me ver carros em museus; é como ver a bicharada enjaulada num qualquer jardim zoológico, longe do seu habitat. E já que não os posso conduzir, ao menos que os veja em estrada aberta ou a darem o melhor de si em pista. Porém, é bom saber que as máquinas aqui expostas estão de boa saúde e que, de vez em quando, alguém lhes roda a chave – é insólito estar num museu e escutar o ressonante som de um boxer a ecoar pelas paredes. Com sorte, até lhes é concedida permissão para sair do cativeiro, como quando a Porsche juntou os Heróis de Le Mans no circuito de Hockenheim, em 2013, para celebrar o regresso à mais mítica prova de resistência automóvel. Têm vida.

E por falar em Le Mans, a famosa corrida é, precisamente, o tema da exibição especial no dia que em visito o museu. Aquela pequena localidade francesa é apontada como o segundo lar da Porsche e muitas das suas máquinas vitoriosas na prova automobilística de 24 horas estão aqui orgulhosamente expostas, começando pelo 917 de 1970 com que Hans Herrmann e Richard Attwood arrecadaram o primeiro triunfo à geral, assim como muitos outros bólides que singraram nas categorias mais modestas. É o caso do belíssimo 904 Carrera GTS que venceu em 1964, com uma esbelta carroçaria em plástico reforçado com fibra de vidro e projetado pelo bloco 2.0 boxer de oito cilindros com 240 CV.

 

A EMOÇÃO DA COMPETIÇÃO NO DIA-A-DIA
Foi com a linhagem 356 (1950) que a Porsche se iniciou na industrialização e muitas das suas diversas evoluções estão aqui presentes, percebendo-se a importância do mercado norte-americano no pós-guerra para a prosperidade da marca. A região de Baden-Württemberg estava sob jurisdição americana e os aviadores ali estacionados eram grandes fãs da condução ágil do rebelde 356 America Roadster, um fusil de alumínio com 70 CV para apenas 605 kg – nem mesmo a imprensa especializada alemã da época tinha conhecimento deste modelo…

Seguiu-se o 911 (1963), considerado pelos puristas de então como um aburguesamento da filosofia Porsche. Criado por Ferdinand Alexander Porsche, neto do fundador da marca, viria a ser um exemplo de longevidade e um sucesso à escala global, a par de uma carreira desportiva invejável e devidamente representada no museu, como se vê no poderoso 935 que dominou as corridas de resistência de 1976 a 1982. Ainda assim, a variante que mais me atrai é das mais inofensivas aqui expostas: o 911 S 2.7 Coupé amarelo “casca de ovo”, com jantes Fuchs e uma belíssima prancha de surf em madeira fixa às barras de tejadilho. Que adorável contradição.

Amado por muitos, criticado por outros tantos, o 911 ocupa um lugar muito especial no seio da Porsche e são as suas diversas interpretações que me vão levando até ao final desta viagem. Numa vitrina com diversos objetos pessoais, vê-se o guardachuva de Ferry Porsche com ponta e cabo desdobráveis de modo a tornar-se num assento, o que o tornava ideal para acompanhar as corridas de Le Mans. E para reforçar a ideia de que a criatividade da marca nem sempre se tem resumido ao mundo automóvel, é com o trator Porsche Diesel de 1956 que o museu se despede dos seus visitantes.

 

Artigo publicado na Revista Turbo nº 396, de setembro de 2014

Texto: Flávio Serra, em Estugarda

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