A Europa vista do outro lado – Museu Mullin

Texto: Júlio Santos
Data: 15 Abril, 2017

A caminho da Califórnia… há um ponto de paragem obrigatória para os amantes dos automóveis: o Mullin Museum. Curiosamente, o destaque não cabe aos carros americanos mas às fantásticas criações europeias da primeira metade do século passado. A paixão pela Bugatti é por demais evidente

Mesmo que não seja um apaixonado por automóveis, se por estes dias planeia uma viagem à Califórnia não passe ao lado do Mullin Automotive Museum, em Oxnard. Além de algumas das mais belas criações de um dos períodos mais profícuos da história do automóvel (1905 até ao início da Segunda Grande Guerra, em 1939) vai poder apreciar uma vasta coleção de peças de arte ilustrativas da chamada Art Deco.

Peter Mullin é o homem por detrás desta fabulosa mostra em que o automóvel é perfeitamente enquadrado como manifestação artística. Presença regular nalgumas das mais carismáticas provas mundiais para carros clássicos, Peter Mullin é também apoiante de alguns dos mais prestigiados concursos de elegância, com destaque para aquele que todos os anos se realiza ali ao lado, em Pebble Beach.

Filho de um engenheiro químico da Mobil, acompanhava sempre o pai na visita aos principais eventos mundiais em que a petrolífera estava representada. “Enquanto o meu pai falava de viscosidades e coeficientes de fricção, eu deleitava-me a apreciar a elegância das formas e a comparar potências” – refere Mullin para situar as origens da paixão pelos automóveis.

Uma paixão que, além da já referida participação em provas, o leve a deter uma coleção verdadeiramente invejável de alguns dos mais belos exemplares de marcas tão diferentes como a Bugatti, Jaguar, Hispano-Suiza, Delahye, Voisin… Alguns estão expostos no Museu Mullin, a menos de 80 quilómetros de Los Angeles, outros estão no Petersen Museum, ali não muito longe, de que é, igualmente, chairman e proprietário e outros, ainda, estão num edifício não acessível ao público, na capital californiana.

Incapaz de nomear de entre a coleção de mais de uma centena de automóveis aquele de que mais gosta, Mullin prefere destacar aquela que é, assumidamente, a sua paixão maior: os automóveis franceses. O que, segundo ele, se justifica, em parte, pelo facto de ser um apreciador da denominada Art Deco que nasceu em França e teve aí a sua expressão máxima. Em parte por isso, o Mullin Museum é definido como uma homenagem à Bugatti. Uma homenagem expressa na presença de algumas das mais belas criações com a assinatura Bugatti: pinturas da autoria do irmão, Rembrandt Bugatti e da filha Lídia Bugatti, jóias, mobília e instrumentos musicais de Carlo Bugatti.

Mas o destaque vai para a fabulosa coleção de automóveis saídos do génio de Ettore e, a partir de 1927, do seu filho Jean Bugatti. Mullin não esconde, aliás, um certo favoritismo pela marca. “Um dos meus carros favoritos é o Talbot-Lago Teardrop. Exemplifica a combinação perfeita entre escultura e performance. É magnífico qualquer que seja o ângulo de que o olhemos. Mas não posso deixar de mencionar, também, o Bugatti Atlantic que é, sem dúvida, a Mona Lisa dos automóveis.”

E enquanto obra-prima maior desta coleção, o Atlantic tem, juntamente com o Royalle, um lugar de destaque numa vasta galeria estruturada e decorada como uma réplica do Salão Automóvel de Paris dos anos 30 que decorria no Grand Palais dos Campos Elísios. Além destes, encontramos modelos de todas as épocas deste construtor, entre os quais um Type 46 Cabriolet, o Type 101 C e um Type 57G que protagoniza um dos momentos mais tristes da história da família e da marca ao vitimar Jean Bugatti, em 1939. Ettore não mais recuperaria do desgosto causado pela morte do filho e a empresa interromperia a produção até ao final da Segunda Grande Guerra.

O regresso à cena, porém, revelou-se bastante penoso, uma vez que as marcas francesas rapidamente assumiram um inesperado protagonismo, propondo soluções que iam ao encontro dos novos desejos dos consumidores. Entre eles, a prioridade ia para modelos mais pequenos e mais económicos, protagonizados pelo Citroën 2 CV a que Ettore Bugatti ainda tentou ripostar com o Type 68 (também exposto no museu) mas sem sucesso. A Bugatti perdia espaço, o negócio agonizava e Ettore viria a falecer em 1947, aos 66 anos, vítima de pneumonia.

 

MAIS DO QUE UM AUTOMÓVEL
O Bugatti Type 22 Brescia Roadster teve um produção muito limitada mas o que torna especial o chassis nº2461 é a sua história é única. Em 1934, em Paris, durante um jogo de póquer “regado” com algumas garrafas de champanhe, o “playboy” suíço Adalbert Bodi “adquiriu-o” do piloto René Dreyfus.

Ao fim de algum tempo, falido, regressa a casa mas é intercetado na fronteira pelas autoridades alfandegárias suíças. Sem condições para pagar os impostos, abandona o carro à beira do Lago Maggiore. Decorridos alguns anos, as autoridades suíças dão cumprimento à lei que previa a destruição de bens arrestados. Fazem-no lançando o Type 22 Brescia no lago mas, para a eventualidade de um dia ser viável a sua recuperação, mantêm-no amarrado com um cabo que, no entanto, com o passar dos anos, acaba por ceder, atirando o carro para o fundo.
Após a Guerra, o Type 22 continuou na memória dos moradores da zona mas foi preciso esperar três décadas para que, em agosto de 1967, um dos elementos do clube de mergulho local o descobrisse, tornando-se numa das principais atrações para os mergulhadores que se aventuravam no Lago Maggiore.

A história haveria de prosseguir, de novo com contornos dramáticos, quando o jovem Damiano Tamagni perdeu a vida num acidente durante o Carnaval de Locarno. Os dois principais clubes de mergulho da região decidem, então, unir esforços para retirar o Bugatti do fundo do lago, destinando os fundos da sua venda para a então formada Fundação Tamagni que se dedica a combater a violência juvenil. A 12 de julho de 2009, o Type 22 Brescia é retirado do fundo do Lago Maggiore onde esteve submerso durante 75 anos. Viria a ser adquirido por Peter Mullin que o expos no museu exatamente como foi recuperado. “Já não é um carro mas uma peça de escultura. Ettore Bugatti fê-lo nascer como uma escultura e a natureza terminou-o como tal. Seria criminoso fazer o que quer que fosse que alterasse essa condição”.

 

UM TRIBUTO ESPECIAL
Peter Mullin não esconde uma devoção especial à marca Bugatti e o museu com o seu nome testemunha-o com a exibição de quatro dezenas de exemplares da marca que criou alguns dos automóveis mais belos de sempre. É ao fundo da galeria que compreendemos o espírito de Mullin e o lugar que a Bugatti ocupa no seu coração. Aí estão expostos cinco Bugatti, cobertos de poeira, ferrugem e sujidade, tal e qual foram recuperados do armazém onde estiveram durante décadas em que foram confiscados pelo governo suíço aos anteriores proprietários, os irmãos Schlumpf.

Nos anos 50 do século passado estes dois empresários eram detentores da maior coleção Bugatti no mundomas dificuldades económicas ditaram o arresto dos seus bens, entre os quais uma coleção com cerca de 450 automóveis. Uma longa batalha jurídica a cujo termo já não assistiram, ditou a devolução dos carros a Arlette Schlumpf.
Em 2008, após a morte da viúva de Fritz Schlumpf, parte dessa coleção, composta por 17 Bugatti, viria a ser adquirida por Peter Mullin, que decidiu manter cinco deles como tributo à batalha travada pelos proprietários.

 

GALERIA DE ESTRELAS
Se aprecia a arte e a tecnologia automóvel mas aquilo que o fascina é, realmente, a competição, suba agora ao piso superior onde, expostos numa simulação de pista dos anos 30 – onde nem sequer faltam as boxes a condizer vai encontrar uma coleção fabulosa dos modelos que dominaram as principais provas na primeira metade do século. Ao todo são mais de duas dezenas de “gloriosas máquinas” donde é difícil destacar uma…
Do Delahaye Type 135 CS Grand Prix que em 1938 venceu as 24 Horas de Le Mans, ao Bugatti Type 37 A Grand Prix que passeou a sua classe pelas principais provas no final dos anos 20, passando pelo Talbot Lago T26 SS Roadster com que René Dreyfus se assumiu como o piloto a bater antes da Segunda Grande Guerra, é, na verdade uma mostra a não perder para aqueles que pretendem conhecer a história do desporto automóvel.

 

Artigo publicado na Revista Turbo nº 400, de janeiro de 2015
Texto Júlio Santos na Califórnia

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