Aston Martin DBX. Começar com o pé direito

Texto: Francisco Cruz
Data: 7 de Janeiro, 2022

Proposta que veio inaugurar a entrada da Aston Martin no domínio dos SUV e crossovers, o DBX deu, entretanto, já mostras de ser uma estreia com o pé direito. E que nem mesmo alguns lapsos colaterais conseguem beliscar.

Dado a conhecer, pela primeira vez, em 2020, a verdade é que não demorou muito para que se confirmasse aquilo que já anunciava: o primeiro crossover a fazer parte da história da Aston Martin, ao qual foi dado o nome de DBX, veio mesmo para mudar, e muito, aquela que era, desde há décadas, a realidade do construtor britânico!

Além de ser o primeiro modelo do género na oferta da marca de luxo de Gaydon, o Aston Martin DBX foi, de resto e também, o carro que estreou uma nova linha de montagem – St. Athan, em Gales -, além de ter sido aquele que veio, não só aumentar, como também rejuvenescer, o cliente-tipo do fabricante. Dando, dessa forma, novos horizontes a um construtor que corria o risco de se extinguir em si próprio…

Foto: Turbo

A justificar todas estas conquistas, um modelo que, sendo inovador na marca, também não esconde as linhas desportivas mais tradicionais que sempre fizeram parte do código genético da Aston Martin. Inspirando-se em propostas como o Vantage, para exibir soluções emblemáticas como a generosa grelha frontal, a maior de todas as que caracterizam qualquer modelo da marca, ou ainda o design da tampa da mala, com airelon integrado a marcar o desenho da traseira. Ainda que e no caso específico do DBX, tendo por base uma plataforma dedicada e não a mesma do Vantage.

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Generoso nas dimensões e másculo nas linhas, o DBX destaca-se, ainda, pela presença de duas generosas ponteiras projectadas do difusor, assim como de um enorme airelon no topo do óculo traseiro. Pormenores de verdadeiro desportivo a que acresce, ainda, os vidros das portas sem moldura, as saídas de ar colocadas nos flancos das rodas dianteiras e até as próprias rodas – um conjunto formado por jantes de 22″ com pneus 285/40 à frente e 325/356 atrás -, para, assim, deixar bem claro, aquilo que, na verdade, seria impossível de não notar: sendo um SUV, não deixa de ser um Aston Martin!…

INTERIOR

Mas se, por fora, o DBX impressiona, por dentro… cativa. Principalmente e uma vez já recuperados da força que as pesadas portas exigem para abrir (ainda para mais, com umas manetes escamoteáveis não muito práticas…), assimiladas as pequenas particularidades que só um inglês entenderá!

Foto: Turbo

É o caso, por exemplo, da ordem dada aos botões da caixa de velocidades, com o botão Start ao centro, todos eles colocados ao longo do topo da consola central (não será o local mais acessível, mas, enfim…), e com o mais utilizado ‘D’, mais perto do passageiro, que do condutor. Ou, ainda, do facto do ecrã central não ser táctil (num carro de mais de 300 mil euros, é difícil de aceitar…), exigindo um recurso constante aos comandos sobre o túnel de transmissão, claramente importados da Mercedes, para operar o sistema de infoentretenimento. Ou, mais ainda, da colocação da alavanca de abertura do capot dianteiro, não do lado do condutor, mas na parede lateral do passageiro!

Explicações? Claramente o facto do DBX ser fabricado em Inglaterra e os responsáveis da Aston Martin se terem “esquecido”, na passagem da coluna de direcção da direita para a esquerda, nos carros com destino à Europa Continental, de incluir, igualmente, esta alavanca, no processo…

No entanto e uma vez ultrapassadas estas particularidades, que neste crossover inglês serão mais feitio, que defeito, impossível não nos sentirmos especiais aos comandos do DBX. Com a qualidade geral, o conforto, e, principalmente, a atenção ao detalhe, a transmitirem uma sensação de luxo, estatuto e exclusividade tais, que quase até mesmo a óptima habitabilidade, assumidamente para quatro adultos, quase vê a sua importância desvalorizada. O mesmo acontecendo, de resto, com o pouco aproveitamento do lugar do meio, devido ao inevitável túnel de transmissão….

Foto: Turbo

Quanto ao condutor, é presenteado com uma posição de condução, principalmente, muito confortável, fruto de um banco não apenas bonito, como também completo em termos de regulações. E a que se junta um volante de excelente pega, multiregulável e com patilhas para a caixa de velocidades, assim como um painel de instrumentos de design conservador mas totalmente digital (12,3″), a somar ao já referido ecrã central de 10,2″. Notando-se, igualmente, uma visibilidade para o exterior que, especialmente nas manobras, convida e recomenda a utilização das câmaras exteriores; nomeadamente, quando se trata de fazer marcha-atrás!

Aliás e a par de um óculo traseiro fechado e que pouco ajuda na visibilidade, existe, igualmente, uma bagageira a garantir óptima capacidade de carga, acesso fácil através de portão de accionamento elétrico, além da possibilidade de aumentar o espaço disponível, através do rebatimento fácil e na horizontal das costas dos bancos traseiros. Sendo que, por baixo do piso falso, a presença, ainda, de um compartimento de arrumação.

MECÂNICA

No entanto e apesar de todos estes argumentos, a verdade é que bastam apenas algumas dezenas de quilómetros para percebermos que, o argumento mais forte deste DBX, está debaixo do longo capot dianteiro – falamos do fantástico V8 4.0 litros a gasolina, turbocomprimido, de origem alemã (Mercedes-AMG), a debitar aqui 550 cv de potência e 700 Nm de binário. E que, em conjunto com a também alemã e convincente transmissão automática de 9 velocidades (menos rápida, apenas nas reduções em modo sequencial…), consegue garantir acelerações dos 0 aos 100 km/h em apenas 4,5 segundos, com o ponteiro do velocímetro a prometer terminar a sua evolução apenas nos 291 km/h.

Foto: Turbo

Aplicado à realidade, um desempenho, por parte deste V8, verdadeiramente entusiasmante, desde logo, ao ser capaz de nos comprimir contra os bancos. E ainda mais, nas acelerações a fundo, feitas invariavelmente ao som de uma sinfonia rouca e funda, particularmente viciante com um dos modos de condução mais desportivos activados, como é o caso do Sport ou do Sport+.

Infelizmente e como não poderia deixar de ser, tais momentos de prazer intenso pagam-se com consumos elevados, na ordem dos 20 l/100 km, e que só o vício provocado pelas sensações emanadas do V8 nos impede de tirar o pé do acelerador. Trazendo-nos, então, à memória a conhecida canção que, no refrão, lembra que, “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga”…

TECNOLOGIA

Não sendo o aspecto que mais nos chamou a atenção, a verdade é que, no que à tecnologia diz respeito, o DBX cumpre os chamados “mínimos olímpicos” para uma proposta que custa mais de 300 mil euros, paga mais de 100 mil euros só em impostos, e até se dá ao luxo de pedir 285 euros por um guarda-chuva que é proposto como opcional… e que não deixa de ser um vulgar guarda-chuva!

Foto: Turbo

Assim, garantidos estão os ecrãs 100% digitais, painel de instrumentos e ecrã central, ainda que, com o do sistema de infoentretenimento, a exibir a gritante falha de não possuir função táctil, assim como os mais variados modos de condução, vocacionados não apenas para um desempenho mais desportivo, como também para algumas incursões fora de estrada.

É certo que não estamos a ver muitos proprietários a arriscarem, por exemplo, as bonitas jantes de 22″, num qualquer “caminho de cabras”, mas não deixa de ser sempre bom saber que opções mais trialeiras como os modos Terrain e Terrain+, além da suspensão pneumática que permite elevar a carroçaria até aos 235 mm, ou ainda os 500 mm de capacidade de passagem em vau, estão lá…

Finalmente, presença, ainda, de tudo o que é expectável em termos de segurança activa e passiva, embora já o mesmo não se possa dizer quanto à conectividade. Isto, porque o DBX não consegue melhor, em termos de integração de smartphones, do que exigir ligação por cabo e emparelhamento via Apple CarPlay.

Foto: Turbo

AO VOLANTE

Mas se, em termos de conectividade, o conservadorismo do DBX dificilmente será bem-vindo, já em termos de condução, as sensações tradicionais e de desportivo à moda antiga, serão, muito provavelmente, mais um dos pontos fortes deste crossover britânico. E, ainda mais, por estarmos a atravessar uma época em que a eletrificação tudo parece filtrar.

Por outro lado e a ajudar um conjunto com mais de cinco metros de comprimento, mais de 1,6 m de altura, e com um peso total que ultrapassa as 2,3 toneladas – isto, mesmo com uma utilização extensiva do alumínio na sua construção -, barras estabilizadoras activas a procurarem atenuar os movimentos da carroçaria, suspensões pneumáticas que não servem apenas para baixar a carroçaria de forma a facilitar o acesso à bagageira, além de um sistema de travagem com discos de dimensões generosas e uma direcção competente. Tudo soluções concebidas para procurar garantir um desempenho dinâmico ao nível dos melhores, mas que, ainda assim, não conseguem eliminar por completo as transferências de massas quando por trajectos mais sinuosos e feitos a ritmos mais elevados, mas onde o aproveitar das elevadas capacidades do excelente V8 é quase uma obrigação. Ou, até mesmo e no momento de travar a fundo, os (discretos) efeitos do muito peso colocado sobre o eixo dianteiro.

No entanto e nesta luta permanente entre o deve e o haver, ficámos rendidos à gestão feita pelo sistema electrónico de tracção integral, que privilegia, na maior parte das situações, a tracção traseira, ajudado, igualmente, por um diferencial autoblocante traseiro. Sendo que, só em casos de perda de aderência atrás, é que o sistema desvia até 47% do binário para as rodas da frente. Não deixando, assim, de contribuir, de forma determinante, para um desempenho invariavelmente seguro e saudável, mesmo nas estradas mais sinuosos, em que o DBX mostra óptima eficácia no cumprir de curva sobre curva.

Finalmente e não deixando de ser um automóvel grande quando em cidade, onde também mais faz notar a incapacidade para arrancar de forma suave, o DBX assume-se, acima de tudo, como uma proposta confortável. Fazendo falar essa qualidade, quase independentemente do piso ou ambientes; não experimentámos em picadas, é certo, mas, também, não acreditamos que grande maioria dos proprietários o venha a fazer.

Aliás, a verdade é que, só a forma quase majestática como o DBX se faz à estrada, foi suficiente para nos colocar a pensar, seriamente, em jogar no Totoloto…

Foto: Turbo

VEREDICTO

Primeiro e até ao momento único SUV desportivo na oferta da Aston Martin, rival declarado de propostas como o Bentley Bentayga ou o Lamborghini Urus (ainda não chega lá, mas…), o DBX é, sem dúvida, a entrada da marca de Gaydon, com o pé direito, no segmento dos SUV de luxo.

Arrebatador no design, deslumbrante no habitáculo e, ainda por cima, com um V8 que, nós, pelo menos, pedimos encarecidamente para que não deixem morrer, este enorme Aston Martin avassala-nos de uma tal forma, que, já tomámos a decisão: alguém terá aí 300 mil euros que nos possa dispensar?…

 

Gostámos Gostámos

Motor

Nascido noutras paragens, mais concretamente em Affalterbach, Alemanha, este V8 4.0 biturbo é, hoje em dia, uma das jóias da engenharia automóvel que merece ser preservado. A demonstrá-lo, a forma como se exibe neste enorme DBX!…

Conforto

Embora com muitas outras qualidades, inclusive, no capítulo dinâmico, a verdade é que não é preciso andar permanentemente pendurado no acelerador, para sentirmos a exclusividade proporcionada por este Aston Martin. Basta, tão só, sentirmos e desfrutarmos do elevado conforto…

Atenção ao detalhe

Qualidade que acaba tendo repercussões no aspecto anterior, do conforto, a atenção dada pela Aston Martin a (praticamente) todos os detalhes neste DBX, faz-nos sentir, verdadeiramente, especiais… Mesmo que por apenas alguns dias!

Não Gostámos Não Gostámos

Preço

Deslumbrante nas linhas, arrasador no ambiente que proporciona, o Aston Martin DBX faz-se, também, pagar, e bem, por tudo aquilo que o distingue. Mesmo que, uma parte considerável do valor final, sejam impostos…

Consumos

Embora correndo o risco de soar como um lugar-comum, ainda para mais, tratando-se de uma proposta exclusiva como esta, há que dizê-lo, alto e bom som: este DBX bebe que se farta!

Opcionais

Os defensores dirão que se trata de uma questão de luxo, de personalização, de mercado até, mas a verdade é que, a quantidade e preço dos opcionais neste SUV é pouco menos que obscena! Basta recordar o caso do guarda-chuva que custa 285 Euros…

 

Aston Martin DBX

Preço 300.329 € (com opcionais)
Motor Gasolina, V8, 3.982 cc, biturbo
Potência 550 cv (405 kW) às 6500 rpm
Binário 700 Nm às 2200-5000 rpm
Transmissão Integral, Auto., 9 vel.
Peso 2320 kg
Comp./Larg./Alt. 5,04/2,00/1,68 m
Dist. entre eixos 3,06 m
Mala 491 l
Desempenho 4,5s 0-100 km/h; 291 km/h Vel. Máx.
Consumo 14,3 (20*) l/100 km
Emissões CO2 325 g/Km

* Medições Turbo

Equipamento
Destaque: Jantes em liga leve de 22″ (2184€), pinças de travão amarelas (1453€), sistema de escape melhorado (2184€), bancos climatizados (1453€), pacote Gloss Black Upper (5835€), guarda-chuva Aston Martin(285€) e roda sobressalente (431€).