Chery Super Hybrid: revolução chinesa

A ofensiva chinesa deixou de estar concentrada nos veículos 100% elétricas para se estender a outras soluções energéticas com a apresentação de soluções híbridas cada vez mais apuradas do ponto de vista da sua eficiência.

A Chery, uma das mais ambiciosas marcas chinesas da atualidade, apresentou recentemente a tecnologia Super Hybrid, também conhecida como CSH (Chery Super Hybrid). Esta solução representa uma nova abordagem à eletrificação, ao combinar de forma inteligente os princípios dos veículos híbridos (HEV) e elétricos (BEV), com o objetivo de oferecer maior eficiência e autonomia e um desempenho acima da média.

Um sistema híbrido de nova geração

O coração do sistema é um motor a gasolina 1.5 TGDI, desenvolvido de raiz para operar em conjunto com motores elétricos. Ele atinge uma eficiência térmica de 48% (o valor máximo atual é de 40%). Este motor trabalha em sintonia com uma transmissão igualmente específica, a DHT (Dedicated Hybrid Transmission) que promete uma eficiência mecânica até 98,5% graças ao facto de ser a primeira transmissão do género com 3 velocidades.

A potência combinada pode chegar aos 380 cv (280 kW). O conjunto é completado por uma bateria de alta capacidade, que permite percorrer entre 90 e 100 km em modo totalmente elétrico, consoante o modelo e as condições de condução. Em modo híbrido, a autonomia total pode chegar aos 1200 a 1400 km, tornando o CSH particularmente interessante para condutores que alternam entre percursos urbanos e viagens longas.

Ciclo Miller mais profundo

Uma das inovações técnicas do motor Chery Super Hybrid é a aplicação de um ciclo Miller mais profundo com um rácio que se situa em 1,53! O Ciclo Miller é uma variação do ciclo Otto, que atrasa o fecho das válvulas de admissão para reduzir a compressão efetiva e aumentar a eficiência térmica.
Neste caso o pistão realiza um curso de expansão 53% mais longo do que o de compressão. Este atraso controlado no fecho das válvulas permite uma combustão mais eficiente do ponto de vista termodinâmico, diminuindo o consumo e as emissões, sem comprometer a potência, já que o sistema de sobrealimentação e o apoio elétrico compensam eventuais perdas de binário.

Em paralelo com o Ciclo Miller, o motor da Chery recorre também a uma alta taxa de compressão (1,01), que é outro elemento essencial da sua eficiência. Neste caso, o valor 1,01 não indica um rácio absoluto de compressão, mas sim um fator de aumento em relação à compressão física de um motor convencional, representando uma elevação de 1% da taxa de compressão. O objetivo é compensar a redução de compressão efetiva provocada pelo ciclo Miller.

Assim, o motor apresenta uma compressão física ligeiramente superior, permitindo melhor aproveitamento da mistura ar-combustível e maior eficiência térmica, sem penalizar o desempenho. O maior curso durante expansão (53%) ajuda o motor a consumir menos combustível e reduzir as perdas enquanto a maior taxa de compressão assegura que o motor mantém força, binário e resposta rápida. A conjugação destas duas soluções permite alcançar uma eficiência recorde, equilibrando desempenho, consumo e fiabilidade.

Eficiência, desempenho e conforto

Para além dos números, a Chery sublinha o equilíbrio entre eficiência e prazer de condução. O binário instantâneo dos motores elétricos, combinado com o desempenho do motor térmico, garante acelerações vigorosas e resposta imediata.

A marca chinesa também apostou na qualidade de condução, incorporando suportes hidráulicos de motor, um volante de dupla massa e um sistema de isolamento reforçado, para reduzir vibrações e ruído. Nos consumos, a Chery anuncia valores tão baixos como 4 L/100 km, um resultado competitivo mesmo entre os híbridos plug-in mais eficientes do mercado. Estes números colocam o sistema CSH em pé de igualdade, ou até acima, de rivais de marcas japonesas e europeias tradicionalmente associadas à tecnologia híbrida.

Apesar do entusiasmo, a chegada da Chery e do seu sistema CSH à Europa traz alguns desafios. A rede de assistência e fornecimento de peças ainda está em expansão, e o mercado de usados poderá demorar algum tempo a reconhecer o valor destes modelos.

Além disso, o consumo real e a autonomia elétrica efetiva dependerão fortemente do estilo de condução, do relevo e das condições de carga. Ainda assim, a versatilidade do sistema híbrido plug-in permite superar boa parte das limitações associadas aos veículos 100% elétricos, especialmente para quem não dispõe de um ponto de carregamento doméstico.

Modelos e futuro da Chery em Portugal

Entre os primeiros modelos equipados com esta tecnologia encontram-se o Tiggo 7 Super Hybrid e o Tiggo 8 Super Hybrid, ambos já apresentados em vários mercados internacionais. O Tiggo 7, por exemplo, combina a eficiência do motor 1.5 TGDI com uma bateria de 18,3 kWh, oferecendo cerca de 90 km de autonomia elétrica e mais de 1200 km totais.

A introdução anunciada de uma bateria com 34,5 kWh para o modelo Omoda 8 vai aumentar a autonomia para 245 km, segundo referiu à Turbo Charlie Zhang, vice-presidente da Chery responsável pelos negócios internacionais. Em relação ao motor térmico a marca já anunciou que a nova versão tem um consumo de apenas 3 l/100 km pelo que consegue cumprir com a norma Euro 7 o que contraria o discurso habitual dos construtores europeus de que isso obrigaria a investimentos incomportáveis. Para isso contribui também o desempenho do motor elétrico que pode chegar às 30 000 rpm (atualmente fazem 24 000 rpm quando a media é de 20 000 rpm). 

Para o mercado português, a introdução do sistema CSH poderá significar uma nova etapa na democratização da tecnologia híbrida, oferecendo soluções competitivas a preços potencialmente mais acessíveis do que os equivalentes europeus.