Publicidade

A CASA DAS HISTÓRIAS – Museu Louwman


Data: 2 de Abril, 2017

Além de ser uma das maiores coleções privadas, o Museu Louwman, na Haia (Holanda) é uma verdadeira pérola porque reúne mais de 250 automóveis cheios de histórias para contar. Com surpresas a cada canto, é uma visita a não perder!

Num bucólico jardim à entrada da Haia, paredes-meias com o palácio Huis ten Bosch (uma das residências oficiais da família real holandesa), fica um museu automóvel que é um autêntico tesouro! O Museu Louwman alberga a mais antiga mas também uma das mais extensas e históricas coleções privadas de automóveis, além de exibir o maior acervo mundial de arte ligada ao automóvel.

Aqui, todos os cerca de 250 automóveis expostos têm uma história que merece ser lida nos breves resumos (em inglês) que acompanham cada um. Porque foi precisamente essa a opção do fundador deste museu, Piet Louwman: pela impossibilidade de ter todos os automóveis já feitos, privilegiar carros com história.

Piet Louwman estabeleceu-se na Haia como importador da Dodge e Chrysler, tendo comprado o seu primeiro Dodge em 1914, carro que está, obviamente, em exposição. Mas logo começou a colecionar automóveis, abrindo o primeiro museu em 1934, enriquecido em 1969 com a coleção de Geerling Riemer, mudando-se para o sul da Holanda (Leidschendam), para o novo Museu Nacional do Automóvel.

Após nova mudança de casa, em 1981, para Raamsdonksveer, o grande projeto do filho do fundador e atual proprietário, Evert Louwman, concretizou-se em novas e magníficas instalações, inauguradas em 2010 pela Rainha Beatriz. Num projeto do arquiteto norte-americano Michael Graves, foi construído um edifício com caraterísticas típicas da arquitetura holandesa (como os telhados muito inclinados), extremamente bem integrado na paisagem. De tal forma que, ao chegarmos, ficamos com a sensação de que vamos ver uma… coleçãozinha, não nos apercebendo dos três andares e 10 000 m2 de exposição que tão bem escondidos ficaram!

Percebemos melhor ao que vamos logo na entrada, com um magnífico «hall» de gigantesco pé direito e um teto majestoso numa espécie de teia tecida em madeira. O que quase nos distrai dos primeiros exemplares já aí expostos com automóveis curiosíssimos. O Steyr 55 Baby de 1939 que parece um VW Carocha em miniatura, não sendo estranho dado Ferdinand Porsche ter trabalhado dois anos na Steyr. Ou o Tatra 87 de 1948, embora desenhado antes da II Guerra e que levou a marca a acusar a VW de ter copiado a frente para fazer o Carocha – o engenheiro da Tatra, Hans Ledwinka, era amigo de Porsche, mas o processo em tribunal foi interrompido pela II Guerra; mais tarde a VW admitiu a influência deste Tatra… Ou o exercício estilístico de transformar uma carrinha Lincoln de mercadorias de 1939 que a tornou num vistoso «hot rod», com uma Harley Davidson de 1992 carroçada e que é eletricamente recolhida para o interior!

Mas a maior surpresa é quando subimos as escadas para começar a visita propriamente dita e damos de caras com… a «Portuguese Traquitana»! Exatamente, é o primeiro exemplar da coleção deste museu holandês, uma traquitana – coche luxuoso para duas pessoas – de 1775 em estado quase impecável apesar de nunca ter sido alvo de qualquer restauro! A partir daqui, é a história do e as histórias com automóvel que desfilam perante os nossos olhos, num espanto permanente e a vontade de lutar contra o tempo para ler tudo o que está explicado (sucintamente!) sobre cada carro.

Desde veículos a vapor da segunda metade do século XIX, ao segundo automóvel mais antigo do Mundo (um De Dion Button & Trépardoux de 1887), passando pela reconstrução perfeita do que é considerado o primeiro, o Benz Patent Motor Car de 1886. E aprende-se muito até sobre técnica automóvel, ao admirar automóveis elétricos de 1905 a 1916 ou um híbrido precursor do Prius, o Woods Dual Power… de 1917. E, depois, há uma série de carros célebres como os imponentes Mercedes do Kaiser Wilhelm II (1933) ou o Humber Pulmann de Winston Churchill (1954), mais o excêntrico Cadillac Fleetwood (1976) de Elvis Presley, um dos dois DB5 que a própria Aston Martin «armou» para o filme «Goldfinger» da saga «James Bond» ou os extravagantes automóveis dos marajás da Índia.

Espaços dedicados à história da Alfa Romeo, Bugatti e da marca holandesa Spyker – muito mais longa do que imaginávamos, começada em 1880 com carruagens e em 1900 com automóveis, merecedora do espaço próprio com que abrimos esta reportagem –, aos micro-carros e aos fascinantes transportes públicos ou carros de bombeiros de há mais de cem anos, além, claro, de muita atenção à competição automóvel (com o Toyota TF104 de 2004 em destaque) é um mundo fascinante que se esconde por trás da arquitetura arrojada do Museu Louwman. Uma visita a não perder!

ESTE TOYOTA… NEM A TOYOTA TEM!

O carro em pior estado deste museu será, porventura, um dos mais valiosos. Porque este AA nem a Toyota possui, tendo feito uma réplica para o seu museu! O Toyota AA foi o primeiro automóvel de passageiros construído pela marca nipónica, sendo o único veículo pré-Guerra da marca: 1400 exemplares foram feitos entre 1936 e 1943, inspirados no Chrysler Airflow, havendo uma versão descapotável designada… AB. Após muitos anos de busca, este exemplar único apareceu num celeiro na «Rússia remota», em 2008, e o museu conseguiu adquiri-lo ao neto do proprietário, um agricultor siberiano que terá ficado com ele após a II Guerra, eventualmente como despojo de guerra. Só com uma autorização do ministro da Cultura russo e ao fim de sete meses o Toyota AA pôde sair, depois de rebocado de Vladivostoque a Moscovo (6400 km!), seguindo daí num camião para a Holanda. Foi mantido no estado em que foi encontrado e é exibido junto de um mapa que mostra a aventura da obtenção de um exemplar único no Mundo!

 

Artigo publicado na Revista Turbo nº 406, de julho de 2015

Autor: Sérgio Veiga