AS RAÍZES DA F1 – Museu de Donington

Texto: Júlio Santos
Data: 2 Abril, 2017

É “só” a maior coleção de F1 do Mundo e, por isso, se é um apaixonado pela modalidade, não pode deixar de visitar o Museu do circuito de Donington, em Inglaterra. São mais de 130 carros, dos anos 50 aos nossos dias mas, mais importante, são obras de arte que respiram história.

Deixe a família no Algarve e apanhe um voo da Ryanair para East Midlands (de carro são três horas desde Londres e meia hora partindo de Notingham). Colado ao aeroporto, Donington Park (www.donington-park.co.uk) é uma autêntica meca para os amantes da F1. Foi ali, por exemplo, que Ayrton Senna realizou o primeiro teste ao volante de um F1 mas o Williams FW 08C é “apenas” uma das atrações do museu que conta com a maior coleção do Mundo de McLaren e da Williams.

Visto de fora é impossível adivinhar o acervo impressionante ali reunido. Se não soubéssemos, teríamos entrado no bar, bebido uma cerveja, apreciado as fotos na parede e… E teríamos perdido a oportunidade de reviver os melhores anos da F1. Ao todo são mais de 130 carros, todos protagonistas de épocas tão diferentes com os anos 50, que celebrizaram nomes como Alberto Ascari, Tazio Nuvolari ou Juan Manuel Fangio, as fantásticas aventuras dos anos 60 de Jim Clark, até aos anos 70 de Stewart, Fittipaldi e Hunt. Recuando um pouco menos (…), vêm-nos facilmente à memória o génio e a criatividade de Colin Chapman, a determinação de Nigel Mansell e, claro, os despiques épicos entre Alain Prost e Ayrton Senna.

Uma coleção fabulosa que nasceu da paixão de Tom Wheatcroft que nos 70 liderou algumas das equipas mais carismáticas onde alinharam pilotos como Dereck Bell e o malogrado Roger Williamson, cuja memória ocupa um lugar de destaque neste museu que exige uma visita prolongada e no qual reconhecemos uma única lacuna: a existência de apenas três Ferrari. A explicação reside no facto de estarmos em Inglaterra (onde as marcas inglesas dominam) e, principalmente, alguns carros tiveram de ser vendidos a dada altura para solucionar problemas financeiros do museu. Foram os casos do Lotus 25 de Jim Clark, adquirido por um colecionador privado, bem como o Tyrrell com o qual Jackie Stewart se sagrou campeão do mundo em 1973 e um Ferrari F2000 utilizado por Michael Schumacher.

 

UMA NOVA ERA

Com o 500, em 1952, a Ferrari conseguiu, finalmente, colocar um ponto final ao domínio da Maserati nas corridas de F1 no pós-Guerra. Com Alberto Ascari aos comandos o 500 venceu todas as corridas em que participou na temporada de 1952 e em cinco das oito provas em que participou, no ano seguinte, o que permitiu à Ferrari sagrar-se campeã, enquanto Ascari é, ainda, hoje o único campeão do Mundo italiano. A designação 500 do motor concebido por Aurelio Lampredi deve-se à cilindrada de cada um dos quatro cilindros (500 cc), o que perfaz uma capacidade de 2000cc que lhe permitia debitar 170 CV.

Abalada no seu orgulho, a Maserati não tardaria a reagir estreando, no GP da Argentina de 1954, o 250 F. No seu país e com um carro que era tido como o mais avançado da época (motor de seis cilindros em linha, com 220 CV, suspensão independente na frente), Juan Manuel Fangio obtém aí a primeira de duas vitórias, antes de se juntar à Mercedes. O argentino viria a conquistar o título mundial de Condutores, mas os pontos ganhos com o Maserati revelar-se-iam decisivos. Stirling Moss também conduziria um 250F privado, na temporada de 1954.

Os Maserati manter-se-iam competitivos até 1958 mas as alterações de engenharia profundas que os carros de F1 conheceram no final da década de 50, viriam a coloca-los fora de combate.

O primeiro protagonista é o Cooper T51 Coventry-Climax que é o resultado do sucesso obtido por John Cooper na F3, cujos carros, muito leves e curtos, com motores de moto colocados em posição central em chassis tubulares revolucionaram todas as ideias daquilo que devia ser um carro de desporto. O Cooper T51 seguiu, então, esse princípio, mesmo sendo ligeiramente mais comprido para poder alojar um motor de 2,5 litros da Climax, que depois veria a capacidade reduzir-se para 1,5 litros para cumprir com os regulamentos de F1 da época. Depois de um começo difícil o Cooper T51 viria a assumir-se como o grande triunfador da época, possibilitando a Jack Brabham a conquista do seu primeiro título de Condutores. Seguiram-se muitos outras triunfos tendo ao volante pilotos como Stirling Moss, Phil Hill, e Bruce McLaren.

 

HISTÓRIA DA F1 ESCREVE-SE COM W

Na galeria Williams, ela própria uma equipa detentora de um palmarés fantástico, com mais de 100 vitórias em GPs, o FW 08 C ocupa um lugar especial. Num dia frio de Julho de 1983 Frank Williams cumpriu a promessa de proporcionar a Ayrton Senna (que tinha acabado de se sagrar campeão britânico de F3, vencendo 10 das 13 corridas da temporada) o primeiro contacto com um F1. Ao volante do carro com o qual Keke Rosberg tinha ganho, dois meses antes, o GP do Mónaco, Ayrton realizou 83 voltas ao traçado de 3040 metros averbando um tempo (1.00.82 minutos) que o colocaria entre os melhores na corrida disputada meses antes.

Frank Williams ficou impressionado, tendo em conta a falta de experiência de Senna e, principalmente, a pouca competitividade dos Williams FW 08C cujo motor Cosworth atmosférico (530 CV) nada podia fazer face ao poderio dos turbos.

Senna acabaria por assinar pela Toleman (e o resto é o que se sabe), enquanto Frank Williams recuperou o protagonismo ao assegurar, no ano seguinte, um acordo de fornecimento de motores Honda. O ano de 1984 é de aprendizagem e discreto em resultados que só começam a chegar em 1985 já com Nigel Mansell e Nelson Piquet, dando início a um período de forte protagonismo: em 1986 a Williams conquista o título de Construtores e no ano seguinte Nelson Piquet soma ao de Construtores o cetro destinado aos Condutores. No final desse ano a Honda anuncia a saída da F1 e o fornecimento de motores passa a ser assegurado pela Judd, o que se revela uma catástrofe que só termina com a chegada da Renault, em 1989.

Com renovados meios financeiros e tecnológicos, a par do regresso de Nigel Mansell, a Williams ganha um novo impulso em 1991 estando na disputa dos títulos de Construtor e Condutor até ao célebre GP do Japão que consagra… Ayrton Senna e a McLaren.

A vingança é servida no ano seguinte, com Mansell a assegurar o título com grande facilidade e a Williams a confirmar uma enorme superioridade através do segundo lugar de Patrese. Os dois deixam a equipa em 1933 e são substituídos por Alain Prost e Damon Hill que confirma o avassalador domínio da Williams, em 1983, materializado no título de Construtores e de Condutores, para Prost que deixa a equipa ao cabo de uma temporada marcada, como muitos se recordarão, pelos épicos combates entre Senna e Prost.

O francês abandona a competição e para o seu lugar, em 1984, Frank Williams contrata o brasileiro. Um reencontro dez anos depois que tinha tudo para ter um final feliz não fora aquela fatídica tarde de 1 de maio de 1994.

 

UMA SALA CHEIA DE HISTÓRIA

À semelhança daquilo que acontece com a galeria Williams, também no caso da McLaren estamos perante a maior coleção do mundo daquele que é um dos construtores de referência para a história da F1. A par de praticamente todos os carros dos anos 70, 80 e 90 encontramos alguns exemplares únicos, protagonistas de histórias inesquecíveis para todos os apaixonados pela modalidade. É o caso do McLaren M23 que permitiu a James Hunt a conquista do título Mundial em 1977, do chassis nº4 do McLaren MP4/14 com o qual Mikka Hakkinen conseguiu proeza idêntica em 1999, do MP4/8 com o qual Ayrton Senna triunfou no GP da Europa de 1993 disputado, precisamente, em Donington, ou do MP4/2 que possibilitou a Alain Prost a conquista do primeiro Campeonato do Mundo de Pilotos, em 1985. Antes temos, ainda, o privilégio de ver raridades como o M14A de Denny Hulme, para já numa fase mais recente encontrarmos os carros utilizados por Coulthard ou Kimi Raikkonen.

A McLaren foi fundada em 1963 pelo neozelandês Bruce McLaren que disputou 104 GPs entre 1958 até morrer, em Goodwood, em 1970, alcançando, apenas, quatro triunfos. A McLaren, porém, sempre foi conhecida pela solidez da estrutura técnica pelo que a equipa manteve-se firme mesmo após a morte do seu líder. A sucessão é assegurada por Teddy Mayer que até 1982 seria responsável pelos títulos mundiais de Emerson Fittipaldi e James Hunt.

A Teddy Mayer, que morre em 1982, sucede Ron Dennis cuja devoção à engenharia, o rigor dos métodos e a capacidade para negociar parcerias (nomeadamente na área do fornecimento de motores) é bem conhecida e apontada como o fator decisivo para a manutenção da McLaren como construtora de referência na F1 durante décadas.

Com um total de sete dos oito títulos de construtores conquistados e 10 dos 12 campeonatos de Pilotos proporcionados a nomes como Prost, Senna, Lauda, Mika Hakkinen e Lewis Hamilton, o primado Ron Dennis é marcado, também, pela colaboração com alguns dos génios da F1, como Gordon Murray, John Barnard, ou Steve Nichols que concebeu, entre outros, o MP4/4 que em 1988 venceu 15 das 16 corridas disputadas e “ofereceu” títulos a AlainProst e Ayrton Senna. Até hoje a McLaren consegiu 182 vitórias em GPs.

 

Artigo publicado na Revista Turbo nº 408, de setembro de 2015

 

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