As Origens – Museu Mercedes


Data: 14 Abril, 2017

Se gosta de carros e quer saber como tudo isto começou, passe pelo Museu Mercedes-Benz em Estugarda, Mais do o passado da marca, aqui acompanha-se a história do automóvel – juntamente com a do próprio homem – desde os primórdios até aos dias de hoje. A não perder.

Um cavalo ruço. Quando as portas da cápsula temporal se abrem, os viajantes deparam-se com a insólita visão de um equídeo a dominar um futurista hall circular. O porte do animal assusta, mas só naquela fração de segundo antes de perceber que está embalsamado e com os cascos devidamente ferrados num elegante patim de madeira. Está aqui apresentado como sendo o meio de transporte mais antigo ao dispor da humanidade. Por vezes temperamental, mas bastante fiável e de manutenção relativamente simples, o cavalo teria tudo para continuar a ser o veículo do quotidiano de todos nós, não fosse o espírito inventivo de Karl Benz e Gottlieb Daimler: foram estes os pioneiros que – cada um à sua maneira – criaram o conceito automóvel. Acabo de sair do elevador no piso superior do Museu Mercedes-Benz, em Estugarda, e estou prestes a iniciar a viagem no tempo que irá mostrar as origens e a evolução desta máquina que nos move e (ainda) apaixona.
“O” MUSEU
Os museus estão para as marcas de automóveis como os testes nucleares para as superpotências: servem para marcar posição, demonstram o poderio de quem os faz e são recados aos rivais para que se aprumem. E a Mercedes-Benz quis ter a certeza de que o seu museu, aberto ao público em 2006, seria a fasquia que muitos desejam, mas que nenhum alcança.

Fica em Untertürkheim, nos arredores mais chegados de Estugarda, e tem vista para as enormes instalações do gigante industrial alemão – o ordenado do CEO Dieter Zetsche deve ser de ir às lágrimas, mas viver constantemente acompanhado de dois guarda-costas e passar os dias neste arrumado subúrbio fabril não será dos quotidianos mais tentadores. Algumas das salas do museu também nos deixam ver a pista de testes, com uma curva tão inclinada que se confunde com uma parede e que permite velocidades de passagem elevadíssimas aos veículos testados – infelizmente, esta manhã não há protótipos a rodar.

Rodeado de encostas com tapetes de vinha, de edifícios fumegantes, de vias rápidas preenchidas e a poucas centenas de metros da Mercedes-Benz Arena, o estádio do VfB Stuttgart, (o museu) é uma ondulante „carroçaria“ de alumínio e vidro que se destaca no cenário envolvente quase como um navio em pleno deserto. Há dados de construção curiosos, como as 110 mil toneladas de peso, os 100 quilómetros de tubagens de aquecimento embutidas na estrutura de betão, as 12 mil lâmpadas e os 1800 vidros exteriores triangulares – não há dois iguais. Mais importantes para o visitante são os 16500 m2 de área de exposição, os 160 veículos ali expostos e a informação (de antemão) de que pode ter de percorrer até cinco quilómetros no seu interior – esqueça o sapatinho da moda e leve calçado confortável. E a estátua de Juan Manuel Fangio lá está, a 50 passos da entrada, para lhe dar as boas-vindas num dia que promete ser intenso.
AS ESPIRAIS DA HISTÓRIA
O museu consiste num par de espirais „inspiradas nas que formam o ADN com o genoma humano“ – palavras de arquiteto. Estas ficam bem à vista quando se está no átrio principal e se olha para cima; é como estar no epicentro de um gigantesco remoinho de betão. A intenção foi eliminar ângulos vivos que separem as paredes do chão ou do teto, com superfícies que fluem até formarem um todo sem junções nem linhas de cortes – o sonho de um skater tornado realidade e que levou à instalação de barras de ferro em algumas áreas para impedir crianças mais afoitas de improvisarem escorregas nas lisas „paredes“ do museu. Ainda no piso térreo, pode ver-se a reta final da visita e não resisto à tentação de espreitar alguns dos protótipos do passado recente da Mercedes-Benz, como é o caso do Carver Concept de 2002: este fantástico roadster prometia uma dinâmica fulgurante, com as suas quatro rodas a inclinarem-se para o interior das curvas tal e qual como numa moto…

Cada uma das espirais tem funções distintas, cabendo à primeira (Legend) acompanhar a evolução da marca ao longo do tempo, enquanto a segunda (Collection) tem um caráter temático, expondo a força da Mercedes-Benz em assuntos tão diversos como veículos de trabalho e de transporte público, carros de altos dignitários de todo o mundo e modelos utilizados por celebridades – desde o 230 G “Papamobil” ao 500 SL com que a Princesa Diana traiu a indústria automóvel britânica. Ambas estão interligadas entre si, notando-se perfeitamente o tom sumptuoso da Legend a contrastar com o princípio funcional da Collection: a iluminação e os materiais aqui utilizados, o cuidado posto na arrumação dos modelos expostos e o espaço reservado a cada um deles, a informação mais detalhada e aquele pormenor fabuloso que é ter fotos de época ao longo do percurso. Assim, fica mais fácil viajar no tempo.
NAS CURVAS DO PASSADO
Ambos os percursos (Legend e Collection) culminam num “banking” onde se aglomeram muitas das gloriosas máquinas de corrida da Mercedes-Benz. O visitante pode mesmo sentar-se numa bancada de autódromo e descansar as pernas enquanto aprecia esta admirável coleção de vencedores, desde os recentes F1 às Flechas de Prata, sem esquecer exemplares não tão famosos, como o 500 SLC com que Björn Waldegaard arrecadou o primeiro lugar no Rali Safari de 1980 – com 4,75 metros de comprimento e caixa automática “àantiga”, que estranho deve ter sido ver este carro a competir no Mundial de Ralis.

Também é possível acompanhar o trajeto desportivo da marca a bordo de uma cápsula temporal… É suportada por potentes braços hidráulicos e tem portas de abertura vertical, que dão acesso a um escuro habitáculo para dois ocupantes. O que antes imaginei ser apenas um simulador de condução revela-se uma das experiências mais agoniantes dos últimos catorze anos (que incluem um salto de queda livre, trocas de fraldas e muitos quilómetros ao lado de outros jornalistas em apresentações de automóveis), com as imagens do antigamente acompanhadas de valentes safanões e de inesperadas chicotadas de volante. A não repetir.
O CARRO DO CHEFE
Os (bons) museus estimulam a imaginação e, mais cedo ou mais tarde, cai-se naquele estado de transe que é sonhar acordado. Um pouco como uma criança numa loja de brinquedos, dou por mim a pensar em como seria estar ao volante de muitos dos carros aqui expostos, desde o fabuloso transportador de alta velocidade, que podia carregar o bólide de Fangio de um circuito para o outro a 170 km/h (isto em 1955!), aos diversos modelos usados pelos departamentos de desenvolvimento – nos anos 60, em vez de laptops e equipamento de medições a bordo, o carro de testes ia ligadopor cabo a uma enorme carrinha, que o seguia de muito perto com uma equipa de engenheiros a bordo…

O 190 E preto que Ringo Starr conduzia habitualmente em Londres tem qualquer coisa de perverso – nem dá para acreditar que o motor 2.3 preparado pelo AMG debita apenas 150 CV – e o afilado concept C-111 de 1970 mostra como a Mercedes poderia ter entrado triunfalmente no mundo dos superdesportivos de motor central.

Contudo, nenhum deles me encanta tanto quanto o carro de serviço do engenheiro Rudolf Uhlenhaut, o “pai” do famoso 300 SL “Asas de Gaivota” de 1954: trata-se do 300 SLR desenvolvido para competir em 1956, mas que nunca viria a correr, porque a Mercedes decidiu abandonar as pistas depois do terrível acidente de Pierre Levegh na edição de Le Mans do ano anterior. Uhlenhaut, que chefiava o departamento de competição e que passaria a ser Engenheiro-Chefe no desenvolvimento de veículos de produção, não perdeu a oportunidade de fazer deste belíssimo coupé o seu veículo de uso diário e, diz-se, chegou a atingir 290 km/h em plena Autobahn…

Se o que se diz por aí é verdade, que o sonho comanda a vida, então quero sair do museu ao volante deste 300 SLR “Uhlenhaut Coupé”, com o grito do bloco 3.0 a estremecer as fundações do edifício, os elegantes guardalamas a desafiar a dureza do betão e os pneus a chiar ao longo das rampas que me levam à rua. Que ninguém me acorde!

 

Artigo publicado na Revista Turbo nº 399, de dezembro de 2014
TEXTO FLÁVIO SERRA EM ESTUGARDA

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