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A Energia Inteligente e a mudança na sociedade

Texto: Nuno Fatela
Data: 11 Fevereiro, 2018

A forma como será fornecida a eletricidade aos automóveis, e a forma como eles vão contribuir também para a rede elétrica, foram abordados no painel da Energia Inteligente do segundo Forum Nissan da Mobilidade Inteligente.

Após o primeiro painel do dia ter confirmado que é inequívoca a chegada dos veículos elétricos para transformar a mobilidade, o Forum Nissan da Mobilidade Inteligente centrou-se na forma como estas viaturas serão abastecidas. A Energia Inteligente, com foco na expansão da rede em Portugal e também na introdução de novas soluções como as fontes de armazenamento, foram abordados pelas diversas intervenções. Para o final ficou a demonstração sobre a integração de todo o ecossistema de mobilidade e a forma como as próprias cidades vão adaptar-se, com distintas soluções, às mudanças que estão em andamento.

 

O Ecossistema de Energia

A chegada em larga escala da mobilidade elétrica vai obrigar as redes a adaptar-se às necessidades crescentes dos automóveis. Por isso, a introdução de uma gestão inteligente é essencial para garantir o fornecimento dos automóveis. Um dos que ficou com a responsabilidade de dar a visão da marca neste campo foi Brice Fabry, o Diretor de Estratégia e Ecossistema de Zero Emissões da Nissan Europa.

Os veículos, tecnologias de baterias, infraestruturas e a própria geração e gestão da energia são considerados como os componentes que, em conjunto, criam o ecossistema. Fabry começou por destacar a parte das baterias, com a introdução da parceria com a Eaton, a WebAxys e a WNE para dar segunda vida a este componente como garantia de armazenamento de energia para os servidores do Green Data Center. E sobre o V2G, Fabry recordou que existem diversas modalidades contempladas e que a Nissan “está disposta a colaborar com qualquer empresa” que esteve presente no Fórum Nissan Mobilidade Inteligente.

Na parte das infraestruturas foi a rede CHAdeMO, que cresceu de 206 postos em 2011 para 4700 pontos de carga em 2017 na Europa a ser destacado. O objetivo passa agora por atingir os 5500 postos, separados entre si por uma distância de 100km, até ao final de 2018. Surgem já exemplos como o da Córsega, extremamente bem abastecida com uma oferta de 14 carregadores para o seu território. E aqui foi recordado que são utlizados os postos da Efacec pela Nissan em países como a Polónia, França, Holanda e Reino Unido. Outro dos pontos interessantes tem a ver com a combinação entre casa, negócio, comunidade e cidades, a relação entre os quatro polos que vão ser essenciais para a introdução das infraestruturas.

Sobre a polémica relativa aos vários formatos de carregadores afirmou ainda que o CHAdeMo é o único que permite a troca bidirecional de energia. O que pode ser importante quando surgir o momento de escolher o formato final, pois permite o envio V2G e portanto mais oportunidades de negócio para os consumidores.

Portugal e o objetivo de neutralidade em 2050

José Mendes Gomes, o Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente já tinha fornecido recentemente, como pode encontrar neste artigo, a sua visão sobre o caso nacional. Destacando  a necessidade de testar novas soluções para a mobilidade, com um sistema de criação de valor para distribuir as oportunidades, foi recordado o impacto da necessária redução nas emissões dos transportes em 26% (entre 2005 e 2030) como patamar intermédio para o objetivo da neutralidade carbónica em Portugal no ano de 2050.

Foram novamente destacados os três pacotes de mobilidade, com a transformação das viagens, a mobilidade suave e especialmente partilhada e a eletrificação. Recordando que “os recursos são, por definição, escassos” referiu a necessidade de fazer opções. Mas referiu a abertura do governo para testar soluções e concluiu que os que desejem mudar a mobilidade podem “contar com Portugal como um parceiro importante nessa matéria”.

 

A expansão da rede e o aumento da procura

Alexandre Videira, Presidente da Mobi.E foi o interveniente seguinte, onde recordou a importância da existência de uma rede cada vez mais extensa e também da ligação entre os vários intervenientes que participam na cadeia de fornecimento aos veículos elétricos. Deu como exemplo o esforço que tem de ser feito na produção de eletricidade, através da utilização de energias renováveis, o enquadramento político que ofereça incentivos e participe na introdução de uma rede alargada de postos, e da indústria automóvel e polos de investigação para expandir a oferta de veículos e a capacidade das baterias.

Mas uma das partes mais importantes da sua apresentação esteve relacionada com a expansão que ocorreu na rede de carregadores, bem como a atual intervenção que permitirá aumentar o total de postos e a atualização dos atuais pontos de 3kW para 22kW.  A atual oferta composta por 608 locais de carregamento, com 550 a velocidade normal e 58 de carga rápida, com um total de 1469 tomadas, foi um dos pontos destacados. Bem como o crescente interesse em todas as áreas deste negócio, como na existência de 18 operadores e já seis empresas interessadas na comercialização através do modelo de negócio em desenvolvimento. Para esse crescente oferta, e procura por parte dos clientes, também é importante a forma como esta rede está espalhada, com a cobertura das principais autoestradas e a disponibilidade que está a ser implementada ao nível de todos os municípios.

Esta situação acaba por ter impacto na quantidade de eletricidade consumida, com um expressivo aumento de 117% em 2017 para acima dos 2000mWh e onde surgem já 47% dos abastecimentos com recurso a cargas rápidas. Uma situação que deriva da crescente procura por parte dos postos integrados nesta análise da Mobi.E, já que 4278 utilizadores fizeram um total de 232788 cargas, um aumento de quase 150% em relação ao ano anterior. Estes dados comprovam a expansão da mobilidade elétrica, tendo sido utilizada a zona de Lisboa como exemplo prático. Em 2011 os 105 utilizadores registados fizeram 1165 operações de carga, registo que sobe para 9245 abastecimentos por 313 condutores em 2013, existindo posteriormente um aumento exponencial para 2017, com 76022 ligações à tomada por 2051 proprietários de veículos elétricos. E, como o mapa apresentado demonstrou, eles significam também o impacto da crescente autonomia, com cada vez mais utilizadores provenientes de zonas afastadas da capital.

 

A culminar a sua apresentação, foram resumidos por Alexandre Videira os principais planos da Mobi.E para 2018, onde o foco está colocado no crescimento e modernização da rede. Acompanhando a crescente evolução tecnológica, estão previstos 31 postos de carga rápida (11 num projeto piloto e 20 por parte de privados) e a continuação da atualização dos postos mais lentos para os 22kW, com 100 pontos de carga a receberem este aumento de potência. O que vai permitir, também, garantir a existência de um desses postos em cada município nacional. Para tempos futuros, este orador veio ainda destacar o impacto dos sistemas de armazenamento de energia, da crescente introdução de postos que dão energia às baterias a alta velocidade, os sistemas V2G e ainda a sempre importante introdução do carregamento num ecossistema mais alargado de serviços de mobilidade.

 

A integração generalizada

Paulo Ribeiro, da Universidade do Minho, ficou responsável por encerrar esta discussão, tendo centrado a sua intervenção especialmente na inclusão da mobilidade no ecossistema das cidades, com o sistema de transporte integrado. Surge desde logo a necessidade de ter em conta os principais impactos que dela derivam na atualidade, como os congestionamentos, a poluição e como é preciso assegurar as necessidades dos habitantes se moverem. Para responder a estes desafios, afirma que o caminho é a eletricidade, a conetividade e a autonomia.

Afirmando que o chapéu desta mudança é a tecnologia, refere a necessidade de no futuro existir uma integração social, económica e tecnológica, bem como a criação de novos modelos de negócio e sistemas relacionados com a energia. O que dará origem à mudança na utilização do espaço público e o que designa como “cidades novas”.

Aqui há que destacar a pertinência da utilização do modelo existente no Relatório McKinsey “Automotive Revolution”, com três ecossistemas para diferentes cidades:

O primeiro, aplicado a cidades de alta densidade e populações de baixos rendimentos, é designado como “partilhado e limpo”. Aqui surgem como principais problemas atuais o congestionamento e a poluição, pelo que a solução será encontrada primordialmente nos transportes mais limpos e a otimização dos transportes partilhados.

Surge depois um modelo de “autonomia privada”, para pólos urbanos com subúrbios muito dispersos onde habitam pessoas com rendimentos elevados. Pela menor densidade populacional, viajar de carro até ao centro da cidade, com as consequências dos congestionamentos e poluição, são as principais questões que se colocam, e a solução passará pelas viagens autónomas em veículos elétricos. As vantagens obtidas são viagens mais seguras limpas, baratas e com maior conveniência.

O conceito de cidades “seamless” (traduzidas por uma forma de mobilidade livre) será aplicado a centros urbanos com muita população e rendimentos elevados. Aqui é novamente a poluição e os congestionamentos que necessitam de ser resolvidos, mas as respostas serão encontradas através da condução autónoma, a mobilidade elétrica e os modelos de partilha de viagens. Nestas cidades terá maior preponderância a oferta de serviços porta-a-porta e também viagens intermodais.

 

Resumo:

A forma como a mobilidade elétrica está a ser implementada em Portugal, com a expansão da rede e o apoio do Estado destacados, foram temas abordados. Mas, pela crescente procura por energia dos veículos elétricos, estabilizar a rede elétrica como os sistemas de armazenamento (até permitindo uma segunda vida às baterias) e a própria mudança da vida nas cidades (pelo fomento dos transportes públicos, novos serviços e viagens intermodais) apresentam-se como soluções para corresponder ao aumento de procura por energia, de preferência de fontes renováveis, e do fluxo das populações para as cidades, com as suas necessidades de mobilidade.