Quando a VW montou um W16 num Lamborghini Diablo

Ferdinand Piëch, antigo líder do Grupo Volkswagen, marcou profundamente a indústria automóvel com projetos ambiciosos e motores invulgares. Do desenvolvimento do W16 da Bugatti a testes como um Lamborghini Diablo equipado com esse motor, o engenheiro austríaco ajudou a impulsionar uma era de inovação extrema

Ferdinand Piëch foi uma das figuras mais influentes — e também mais polémicas — da história recente da indústria automóvel. O engenheiro austríaco, que liderou o Grupo Volkswagen durante uma das suas fases de maior expansão tecnológica, construiu um legado difícil de igualar entre executivos do setor.

Ao longo da sua carreira, Piëch esteve ligado ao desenvolvimento de alguns dos automóveis mais icónicos do final do século XX. Entre eles destacam-se o lendário Audi Quattro, que revolucionou os ralis com o sistema de tração integral, e o Porsche 917, um dos protótipos mais dominantes da história das 24 Horas de Le Mans. Paralelamente, impulsionou também projetos mais convencionais, como o Volkswagen Passat W8 ou o luxuoso Volkswagen Phaeton W12, exemplos da sua obsessão por engenharia sofisticada.

Experiências mecânicas sem limites

Durante o seu mandato, o Grupo Volkswagen ganhou reputação por apostar em soluções mecânicas pouco convencionais e muitas vezes dispendiosas. Um dos exemplos mais curiosos foi um protótipo do Audi R8 equipado com um motor V12 TDI. Apesar de nunca ter chegado à produção, o projeto demonstrou até onde a empresa estava disposta a ir em termos de experimentação tecnológica.

A mesma filosofia levou também à criação de versões extremamente potentes de modelos de produção. O Audi Q7 chegou a utilizar um motor diesel V12, enquanto o Volkswagen Touareg foi comercializado com um invulgar V10 TDI, motores que refletiam a ambição de Piëch em ultrapassar limites técnicos.

O nascimento do motor W16 da Bugatti

Entre todas as experiências, nenhuma foi tão marcante como o desenvolvimento do motor W16 da Bugatti. Curiosamente, a ideia inicial previa um propulsor ainda mais ambicioso. No Salão Automóvel de Frankfurt de 1999, o protótipo Bugatti 18/3 Chiron apresentou um enorme motor W18 atmosférico de 6,2 litros.

Contudo, a solução final revelou-se diferente. A Bugatti optou por um motor W16 de 8,0 litros com quatro turbocompressores — uma configuração mais compacta e capaz de oferecer níveis de potência sem precedentes para um automóvel de produção. Este motor viria a tornar-se o coração do Bugatti Veyron, um dos hipercarros mais revolucionários do século XXI.

Um Lamborghini Diablo para testar o W16

Antes de chegar ao Veyron, o motor teve de ser testado em protótipos experimentais. Depois de o Grupo Volkswagen ter adquirido a Lamborghini em 1998, engenheiros da empresa utilizaram um Lamborghini Diablo SV como plataforma de testes.

O V12 original foi removido para dar lugar ao W16 em desenvolvimento. Tratava-se de uma versão pós-restyling do Diablo, reconhecível pela ausência dos tradicionais faróis retráteis, abandonados em 1999. A carroçaria recebeu também várias modificações e entradas de ar adicionais, necessárias para arrefecer o enorme motor.

O resultado visual aproximava-se mais de um carro de competição de Le Mans do que de um supercarro de estrada.

Outros protótipos extremos do Grupo Volkswagen

O W16 não apareceu apenas nos testes do Veyron. O Grupo Volkswagen chegou a desenvolver vários protótipos com esta arquitetura mecânica. Entre eles destacam-se o Bentley Hunaudières, apresentado em 1999, e o Audi Rosemeyer, revelado em 2000, ambos com ambições de se tornarem supercarros de referência.

Durante a chamada “era Piëch”, até a própria Volkswagen explorou a ideia de criar um supercarro. O ponto alto foi o Volkswagen W12 Nardo, apresentado em 2001, equipado com um motor W12 e capaz de bater vários recordes de velocidade média.

O fim de uma geração de motores

Nos últimos anos, muitos destes motores emblemáticos chegaram ao fim do seu ciclo. O W12 despediu-se em 2024, quando a Bentley produziu a última unidade para o exclusivo Bentley Batur. Já o W16 aproxima-se do encerramento definitivo com a entrega do último Bugatti Mistral, o roadster que marca o final dessa linhagem.

A nova geração da Bugatti segue agora um caminho diferente: o Bugatti Tourbillon mantém dezasseis cilindros, mas numa configuração V16 atmosférica desenvolvida em parceria com a Cosworth.

Enquanto isso, na Lamborghini, a tradição continua viva. O histórico V12 da marca italiana mantém-se em produção na era da eletrificação, atualmente no híbrido de alto desempenho Lamborghini Revuelto — uma herança direta de uma época em que Ferdinand Piëch acreditava que, na engenharia automóvel, os limites existiam apenas para serem ultrapassados.