Mercedes E 500: o sedan V8 que uniu Mercedes e Porsche

No início dos anos 90, a Mercedes-Benz recorreu à Porsche para criar uma versão excecional do W124. Assim nasceu o E 500, um sedan executivo com motor V8, engenharia partilhada e produção artesanal, hoje considerado um dos melhores sedans de sempre

Basta mencionar “500 E” para despertar entusiasmo entre entusiastas e conhecedores. O sedan de alta performance da série W124 não só se destacou dentro da própria gama Mercedes-Benz, como conquistou um lugar único na história do automóvel. Produzido em apenas 10.479 unidades, incluindo o E 500 e o raríssimo E 60 AMG, tornou-se desde cedo um clássico cobiçado.

Mercedes-Benz 500 E: o sedan discreto que redefiniu a alta performance

Lançado publicamente no Salão Automóvel de Paris, em outubro de 1990, o 500 E surgiu quando a série W124 já estava há seis anos no mercado. À primeira vista, parecia apenas mais um elegante sedan de quatro portas. Mas por baixo da aparência sóbria escondia-se um dos automóveis mais rápidos da sua época.

Equipado com um motor V8 de 5,0 litros, o 500 E desenvolvia 240 kW (326 cv), acelerava dos 0 aos 100 km/h em apenas 5,9 segundos e tinha a velocidade máxima limitada eletronicamente a 250 km/h. Números que, no início dos anos 90, o colocavam lado a lado com verdadeiros carros desportivos.

Performance sem ostentação

Uma das grandes virtudes do 500 E era precisamente a discrição. Exteriormente, apenas os mais atentos notavam as diferenças face aos restantes W124: vias alargadas, asas ligeiramente mais salientes para acomodar pneus 225/55 R16, carroçaria rebaixada em 23 milímetros e um spoiler dianteiro específico com faróis de nevoeiro integrados.

Esta abordagem agradava a um tipo muito particular de cliente — alguém que valorizava prestações de topo, mas preferia passar despercebido. E, se pelo caminho pudesse deixar para trás carros desportivos mais chamativos, tanto melhor.

Engenharia V8 com ADN de competição

O coração do 500 E era o motor M119, derivado do 500 SL (R129): um V8 atmosférico de 4.973 cm³, com quatro válvulas por cilindro. Este motor introduziu na Mercedes-Benz o sistema de injeção Bosch LH-Jetronic com sensor de massa de ar de fio aquecido. Curiosamente, esta mesma família de motores, em versão biturbo, levou a Sauber-Mercedes à vitória nas 24 Horas de Le Mans e no Campeonato Mundial de Carros Desportivos de 1989.

Para lidar com o desempenho elevado, o 500 E recebeu travões do SL, controlo de tração ASR de série e várias melhorias no equilíbrio dinâmico, incluindo a deslocação da bateria para a bagageira, otimizando a distribuição de peso.

Uma colaboração histórica com a Porsche

A instalação de um V8 num sedan de segmento médio não era inédita na Mercedes-Benz — o lendário 300 SEL 6.3 já o tinha feito nos anos 60. No entanto, no final da década de 1980, a marca alemã tinha os seus recursos de engenharia focados no SL R129 e na Classe S W140. A solução passou por recorrer à Porsche.

Em 1987, a Porsche recebeu o contrato para desenvolver e preparar o W124 com motor V8. A produção tornou-se um processo quase artesanal: as carroçarias eram montadas em Zuffenhausen, pintadas em Sindelfingen e regressavam à Porsche para a montagem final. Só depois eram entregues aos clientes através da Mercedes-Benz. Esta colaboração foi vital para a Porsche, que atravessava dificuldades financeiras na época.

Produção limitada e versões especiais

Até abril de 1995, foram produzidas 10.479 unidades do 500 E, E 500 e E 60 AMG. Este último, lançado em 1993, elevava a fasquia ainda mais alto, com um V8 de 6,0 litros e 280 kW (381 cv), tornando-se uma das versões mais raras e desejadas.

Apesar do prestígio do 500 E, o 400 E/E 420, com 279 cv, acabou por ser mais vendido, com 22.802 unidades produzidas. Ainda assim, nunca atingiu o mesmo estatuto icónico.

O preço refletia a exclusividade: 134.510 marcos alemães, mais do dobro de um 300 E. Em 1994, surgiu ainda o E 500 Limited, restrito a 500 unidades, com acabamentos exclusivos e cores especiais como preto safira ou prata brilhante.

Um legado intocável

Com o fim da produção do W124 em 1995, o E 500 saiu de cena, mas deixou um legado duradouro. A tradição dos sedans de alta performance seria continuada pelos modelos AMG, mas poucos alcançaram o equilíbrio quase perfeito do 500 E.

A imprensa da época não poupou elogios. A auto motor und sport descreveu-o como surpreendentemente confortável para um chassis de alto desempenho, enquanto a Road & Track destacou a combinação rara de potência brutal, elegância discreta e carácter — qualidades que continuam a definir o Mercedes-Benz 500 E como um dos maiores sedans de sempre.