Euro 7 aperta com emissões causadas pelos travões de disco

A futura norma Euro 7 vai obrigar a indústria automóvel a reduzir drasticamente as partículas emitidas pelos travões. Na Alemanha, um novo disco em aço inoxidável promete cortar o desgaste em mais de 85%, durar até 300 mil quilómetros e abrir caminho a uma nova geração de sistemas de travagem

Durante décadas, a legislação europeia concentrou-se quase exclusivamente nos gases de escape. Com a chegada da Euro 7, porém, os travões passam também a estar sob escrutínio. A nova regulamentação, que entra em vigor no final de 2026 para novos modelos homologados e em 2027 para todos os veículos matriculados, impõe limites inéditos às partículas finas geradas pela abrasão entre discos e pastilhas.

Os valores definidos por Bruxelas são particularmente exigentes: 3 mg/km para veículos elétricos e 7 mg/km para modelos com motor de combustão ou híbridos, aplicáveis a automóveis e comerciais ligeiros até 3,5 toneladas. Para os atuais sistemas de travagem em ferro fundido, cumprir estes números será extremamente difícil sem uma profunda mudança tecnológica.

Alemanha desenvolve alternativa ao ferro fundido

É neste contexto que surge o projeto “Ufo-Brems”, desenvolvido na Saxónia por um consórcio liderado pelo Fraunhofer IWU, pela Universidade Técnica de Chemnitz, pela ElringKlinger AG e pela ANDRITZ AWEBA GmbH, com financiamento do Ministério Federal da Economia da Alemanha.

A solução aposta num disco de travão em aço inoxidável nitrurado, produzido através de deformação plástica em vez do tradicional processo de fundição. Segundo os responsáveis do projeto, esta abordagem permite melhorar simultaneamente a resistência térmica, o comportamento tribológico e a durabilidade do componente.

A escolha do material foi tudo menos casual. Os engenheiros afastaram soluções como os discos carbocerâmicos — demasiado caros para produção em massa — e os revestimentos cerâmicos aplicados sobre ferro fundido, que ainda não estão maduros para industrialização em grande escala. Já os aços convencionais revelaram problemas de estabilidade estrutural em temperaturas superiores a 650 °C.

Menos desgaste e até 300 mil quilómetros de vida útil

Os resultados obtidos nos ensaios realizados na Universidade de Chemnitz mostram números particularmente expressivos. Combinado com uma pastilha de atrito inorgânico, o novo disco conseguiu reduzir o desgaste em mais de 85% face aos sistemas tradicionais compostos por disco de ferro fundido e pastilha orgânica.

A durabilidade prevista pode atingir os 300 mil quilómetros, aproximando-se da vida útil total de muitos automóveis modernos. Caso estes valores se confirmem em utilização real, os discos poderão tornar-se praticamente “vitalícios”, eliminando uma das operações de manutenção mais frequentes no automóvel.

Além disso, os engenheiros conseguiram reduzir o peso total do sistema em cerca de cinco quilogramas por veículo. Apesar de parecer um valor reduzido, a diminuição das massas não suspensas melhora o funcionamento da suspensão, a estabilidade e o conforto de condução, ao mesmo tempo que contribui marginalmente para baixar consumos e emissões.

Custo inicial mais elevado pode compensar

Embora o aço inoxidável implique um custo inicial superior ao do ferro fundido, os promotores do projeto defendem que a equação económica muda quando se considera todo o ciclo de vida do automóvel.

Em muitos casos, os discos convencionais necessitam de substituição antes dos 40 mil quilómetros, sobretudo em utilização urbana intensiva, condução desportiva ou ambientes sujeitos à corrosão provocada pelo sal. A isto junta-se o custo crescente da mão-de-obra nas oficinas.

Um sistema praticamente livre de manutenção poderá, por isso, compensar financeiramente ao longo dos anos, especialmente numa altura em que os construtores serão obrigados a encontrar soluções compatíveis com os limites da Euro 7.

Brembo também acelera desenvolvimento

A italiana Brembo já apresentou igualmente alternativas focadas na redução das partículas emitidas pelos travões.

No transporte público, a marca desenvolveu discos de baixo desgaste e pastilhas sem cobre no âmbito do projeto europeu RE-BREATH, alcançando uma redução de 10% nas emissões de PM10 e um aumento de 50% na durabilidade face ao equipamento convencional.

Para automóveis ligeiros, a empresa aposta no sistema GREENTELL, baseado num revestimento duplo sem níquel aplicado através de Laser Metal Deposition, capaz de reduzir o desgaste até 80% e as emissões de partículas até 90%, segundo dados divulgados pela própria fabricante.

Elétricos premium poderão estrear tecnologia

Apesar dos resultados promissores, o projeto Ufo-Brems continua ainda em fase avançada de prototipagem. A adoção em produção em série dependerá agora da estratégia dos grandes grupos automóveis e da capacidade de industrializar a tecnologia a custos competitivos.

Os primeiros modelos a receber estes sistemas deverão ser elétricos premium, segmento onde os construtores enfrentam maior pressão regulamentar e onde o impacto do custo adicional é mais fácil de absorver.

Se os testes em estrada confirmarem a durabilidade anunciada, os discos em aço inoxidável poderão transformar-se num novo padrão da indústria automóvel europeia. Uma mudança discreta, mas potencialmente revolucionária, impulsionada diretamente pela Euro 7.