O McLaren de Senna que fez história em Interlagos vai a leilão

Um dos carros mais icónicos da carreira de Ayrton Senna — o McLaren MP4/6-1 de 1991, com o qual o tricampeão brasileiro conquistou a sua primeira vitória no Grande Prémio do Brasil — será leiloado no próximo mês pela RM Sotheby’s.

O monolugar vai estar em exposição de 2-5 de dezembro na Abu Dhabi Collectors' Week, com valor estimado a ultrapassar os 10 milhões de euros. Um preço condizente com o seu papel num dos momentos mais marcantes da história da Fórmula 1 e da vida do piloto brasileiro.

Trata-se do mesmo chassis que Senna conduziu à vitória em Interlagos, a 24 de março de 1991, perante 70 mil adeptos e milhões de telespectadores em todo o mundo. Essa corrida — frequentemente descrita como uma das exibições mais heroicas da modalidade — consolidou o estatuto quase mítico do brasileiro. Apesar das falhas na caixa de velocidades nas últimas dez voltas, Senna manteve a liderança apenas com a sexta mudança funcional, resistindo à aproximação de Riccardo Patrese e Alain Prost para cruzar a meta 2,991 segundos à frente do segundo classificado.

Exausto, com cãibras nas pernas e nos braços, Senna teve de ser retirado do carro pela equipa médica e mal conseguiu erguer o troféu no pódio. “Só voltei à realidade quando vi a bandeira de xadrez”, recordaria mais tarde. “Senti-me bem por estar vivo, por estar em Interlagos, na minha terra, a ver o meu povo feliz. Não foi a maior vitória da minha vida, mas foi a mais disputada.”

A prova em Interlagos marcou um ponto de viragem: Senna completaria a temporada de 1991 como tricampeão mundial, vencendo o seu terceiro e último título de Pilotos e garantindo à McLaren o Campeonato de Construtores. O triunfo também simbolizou o fim de uma era — o MP4/6 foi o último carro campeão com motor V12 e caixa manual na Fórmula 1, um dos derradeiros representantes da era analógica do desporto.

Uma obra-prima da engenharia analógica

Desenhado por Neil Oatley sob a direção técnica de Gordon Murray, o McLaren MP4/6 era uma verdadeira joia de engenharia. Equipado com um motor Honda V12 de 3,5 litros, o monolugar debitava 725 cavalos de potência (chegando aos 780 cv nas últimas provas da temporada) e atingia 13.800 rpm. O chassis monocoque e a carroçaria em fibra de carbono representavam o auge da tecnologia da época — leve, rígido e afinado para a máxima eficiência aerodinâmica.

O modelo somou oito vitórias em Grandes Prémios e assegurou o duplo título de Pilotos e Construtores para a McLaren em 1991. Mais do que um carro vencedor, o MP4/6-1 tornou-se um símbolo de resiliência e perfeição técnica, unindo o génio de Senna à excelência da engenharia britânica e japonesa.

Preservado e pronto a correr

Após o final da temporada de 1991, o chassis MP4/6-1 foi retirado das competições e armazenado na sede da McLaren, em Woking, onde permaneceu durante quase três décadas. Em 2020, foi adquirido pelo atual proprietário privado e totalmente restaurado pelo programa McLaren Heritage, regressando à condição original de corrida. O veículo foi recentemente inspecionado e testado pela especialista britânica Paul Lanzante Ltd, empresa reconhecida pelo trabalho com modelos históricos da marca.

O carro mantém a pintura original vermelha e branca da Marlboro, tal como foi visto em Interlagos, e será vendido com Certificado de Autenticidade McLaren, bem como todo o equipamento técnico original: arranque externo, torre de água, painel remoto, primer de combustível e pré-aquecedor do motor.

Um pedaço vivo da história da Fórmula 1

Para colecionadores e entusiastas, o MP4/6-1 representa uma oportunidade única: possuir não apenas uma peça de engenharia lendária, mas o carro que protagonizou uma das vitórias mais emocionantes e simbólicas da Fórmula 1 moderna.

Mais do que um artefacto de competição, este McLaren é um elo direto com o legado de Ayrton Senna, cuja combinação de talento, determinação e espiritualidade o transformou num ícone intemporal do desporto mundial.

A RM Sotheby’s descreve o monolugar como “um dos exemplares mais significativos alguma vez oferecidos em leilão”, não apenas pelo seu valor técnico, mas pelo seu poder emocional — um testemunho de coragem, excelência e humanidade, gravado para sempre na memória de Interlagos e na história da Fórmula 1.