Bugatti diz que supercarros vão ser como relógios suíços

Mate Rimac acredita que os supercarros vão seguir o caminho dos relógios mecânicos suíços: enquanto os elétricos dominarão o mercado de massas, os modelos mais exclusivos continuarão a apostar em motores de combustão, artesanato, personalização e emoção

A eletrificação está a transformar profundamente a indústria automóvel, mas Mate Rimac acredita que os supercarros de topo vão escapar, pelo menos durante muitos anos, à tendência de abandonar os motores de combustão. O CEO da Bugatti considera que o mercado está a dividir-se em dois mundos e compara o futuro dos automóveis de luxo ao da relojoaria suíça.

Em declarações à CNBC, o responsável pela Bugatti e pelo Rimac Group defende que a grande maioria dos automóveis destinados ao mercado de massas será elétrica. Nos segmentos mais elevados, contudo, os clientes estarão cada vez mais interessados na mecânica, no trabalho artesanal e na exclusividade.

«Para carros normais, para pessoas normais, a grande maioria será elétrica», afirmou Rimac. «O segmento superior, como os carros desportivos e modelos superiores, vai continuar a usar motores de combustão durante muito tempo, exatamente como acontece com os relógios.»

A analogia com os relógios suíços

Rimac compara a evolução do automóvel à transformação da indústria relojoeira. Os relógios digitais e inteligentes oferecem muito mais funcionalidades do que os modelos mecânicos tradicionais e conquistaram a maioria do mercado.

Apesar disso, os relógios mecânicos suíços continuam a representar alguns dos produtos mais desejados e caros do setor. É precisamente esse posicionamento que Rimac pretende para a Bugatti.

O empresário salienta que apenas uma pequena parte dos relógios é produzida na Suíça, mas essa produção concentra uma parcela muito significativa dos lucros da indústria. «Um Apple Watch ou qualquer tipo de relógio inteligente pode fazer muito mais coisas. Mas ninguém pagará 200.000 dólares por isso», explicou.

A mesma lógica poderá aplicar-se aos supercarros. Quando a velocidade e a tecnologia deixam de ser exclusivas, a engenharia mecânica, o design, os materiais e a construção artesanal passam a assumir maior importância.

O V16 que contrariou todas as expectativas

A estratégia da Bugatti é particularmente significativa tendo em conta o percurso de Mate Rimac. O empresário croata construiu a sua reputação com automóveis elétricos de elevado desempenho e muitos esperavam que a aquisição do controlo da Bugatti conduzisse rapidamente ao primeiro modelo elétrico da marca.

O novo Tourbillon recorre a um V16 atmosférico de 8,3 litros, associado a três motores elétricos. O conjunto desenvolve 1.800 cv e representa uma das mais impressionantes combinações entre combustão e eletrificação atualmente disponíveis num automóvel de produção.

A Bugatti vai fabricar apenas 250 exemplares, todos já vendidos, com um preço inicial de aproximadamente 4,5 milhões de dólares. E esse valor é apenas o ponto de partida.

Segundo Rimac, o cliente típico acrescenta entre 600.000 e 700.000 dólares em opções de personalização, incluindo pinturas especiais, diferentes tipos de pele, acabamentos e outros elementos exclusivos.

Personalização vale cada vez mais

A individualização tornou-se uma das principais fontes de receita dos fabricantes de supercarros. Bugatti, Ferrari e Lamborghini têm desenvolvido programas de personalização cada vez mais sofisticados, permitindo aos clientes criar automóveis praticamente únicos.

É precisamente o crescimento desta área, que permite às marcas aumentar significativamente o valor de cada automóvel vendido.

A tendência vai ainda mais longe com a criação de modelos únicos ou produzidos em quantidades extremamente reduzidas. Durante a Monterey Car Week, a Bugatti apresentou o Destrier, uma interpretação exclusiva do Bolide destinada a um cliente privado.

Para Rimac, estes automóveis não são apenas meios de transporte.

«Estes clientes querem algo que seja realmente deles, que esteja ligado a eles», explicou. «Conta a sua história, a sua personalidade, as suas preferências, não é apenas um carro.»

Bugatti quer crescer, mas sem perder exclusividade

A estratégia da Bugatti passa por aumentar a produção, a qualidade e a rentabilidade, mas sem transformar os seus automóveis em produtos de grande volume.

Rimac garante que a produção permanecerá nos «números baixos de três dígitos». A limitação da oferta é fundamental para preservar o caráter exclusivo da marca e sustentar os preços elevados.

A empresa terá registado cerca de 200 milhões de euros de EBITDA no último ano, segundo o CEO, que pretende aumentar ainda mais a rentabilidade da Bugatti.

A estrutura acionista também está a mudar. A Porsche chegou a acordo para vender a sua participação de 45% na Bugatti Rimac a um consórcio global liderado pela HOF Capital, numa operação que reforça a nova fase estratégica da empresa.

Quando a velocidade deixa de ser suficiente

Para Rimac, o problema para os fabricantes de supercarros é que o desempenho está a democratizar-se rapidamente.

O CEO da Bugatti chama a atenção para a evolução dos fabricantes chineses, que já conseguem colocar no mercado automóveis elétricos com níveis de desempenho que, há poucos anos, estavam reservados aos supercarros mais caros.

«O desempenho está realmente a tornar-se secundário», afirmou.

É por isso que a Bugatti quer vender algo que não possa ser facilmente replicado através de mais potência ou de uma bateria maior.

Na era da inteligência artificial, da condução autónoma e dos veículos elétricos, Rimac considera que o fator humano será o principal elemento diferenciador.

Arte capaz de atingir 400 km/h

A visão da Bugatti passa por transformar o automóvel num objeto onde engenharia e arte coexistem. Rimac considera que um carro é provavelmente um dos objetos mais complexos que uma pessoa pode comprar.

Não basta ser bonito ou rápido. Tem de conseguir atingir velocidades extremas, gerar força descendente, cumprir os requisitos de segurança, resistir a testes de colisão e funcionar em condições climatéricas muito diferentes.

É precisamente essa combinação de engenharia, artesanato e emoção que poderá justificar preços multimilionários quando a velocidade deixar de ser uma exclusividade.

Para Rimac, o futuro do automóvel não será, portanto, exclusivamente elétrico nem exclusivamente de combustão. Será um mercado dividido: elétricos eficientes e acessíveis para a maioria e máquinas altamente exclusivas, mecânicas e personalizadas para quem procura algo mais próximo de uma obra de arte.