Stellantis aposta na tecnologia chinesa para travar crise elétrica

A Stellantis avalia reforçar a parceria com a chinesa Leapmotor para integrar tecnologia elétrica nos modelos europeus. A decisão surge num contexto de prejuízos elevados e recuos estratégicos na América do Norte, evidenciando a crescente dependência das marcas ocidentais da inovação chinesa nos elétricos

Durante décadas, fabricantes ocidentais recorreram a joint ventures na China para expandir a sua presença no maior mercado automóvel do mundo. Parcerias como General Motors com SAIC Motor, Ford Motor Company com Changan Automobile, ou Dongfeng Motor Corporation com Peugeot, tinham como objetivo levar o know-how europeu e norte-americano em motores de combustão para consumidores chineses.

Contudo, a ascensão dos veículos elétricos alterou profundamente este equilíbrio. Hoje, são os construtores ocidentais que procuram a tecnologia de ponta desenvolvida na China, especialmente ao nível das baterias, software e arquitetura elétrica.

Stellantis quer aprofundar laços com a Leapmotor

A Stellantis, grupo que detém 14 marcas — entre as quais Jeep, Ram Trucks, Dodge, Fiat, Opel e a própria Peugeot — está a analisar a possibilidade de expandir a cooperação com a chinesa Leapmotor.

Segundo informações divulgadas pela Bloomberg, a colaboração poderá passar pela utilização da tecnologia avançada de baterias e motores elétricos da Leapmotor em modelos de grande volume destinados ao mercado europeu.

O grupo já comercializa na Europa dois modelos da marca chinesa através da sua rede de concessionários: o T03, um citadino 100% elétrico, e o C10, um SUV familiar. Em 2023, a Stellantis adquiriu 20% da Leapmotor por cerca de 1,5 mil milhões de euros, reforçando a sua aposta estratégica na parceria.

Prejuízos elevam pressão sobre estratégia elétrica

A necessidade de fortalecer esta joint venture surge num momento particularmente delicado para o grupo automóvel. A Stellantis reportou recentemente um prejuízo líquido de 22,3 mil milhões de euros no segundo semestre do ano passado.

Grande parte deste resultado foi atribuída à revisão das ambições elétricas na América do Norte, motivada por alterações significativas nas políticas federais sob a administração de Donald Trump, que passaram a favorecer os veículos a gasolina em detrimento dos elétricos.

Como consequência, a empresa descontinuou todos os híbridos plug-in na região, incluindo versões como o Wrangler 4xe e o Cherokee 4xe da Jeep, bem como o Chrysler Pacifica Plug-In Hybrid. O projeto do Ram 1500 REV totalmente elétrico foi cancelado, dando lugar a uma versão com sistema de autonomia estendida e gerador a gasolina integrado. O grupo anunciou ainda o regresso do motor Hemi V8, conhecido pelo elevado consumo.

Tendência global: Europa recorre à inovação chinesa

A Stellantis não está isolada nesta estratégia. A Volkswagen estabeleceu uma parceria com a XPeng para integrar o software e a arquitetura elétrica chinesa em futuros modelos da marca Volkswagen destinados ao mercado chinês.

Este movimento confirma uma mudança estrutural no setor automóvel: a China deixou de ser apenas um mercado de destino e passou a ser um fornecedor-chave de tecnologia para a nova era da mobilidade elétrica.