SEAT garante emprego até 2030 apesar das dúvidas

A SEAT assegura um futuro sólido para a empresa e garante o emprego em Espanha até 2030, mas admite que a continuidade da marca depois dessa data continua em avaliação. A electrificação, os custos de desenvolvimento e a evolução da procura serão determinantes para a decisão do Grupo Volkswagen

A SEAT S.A. tem o futuro assegurado dentro do Grupo Volkswagen, mas o mesmo não pode ainda ser dito da marca SEAT. Esta é a principal conclusão das declarações de Matías Carnero, presidente do comité de empresa da construtora espanhola e membro do conselho de supervisão da Volkswagen, depois da aprovação do novo plano de reestruturação do grupo alemão.

Carnero afirma que os mais de 13 mil trabalhadores da SEAT têm o emprego garantido até 2030 e admite estar agora «mais tranquilo quanto ao futuro da empresa». A posição surge depois de notícias na imprensa alemã que apontavam para o desaparecimento da marca SEAT até ao final de 2029.

A Volkswagen e a própria SEAT vieram entretanto esclarecer que não foi tomada qualquer decisão sobre a continuidade da marca. Num comunicado divulgado sexta-feira, a empresa sublinha que vários cenários continuam em aberto para o período posterior a 2030.

Electrificação é o principal desafio

O problema reside sobretudo na necessidade de investir numa nova geração de modelos eléctricos. A SEAT reconhece que a combinação entre regulamentação de emissões cada vez mais exigente, custos da electrificação e investimento necessário para desenvolver novos automóveis torna mais difícil justificar novos investimentos na marca.

A situação contrasta com a evolução da Cupra, criada em 2018 como marca independente e actualmente considerada o principal motor de crescimento da SEAT S.A. A empresa espanhola já entregou mais de um milhão de veículos Cupra desde o lançamento da marca.

A Volkswagen insiste, contudo, que SEAT S.A. e a marca SEAT são duas realidades diferentes. A primeira continuará a desempenhar um papel industrial relevante dentro do grupo, reunindo as marcas SEAT e Cupra e assumindo responsabilidades crescentes na produção de veículos para outras marcas do conglomerado.

Martorell precisa de uma nova plataforma eléctrica

Para Matías Carnero, a prioridade passa agora por garantir uma nova plataforma eléctrica para Martorell. A fábrica catalã já está envolvida na industrialização da plataforma MEB21 e na produção da família de pequenos eléctricos do Grupo Volkswagen, mas os representantes dos trabalhadores defendem uma segunda plataforma que assegure a actividade da unidade a médio e longo prazo.

A própria SEAT confirmou que continuará a trabalhar para assegurar uma plataforma adicional para Martorell. A fábrica deverá assim manter um papel estratégico na transformação industrial do grupo, independentemente da decisão que venha a ser tomada sobre a marca SEAT.

As perspectivas imediatas são, aliás, relativamente positivas. Segundo Carnero, cerca de 750 trabalhadores temporários deverão passar para contratos permanentes em Martorell este ano, enquanto a unidade mantém uma produção anual na ordem dos 520 mil veículos.

Volkswagen corta mais 50 mil postos de trabalho

A discussão sobre a SEAT ocorre num momento de profunda transformação do Grupo Volkswagen. O conselho de supervisão aprovou por unanimidade o Future Plan 2030, que prevê um novo ajustamento da força de trabalho em cerca de 50 mil postos a nível mundial, incluindo funções de gestão.

Este corte soma-se aos cerca de 50 mil postos de trabalho que já estavam previstos nos programas anteriores, elevando para aproximadamente 100 mil o número potencial de empregos eliminados pelo grupo até ao final da década. O objectivo é reduzir custos, simplificar a estrutura e adaptar a capacidade industrial à procura.

O plano prevê também uma redução significativa da gama de modelos e uma concentração do investimento nos segmentos considerados mais rentáveis. O Grupo Volkswagen enfrenta, em particular, excesso de capacidade industrial na Europa, uma transição para o automóvel eléctrico mais lenta do que inicialmente previsto e uma concorrência crescente dos fabricantes chineses.

SEAT pode desaparecer, mas Martorell não

É precisamente esta distinção que está a ganhar importância no debate sobre o futuro da marca espanhola. A SEAT S.A. afirma ter um «futuro sólido» dentro do Grupo Volkswagen e pretende reforçar a sua posição industrial, com a Cupra como principal vector de crescimento.

Já a continuidade da marca SEAT permanece dependente da evolução da regulamentação, da procura dos clientes e das condições do mercado depois de 2030. A própria empresa admite que um desaparecimento gradual da marca é um dos cenários possíveis, mas garante que nenhuma decisão foi tomada.

Para já, a mensagem transmitida pelos trabalhadores é clara: a prioridade é garantir a actividade industrial e o emprego em Martorell. E, nesse aspecto, o futuro da SEAT S.A. parece consideravelmente mais seguro do que o da marca SEAT.