Gasolina e gasóleo já escasseiam na Austrália

Centenas de postos de combustível na Austrália estão sem gasóleo ou com falta de alguns tipos de gasolina, numa situação que pode agravar-se devido à guerra no Irão e ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Especialistas alertam para um choque energético maior do que as crises petrolíferas dos anos 70

A escassez de combustível já começou a sentir-se em várias regiões da Austrália, noticiou o site Jalopnik, com centenas de postos de abastecimento sem gasóleo ou sem pelo menos um tipo de gasolina. Apesar da situação, o governo australiano admite que episódios deste tipo podem tornar-se cada vez mais frequentes nos próximos meses.

Os números foram apresentados pelo ministro da Energia, Chris Bowen, ao Parlamento australiano a 23 de março. Segundo dados divulgados pela ABC, em Nova Gales do Sul 164 postos ficaram sem gasóleo e 289 ficaram sem pelo menos um tipo de gasolina, o que representa pouco mais de 12% dos cerca de 2.400 postos existentes naquele estado.

Em Victoria, 162 das 1.600 estações de serviço registaram falta de algum tipo de combustível. Em Queensland, 55 postos ficaram sem gasóleo e 35 sem pelo menos uma variedade de gasolina. A escassez também se fez sentir na Austrália do Sul, com 46 das 700 estações afetadas, e na Austrália Ocidental, onde seis das 770 registaram problemas semelhantes. Na Tasmânia, um posto ficou sem gasóleo e seis ficaram sem pelo menos um tipo de gasolina.

Cancelamento de navios petrolíferos agrava receios

Apesar de nenhum carregamento programado ter falhado até agora, Bowen confirmou que seis navios petroleiros previstos para abril foram cancelados. A situação estará relacionada com o encerramento efetivo do Estreito de Ormuz pelo Irão, uma das principais rotas energéticas do planeta, por onde normalmente circula cerca de 20% do petróleo mundial.

Grande parte desses carregamentos destinava-se ao sul da Ásia e à Austrália, que começam assim a sentir os primeiros efeitos diretos da perturbação no mercado energético global. O governo australiano conseguiu garantir fontes alternativas para algumas das entregas canceladas, mas não para todas.

Crise energética pode superar choques dos anos 70

Para Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), as consequências da atual crise podem ser mais graves do que as grandes crises petrolíferas da década de 1970.

Segundo o responsável, cada uma dessas crises retirou cerca de cinco milhões de barris de petróleo por dia ao mercado mundial. “Hoje perdemos cerca de 11 milhões de barris por dia, mais do que as duas grandes crises petrolíferas juntas”, afirmou.

A perturbação também se estende ao mercado do gás. Após a invasão russa da Ucrânia, o mundo perdeu cerca de 75 mil milhões de metros cúbicos de gás. Na crise atual, a redução já atinge cerca de 140 mil milhões de metros cúbicos, quase o dobro.

Birol descreve o momento atual como uma combinação de várias crises energéticas simultâneas, com impacto potencial significativo nas economias mundiais.

Governo aconselha redução do consumo

Face ao cenário, a Agência Internacional de Energia recomendou que os australianos adotem medidas para reduzir o consumo de combustível, como trabalhar a partir de casa, utilizar mais transportes públicos ou reduzir a velocidade nas estradas.

O governo australiano, contudo, não tornou obrigatória nenhuma destas medidas. A decisão prende-se em parte com a memória recente da forte contestação pública às restrições de mobilidade durante a pandemia de COVID-19.

Além disso, muitas destas soluções são difíceis de aplicar fora dos grandes centros urbanos, onde o acesso a transportes públicos é limitado.

Impacto global já se reflete nos preços

Embora a escassez ainda não tenha atingido diretamente os Estados Unidos ou a Europa, os efeitos da crise energética já começam a refletir-se no aumento dos preços do combustível, devido à interligação da economia global.

A atual instabilidade no mercado petrolífero poderá manter os preços elevados durante um período prolongado, afetando consumidores e empresas em todo o mundo.

Carros elétricos podem acelerar mudança no setor automóvel

A crise energética surge num momento em que os veículos elétricos estão a ganhar terreno no mercado automóvel. Na União Europeia, estes modelos representaram 18,8% das vendas nos primeiros dois meses de 2026, segundo dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), enquanto o mercado automóvel global registou uma ligeira contração.

Em Portugal, a tendência é semelhante. Nos primeiros dois meses do ano foram matriculados 9.073 automóveis totalmente elétricos, mais 25,8% do que no mesmo período de 2025. Só em fevereiro foram vendidos 4.732 ligeiros de passageiros elétricos, um aumento de 19,9% face ao mesmo mês do ano anterior.

Fatih Birol considera que esta transição poderá acelerar como resposta à crise energética. Há apenas cinco anos, os carros elétricos representavam cerca de 5% das vendas globais. Em 2025, já correspondiam a cerca de um quarto dos automóveis vendidos no mundo.

Segundo o responsável da AIE, a resposta política à crise poderá repetir algumas estratégias adotadas após os choques petrolíferos dos anos 70, como a melhoria da eficiência energética, mas com uma diferença significativa: desta vez, a eletrificação do transporte deverá desempenhar um papel central.

“Veremos uma grande transformação do setor automóvel”, afirmou.