Audi ressuscita o Lucca, o monstro V16 que fez história

A Audi Tradition revelou o Lucca, uma recriação única do lendário protótipo de velocidade da Auto Union dos anos 30. Equipado com um motor V16 sobrealimentado de 6,0 litros e 520 cv, este modelo histórico renasce quase um século depois para homenagear um dos automóveis mais rápidos da era pré-guerra

O novo Lucca não é um concept futurista nem um exercício de design destinado à produção em série. Trata-se antes de uma recriação fiel — embora modernizada — de um dos automóveis mais extremos da história da Auto Union, antecessora da Audi. Desenvolvido pela Audi Tradition em colaboração com os especialistas britânicos da Crosthwaite & Gardiner, o projeto consumiu três anos de trabalho artesanal e um investimento milionário.

À semelhança do Type 52 apresentado em 2024, também este Lucca nasceu da obsessão em preservar a herança técnica e desportiva da marca de Ingolstadt. O resultado é uma peça única, movida por um impressionante motor V16 sobrealimentado de 6,0 litros alimentado a metanol, capaz de debitar 520 cv e produzir labaredas através do escape.

A origem do nome “Lucca”

AUDI AG
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O nome escolhido remete para um dos episódios mais marcantes da história da Auto Union. Em fevereiro de 1935, a marca alemã procurava bater recordes de velocidade em estrada aberta com uma versão aerodinâmica derivada dos seus monolugares de Grande Prémio.

Inicialmente planeados para a Hungria, os testes acabaram transferidos para Itália devido às más condições meteorológicas. A Auto Union escolheu então um troço de estrada na Toscana, entre Florença e Viareggio, perto da cidade renascentista de Lucca.

Foi precisamente aí que Hans Stuck, uma das maiores figuras do automobilismo alemão da época, atingiu 326,975 km/h ao volante do original Auto Union Type C Streamliner equipado com motor V16. Na altura, tratava-se da velocidade mais elevada alguma vez alcançada numa estrada pública.

Mais potência e detalhe artesanal

Enquanto o modelo original utilizava um bloco V16 de 5,0 litros com cerca de 343 cv, esta recriação beneficia de uma evolução mecânica baseada numa especificação posterior de 6,0 litros. O aumento de potência para 520 cv transforma o Lucca numa máquina ainda mais impressionante.

O nível de detalhe também impressiona. A carroçaria foi moldada manualmente em alumínio, recorrendo a técnicas tradicionais de fabrico, enquanto a pintura “Cellulose Silver” procura reproduzir o tom original dos anos 30 utilizando materiais modernos menos nocivos.

No habitáculo minimalista destaca-se a caixa manual com grelha aberta e acabamento polido, um elemento típico dos automóveis de competição da época. Já o velocímetro mantém-se fiel ao original e termina nos 300 km/h — curiosamente abaixo da velocidade que o automóvel atingiu em 1935.

AUDI AG
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Um automóvel histórico demasiado perigoso para recordes

Apesar de plenamente funcional, a Audi garante que o Lucca será utilizado apenas em demonstrações ocasionais. Não existem planos para novas tentativas de velocidade máxima, tanto pelo valor incalculável da máquina como pelas limitações de segurança inerentes ao projeto original: ausência de cintos de segurança, proteção estrutural praticamente inexistente e aerodinâmica ainda envolta em mistério.

Um dos maiores enigmas prende-se precisamente com o sistema de fixação da cobertura aerodinâmica traseira. Os desenhos técnicos perderam-se ao longo das décadas e a Audi admite não saber exatamente como a Auto Union garantia a estabilidade da estrutura a velocidades superiores a 300 km/h.

Quase 90 anos depois, o Lucca regressa não apenas como uma homenagem ao passado, mas também como um testemunho da ousadia técnica da era dourada das corridas pré-guerra.