Tesla Model 3 supera 700.000 km com a bateria original

Um Tesla Model 3 ultrapassou os 700.000 quilómetros mantendo a bateria de origem, num caso que o Auto Plus destaca. Mais do que um recorde, a história mostra como a gestão térmica, os hábitos de carregamento e a utilização influenciam a degradação das baterias durante muitos anos

Há números que obrigam a repensar algumas ideias feitas sobre os automóveis elétricos. Um Tesla Model 3 ultrapassou os 700.000 quilómetros mantendo a bateria de tração original, num caso destacado pelo site francês Auto Plus. O mais relevante, contudo, não é apenas a quilometragem, mas o facto de o automóvel continuar a ser utilizado regularmente.

O Auto Plus coloca este exemplo no contexto da evolução da durabilidade das baterias de iões de lítio. Afinal, quando um veículo elétrico percorre centenas de milhares de quilómetros, deixa de estar em causa apenas a capacidade da bateria para armazenar energia: passa também a ser avaliada a qualidade da engenharia, da gestão térmica e do sistema de controlo eletrónico.

A experiência é particularmente interessante porque o automóvel continua a desempenhar funções semelhantes às de qualquer outro veículo de utilização diária. Carrega, faz viagens e mantém uma autonomia suficiente para a utilização habitual, apesar da inevitável perda de capacidade.

A bateria degrada-se, mas não desaparece de um dia para o outro

Um dos principais receios associados aos veículos elétricos usados continua a ser a degradação da bateria. No entanto, os dados disponíveis apontam para um processo progressivo, e não para uma perda súbita de capacidade.

A análise mais recente da Geotab, realizada com dados de mais de 22.700 veículos elétricos de 21 marcas e modelos, aponta para uma degradação média de 2,3% por ano. O mesmo estudo estima que uma bateria média conserve cerca de 81,6% da capacidade original ao fim de oito anos. A Geotab salienta ainda que a potência de carregamento, a temperatura e o tempo passado com estados de carga muito elevados ou muito baixos influenciam o envelhecimento.

Isto significa que a autonomia diminui com o passar dos anos, mas não necessariamente ao ritmo que muitos condutores receiam. Além disso, a degradação não é perfeitamente linear: é habitual existir uma perda inicial mais pronunciada, seguida de uma estabilização.

Outros Model 3 mostram resultados semelhantes

O caso referido pelo Auto Plus não é completamente isolado. Um Tesla Model 3 Standard Range Plus de 2019 acompanhado pelo canal Drive Protected já ultrapassou os 600.000 quilómetros com a bateria original. Segundo os dados divulgados, a autonomia máxima terá diminuído de aproximadamente 390 para 254 quilómetros, correspondendo a um State of Health (SoH) estimado em cerca de 66%.

Outro exemplo é um Model 3 Long Range Dual Motor de 2019 que atingiu cerca de 694.000 quilómetros com a bateria original. Neste caso, medições apontaram para um SoH entre 68% e 71%, enquanto a autonomia terá passado de aproximadamente 450 quilómetros para um intervalo entre 350 e 380 quilómetros.

Estes números mostram uma realidade importante: quilometragem e estado da bateria não são exatamente a mesma coisa. Dois automóveis com o mesmo número no conta-quilómetros podem apresentar estados de saúde bastante diferentes, dependendo da utilização, do clima, dos ciclos de carga e da potência a que foram sujeitos.

Carregamento rápido não é necessariamente o inimigo

Os hábitos de carregamento são uma das variáveis mais importantes. Segundo a Geotab, os veículos submetidos regularmente a carregamentos rápidos de corrente contínua acima de 100 kW podem apresentar taxas de degradação superiores às dos automóveis que utilizam predominantemente potências de carregamento mais baixas. Na análise de 2026, a diferença pode chegar a cerca do dobro em determinadas condições.

Isto não significa que seja necessário evitar os carregadores rápidos. A recomendação mais sensata é utilizá-los quando são necessários, sobretudo em viagens longas, e recorrer preferencialmente ao carregamento em corrente alternada durante a utilização quotidiana.

Também é aconselhável evitar manter durante longos períodos a bateria completamente carregada ou quase descarregada, sobretudo em temperaturas elevadas. O sistema de gestão da bateria (BMS) e o circuito de arrefecimento líquido desempenham aqui um papel fundamental ao manter as células dentro de uma janela de funcionamento adequada.

O que significa isto para um Tesla usado?

A longevidade destes Model 3 pode ter consequências importantes no mercado de usados. Para um comprador, o número de quilómetros continua a ser relevante, mas já não deve ser o único indicador.

O Auto Plus tem destacado precisamente a importância de avaliar a saúde da bateria. Um diagnóstico do SoH, o histórico de carregamentos, a autonomia efetivamente disponível e a evolução dos consumos podem fornecer uma imagem muito mais precisa do estado do automóvel.

Esta abordagem é particularmente importante nos veículos elétricos de elevada quilometragem. Uma bateria com 85% ou 90% da capacidade original pode continuar perfeitamente adequada à utilização diária, enquanto uma unidade com quilometragem semelhante, mas significativamente mais degradada, pode exigir uma análise muito mais cuidadosa.

Custos de manutenção também entram na equação

Há ainda outro fator que ajuda a explicar a relevância destes exemplos: a simplicidade mecânica dos veículos elétricos.

Ao contrário de um automóvel com motor de combustão, um Model 3 não necessita de óleo de motor, filtro de óleo, embraiagem ou correia de distribuição. A travagem regenerativa reduz igualmente o recurso aos travões mecânicos, embora pneus, suspensão, travões, componentes de direção e outros elementos continuem sujeitos ao desgaste normal.

No caso de um Model 3 Long Range que atingiu cerca de 694.000 quilómetros, os custos de manutenção referidos rondavam os 7.500 euros, sem contabilizar pneus. Isso corresponde a pouco mais de um cêntimo por quilómetro, embora este valor não inclua eletricidade nem possa ser generalizado para todos os Model 3.

A Universidade de Birmingham também encontrou sinais encorajadores para a longevidade dos elétricos. Um estudo baseado em quase 300 milhões de registos de inspeções técnicas britânicas concluiu que os veículos elétricos mais recentes atingem uma longevidade média estimada de 18,4 anos e cerca de 200.000 quilómetros, aproximando-se ou ultrapassando a duração de vida de veículos com motores de combustão.

700.000 km não são uma garantia para todos

Apesar de impressionante, este Tesla Model 3 não deve ser encarado como prova de que todas as baterias conseguirão atingir 700.000 quilómetros sem substituição. Trata-se de um caso extremo e, como tal, não pode substituir estudos estatísticos realizados com milhares de veículos.

A principal conclusão é outra: uma bateria de um automóvel elétrico moderno pode sobreviver durante muito mais tempo do que muitos compradores inicialmente imaginam. A degradação é real e reduz a autonomia, mas não significa necessariamente o fim prematuro do veículo.

Por isso, para quem procura um elétrico usado, o conselho é simples: olhar para além do conta-quilómetros. Num Model 3 com muitos quilómetros, um diagnóstico credível da bateria pode ser mais importante do que a própria quilometragem. E, como demonstra este caso acompanhado pelo Auto Plus, 700.000 quilómetros podem ser apenas mais um número quando a engenharia, a gestão térmica e a utilização trabalham em conjunto.