Smart #2: O regresso de um ícone

Num mercado dominado pelos SUV, a Smart aposta num caminho diferente. O novo #2 recupera o conceito do Fortwo e prova que, na mobilidade urbana, a inteligência não se mede pelo tamanho

A Smart revelou no Salão Automóvel de Paris, aquele que poderá ser o modelo mais importante da sua história recente. O novo #2 representa muito mais do que a entrada de mais um elétrico no segmento urbano, cada vez mais dominado pelos SUV compactos. É o regresso às origens da marca e à filosofia que fez do Fortwo um dos automóveis mais emblemáticos da mobilidade urbana moderna.

 

Quase três décadas após a estreia do pequeno citadino de dois lugares, a Smart recupera a fórmula que a distinguiu no mercado e adapta-a à era da eletrificação. Com chegada prevista para o próximo verão, o novo modelo estará disponível em quatro versões — Pure, Pure+, Premium e Culture Edition —, com preços a partir de 19.990 euros, já com IVA. As pré-encomendas já estão abertas, enquanto a versão Premium, que deverá concentrar a maior procura, terá um preço de 24.490 euros.

 

De volta à cidade

Durante anos, o Fortwo foi encarado como uma excentricidade num setor habituado a medir sucesso em centímetros. Enquanto a indústria crescia geração após geração, a Smart insistia em fazer precisamente o contrário. O conceito parecia simples: criar um automóvel exclusivamente orientado para a cidade, capaz de ocupar metade do espaço de muitos concorrentes e de responder aos desafios de mobilidade que já começavam a ser evidentes nos grandes centros urbanos. A aposta revelou-se acertada.

O Fortwo tornou-se um fenómeno de nicho, conquistou um público fiel e construiu uma identidade própria. A evolução do mercado, contudo, empurrou a marca para outras direções. Os recentes #1 e #3 demonstraram que a Smart era capaz de competir no segmento dos SUV elétricos compactos, mas também levantaram uma questão inevitável, continuava a existir espaço para um verdadeiro sucessor do Fortwo? A resposta surge agora sob a forma do novo #2. Mais do que um exercício de nostalgia, trata-se de uma tentativa de reinterpretar um conceito que continua surpreendentemente atual.

A verdade é que os problemas que motivaram o aparecimento do Fortwo continuam presentes. O congestionamento urbano não desapareceu. O estacionamento continua a ser um dos maiores desafios das grandes cidades. Os custos de utilização ganharam ainda maior relevância e a procura por soluções de mobilidade eficientes permanece uma prioridade. Neste contexto, a Smart decidiu regressar às bases da sua identidade e desenvolver um modelo concebido especificamente para responder a essas necessidades.

A força da Tridion

O novo #2 assenta na inédita Electric Compact Architecture (ECA), uma plataforma desenvolvida especificamente para um automóvel urbano elétrico. Ao contrário de muitas soluções adaptadas de veículos maiores, esta arquitetura foi pensada desde o primeiro esboço para maximizar a utilização do espaço disponível dentro de uma carroçaria com menos de três metros de comprimento. A presença da bateria sob o piso e a integração dos principais componentes mecânicos permitiram criar um habitáculo surpreendentemente amplo para dois ocupantes, mantendo ao mesmo tempo uma pegada urbana extremamente reduzida. A engenharia desempenha um papel central neste projeto. A Smart procura demonstrar que um automóvel compacto não tem necessariamente de representar um compromisso técnico.

Um dos exemplos mais evidentes desta filosofia é a adoção da nova Tridion Cell Evo, sucessora direta da célula de segurança que se tornou uma das imagens de marca do Fortwo. Segundo a Smart, mais de 78% da estrutura da carroçaria utiliza aço de alta resistência, complementado por componentes com resistência à tração até 1.800 MPa. A rigidez torsional anunciada atinge 39.000 Nm/grau e a estrutura foi concebida para suportar cargas superiores a quatro toneladas sobre o tejadilho. São números impressionantes num automóvel deste formato e que reforçam a importância atribuída à segurança passiva.

A vantagem da tração traseira

Essa preocupação estende-se à proteção dos ocupantes. O #2 integra sete airbags, sistemas avançados de retenção e uma estrutura multicamada destinada a proteger a bateria em caso de colisão. A Smart pretende assim contrariar uma perceção que acompanhou muitos citadinos ao longo das últimas décadas: a ideia de que um automóvel pequeno oferece necessariamente menores níveis de proteção. Mas o novo modelo não vive apenas da segurança. A marca dedicou igualmente uma atenção considerável ao comportamento dinâmico. O #2 adota uma configuração de tração traseira, apresenta uma distribuição de peso de 50:50 entre os eixos e recorre a uma suspensão traseira independente de cinco braços, uma solução que a Smart afirma ser única no segmento.

O objetivo passa por oferecer uma experiência de condução mais refinada sem comprometer a agilidade que sempre caracterizou os seus modelos urbanos.  Essa agilidade continua a ser um dos principais argumentos do modelo. O diâmetro de viragem de apenas 6,95 metros promete devolver ao #2 uma das qualidades mais valorizadas do antigo Fortwo. Em cidades onde cada metro conta, a capacidade de realizar manobras apertadas continua a ser uma vantagem real e não apenas um argumento de marketing.

A lógica da eletrificação

No capítulo da propulsão elétrica, a Smart optou por uma abordagem pragmática. A bateria CATL de 35,8 kWh do tipo LFP não impressiona pelos números absolutos, sobretudo numa época em que muitos fabricantes procuram ultrapassar a barreira dos 500 ou 600 quilómetros de autonomia. No entanto, a escolha parece coerente com a missão do veículo. A autonomia combinada estimada de 290 quilómetros em ciclo WLTP deverá ser suficiente para a esmagadora maioria das deslocações urbanas e suburbanas, permitindo simultaneamente limitar peso, custo e consumo de recursos.  A arquitetura elétrica integra ainda um sistema de propulsão altamente compacto do tipo 11-em-1, que reúne motor elétrico de 82 cv (60 KW), eletrónica de potência e diversos sistemas de controlo numa única unidade.

Esta solução contribui para reduzir a complexidade técnica e otimizar o espaço disponível, um fator particularmente importante num veículo com dimensões tão reduzidas. Do ponto de vista prático, a possibilidade de efetuar carregamentos rápidos dos 10 aos 80% em aproximadamente 20 minutos surge como um dos argumentos mais relevantes (em AC o tempo varia entre as 3 e as 5 horas). Para a maioria dos utilizadores, a rapidez de recuperação da autonomia será provavelmente mais importante do que a dimensão da bateria ou os valores recordistas normalmente associados a modelos de segmentos superiores.

Uma aposta contra a corrente

O design procura igualmente manter uma ligação clara ao património da marca. Desenvolvido pela equipa global da Mercedes-Benz, preserva a clássica configuração "wheels-at-the-corners", com rodas posicionadas junto aos extremos da carroçaria e balanços extremamente reduzidos. A solução continua a cumprir uma função prática ao maximizar o espaço interior, mas desempenha também um papel importante na identidade visual do modelo. Basta um olhar para reconhecer a ligação conceptual ao Fortwo. O lançamento prevista  o próximo ano (razão por que ainda não se conhecem preços) do Smart #2 representa, no fundo, uma tomada de posição num mercado que parece cada vez mais homogéneo. Enquanto muitos fabricantes convergem para soluções semelhantes, a Smart decide recuperar um conceito altamente especializado.

A estratégia não está isenta de riscos, num mercado que privilegia cada vez mais veículos versáteis, espaçosos e capazes de responder a diferentes necessidades. Ainda assim, a proposta da Smart assenta numa lógica difícil de ignorar: quase três décadas depois da estreia do Fortwo, as cidades continuam a enfrentar os mesmos desafios de mobilidade, estacionamento e congestionamento que estiveram na origem daquele conceito.

 

Resta saber se o #2 conseguirá reproduzir o impacto do seu antecessor, algo que só o mercado poderá determinar. Para já, é evidente que a Smart não pretende entrar numa corrida às maiores autonomias, às baterias de maior capacidade ou aos SUV da moda. A estratégia passa por apostar na especialização, com um automóvel concebido para responder de forma particularmente eficaz às exigências da mobilidade urbana. Num setor cada vez mais uniforme, essa identidade própria poderá ser uma das suas maiores vantagens.