Viagem às nossas raízes – Andaluzia

Texto: Júlio Santos

Encostada a Portugal, porta de boas-vindas aos que chegam de África, a Andaluzia é a segunda maior região espanhola. Mas é, seguramente, aquela que nos presenteia com uma diversidade cultural mais impressionante, ou não tivessem permanecido aqui todos os principais povos que colonizaram a península. Vale a pena conhecer as nossas raízes.

Se programasse uma visita à Suiça, à Belgica ou à Holanda, por exemplo, quantos dias reservaria para cada um destes países? Cinco? Seis? Uma semana? Pois bem, e se, praia à parte, pensasse em conhecer a Andaluzia? Dois? Três? O desconhecimento tem destas coisas. A Andaluzia, paredes meias com o nosso Algarve, é a segunda maior região espanhola, ocupando uma área superior a 87 mil quilómetros quadrados, ou seja, uma dimensão muito superior à de qualquer um dos países mencionados. Mas, ainda mais a diversidade cultural que alberga, a par do contraste das paisagens, fazem da Andaluzia uns dos destinos mais surpreendentes na Europa.

Campo, cidade, praia e montanha – a Andaluzia oferece-nos tudo. E parte desse “tudo” está, aliás, bem expresso num dos principais folhetos de apresentação desta magnífica região que, afinal, ocupa quase 20% do território espanhol: esquie de manhã em Sierra Nevada e (a menos de 150 quilómetros), duas horas depois deleite-se nas águas tépidas de Torremolinos.

A vastidão e diversidade da Andaluzia (de AlAndaluz, termo usado pelos muçulmanos para designar a Península Ibérica, no Séc. VIII) não é, pois, passível de ser abarcada num artigo e, ainda menos, numa só viagem. Aliás, já aqui dedicámos um roteiro especial à magnífica região de Sierra Nevada, Granada (Alhambra) e Sevilha, pelo que desta vez “vamos” estender-nos ao sol, num qualquer recanto, ao acaso, nos 900 quilómetros de costa. Certo, apenas, é que vamos excluir a confusão de Torremolinos, Marbella ou Puerto Banus que, nos anos 80 cumpriram exemplarmente a missão de projetar a região fora de portas mas que hoje estão, talvez, “tomados” por uma confusão/desorganização de que prescindimos sem hesitar.

A “nossa” Andaluzia preferida está, afinal, mais “encostada” a Portugal mas tem tanto para dar que seria enganador (ultrajante!) tentar passar a ideia de que se trata de uma viagem ideal para um fim-de-semana, mesmo que prolongado. Deixando o Algarve por Vila real de Santo António tome, então a direção de Sevilha, pela E-1/A49. Meia hora depois (40 quilómetros) chega a Huelva. Aproveite para tomar um café mas não são muitos os motivos para uma paragem mais detalhada. Siga pela A442, direção a Matalascanhas, percorrendo a estrada (45 quilómetros) que une as praias da Costa da Luz até chegar a Matalascanhas, a melhor de todas elas. À parte de um extenso areal, o trajeto não tem “história” e abundam mesmo os locais de onde o melhor é, mesmo, fugir, tal a desordem e a falta de qualidade.

Pode, por isso dizer-se, que o grande motivo de interesse é o parque de Donhana (Doñana) um dos 22 parques naturais da Andaluzia: mais de 3000 quilómetros quadrados de vegetação, pântanos e sapais que alojam uma diversidade de aves difícil de encontrar noutro local (e que, por isso mesmo, merece a classificação de Património da Humanidade, por parte da Unesco). Espere pelo final da tarde num dos muitos abrigos existentes; não se esqueça de levar os binóculos e sinta a magia do silêncio que, sem darmos por isso, vai cedendo o lugar à incrível “música” dos milhares de garças, flamingos e outras aves (são mais de 360 espécies catalogadas) que recolhem à proteção do habitat. Se quer mostrar aos seus filhos algo de que eles dificilmente se esquecerão… é aqui!

Na manhã seguinte siga pela estrada A483, na direção de Sevilha e daí para Cadiz, pela A4. Cerca de 125 quilómetros depois alcança aquela que é a cidade habitada mais antiga da Europa Ocidental. Mesmo que a capital da província seja Jerez de La Frontera (já lá vamos) Cadiz é a cidade mais importante; devido à proximidade com África, mas, sobretudo, porque o seu porto teve para os espanhóis a mesma relevância de Sagres para os portugueses: foi daqui que partiram os marinheiros espanhóis para as descobertas nos séculos 16 e 17. A cidade é, aliás, uma mescla muito interessante de culturas, algo de que nos apercebemos quando visitamos as muralhas de Puerta Tierra que dividem a cidade nova e a antiga; o porto desportivo e os edifícios modernos, da vila medieval composta pelos bairros de La Viña e El Pópulo. Mas o que vale mesmo a pena é perder-se nas ruelas de onde espeitam belas tasquinhas, tomando, sempre, como ponto de referência, a lindíssima catedral.

Prepare-se para ficar pelo menos um par de dias por estas paragens, pois este é o ponto ideal para explorar toda uma região que nos reserva grandes surpresas e, á noite, no regresso, jante (muito bem) num dos magníficos restaurantes onde o Flamengo está sempre presente. Partindo para oeste, alcançará Sanlucar de Barrameda, na Foz do rio Gudalquivir, uma vila animada (e desorganizada), que é, também, outro dos pontos de partida possíveis para visitar o parque de Doñana. A menos de nove quilómetros, ainda mais para ocidente, fica Chipiona: uma magnifica extensão de areal e, sobretudo, um passeio marítimo animado com cafés e bons restaurante. Rumando a sul, encontrará Rota, uma dúzia de quilómetros depois, outra praia para fotografias de final de dia, antes de estacionar o carro em Puerto de Santa Maria. Dê um pequeno passeio a pé, à beira mar, antes de eleger o restaurante para o jantar. De marisco, claro, que pode começar a provar adquirindo um cartuxo de gambas fritas que custa quase o mesmo que uma dúzia das nossas castanhas, lá para Novembro.

Reserve o dia seguinte para conhecer a região mais interior, em especial Jerez de la Frontera (o circuito de competição está mesmo à beira da autoestrada), capital da província devido à importância comercial que tem desde há décadas. Ao redor estão estabelecidos alguns dos maiores produtores do famoso Xerez (Jerez), que os ingleses glorificaram, bem como muitos dos criadores daqueles que são tidos como os melhores cavalos de toda a Espanha. A visita à Bodega D. Pepe e à Real Escuela Andaluza del Arte Escuestre é, por todas as razões, muito mais interessante do que a descoberta da cidade por onde não faltam, aliás evocações daqueles que são os seus principais ex-libris.

Deixando aquela que foi, na primeira metade do século XIX, a capital mundial do vinho, pode aproveitar o resto do dia para visitar “pueblos” de casario branco, como Arcos de la Frontera (a 20 quilómetros, pela A382) ou deixar a vista perder-se na imensidão das vinhas e plantação de arvores de fruto ao rumar mais a sul, pela A389, até Chiclana de la Frontera e daí para Sanct Petri, uma excelente estância de veraneio que aos magníficos hotéis adiciona diversos campos de golfe e magníficas praias que nos proporcionam aquele que é tido como um dos mais belos por do sol de toda a Espanha. Se seguir esta sugestão, brinde, então, ao pôr-do-sol em Torre del Puerco.

E decida se é ou não o mais belo.

 

ICONE… MUNDIAL

Para os que seguem as recomendações deste roteiro não hesitamos dizer que o ponto alto desta viagem é a visita à adega Gonzales Byass, em Jerez de la Frontera. A cidade deve, aliás, tudo à produção vinícola (durante décadas foi a região vínica mais importante do Mundo) e em especial a um rótulo: Tio Pepe. Aquele que é hoje o produto espanhol vendido em mais países do Mundo (115) tem as suas origens no longínquo ano de 1835 quando D. Manuel Maria Gonzalez Angel decide investir todas as suas poupanças no negócio do vinho, associando-se ao distribuidor inglês Robert Blake Byass (daí a designação da empresa que ainda hoje é mantida, embora apenas os herdeiros de Gonzalez Angel se mantenham no negócio que, aliás, nunca deixou as mãos da família). Enquanto o inglês tinha algumas ligações ao mundo vinícola, distribuindo algumas marcas de vinho do Porto no Reino Unido, para Gonzalez Angel tudo era novo. Mas de uma coisa tinha a certeza: teria que se rodear dos melhores e, para a produção do seu primeiro vinho (uma variedade de vinho fino seco) socorreu-se dos conhecimentos e dedicação de um tio. O êxito foi enorme e aí reside a origem do nome da marca mais conhecida que ainda hoje se mantém: Tio Pepe. O resto… o resto é um volume anual de negócios superior a 300 milhões de euros e uma estrutura, em Jerez de la Frontera, cuja visita é mesmo imperdível. Para marcação de visitas e saber mais: www.bodegastiopepe.com

 

BIODIVERSIDADE

Estendendo-se por mais de 50 mil hectares, o Parque Nacional Doñana (Donhana) é a maior reserva ecológica da Europa, tendo sido declarada pela Unesco Património da Humanidade. Com um ecossistema diversificado, que inclui zonas de pântanos ou areia, vegetação rasteira ou de grande porte, o parque é o habitat perfeito para mais de 500 000 aves (360 espécies diferentes, da águia imperial à cegonha, do falcão ao flamingo) que ali se refugiam na sua rota migratória entre África e a Europa. Além de uma diversidade impar de aves, no Parque podem encontrar-se nada menos do que 21 espécies diferentes de repteis, 20 espécies de peixes de água doce e 37 diferentes mamíferos, com destaque para o lince ibérico (espécie rara em vias de extinção), cavalo, lobo ou javali. A partir de Sevilha ou de Matalascanhas, existem diversas indicações para os diferentes acessos. É recomendável a realização de uma excursão com guias especializados, para o que deve consultar, entre outros, o site www.donanavisitas.es

 

PORQUE SIM E PORQUE NÃO – Porsche Panamera

Viver com o Porsche Panamera durante mais de mil quilómetros dá-nos perspetiva de um carro extraordinârio. Aprendemos muitas coisas que julgamos importante partilhar.

5 RAZÕES PARA TER UM PANAMERA

  • 1 Sim, é grande. Para levar quatro pessoas com pleno conforto, mais a bagagem. Pode usá-lo todos os dias sem que (ao contrário de outros Porsche) o Panamera esteja sempre a desafiá-lo, qual potro em fase de afirmação de personalidade
  • 2 É um Porsche. Mas é mesmo um Porsche. Anda que se farta e apesar do peso tem o comportamento de um desportivo (não de um 911, claro).
  • 3 Ao fim de 800 km acreditamos que fizemos essa tirada num Mercedes S. Só que mais depressa…
  • 4 Depois de tudo, se não abusar da “sorte” (se rolar na margem de tolerância normalmente utilizada pela polícia) acredita que o computador de bordo averba uma média inferior a 7,3 litros aos 100 km?! Ah, tem 300 CV. Mesmo!
  • 5 Faz bem ao ego. Há lá coisa mais enternecedora do que vermos a cara de um condutor de um Punto Van ou mesmo de uma Transit passar por nós com aquele ar “então isso não anda mais? Ou não tens mãozinhas?…”

5 RAZÕES PARA NÃO TER UM PANAMERA

  • 1 É tão fácil de guiar que a sua mulher vai querer que seja você a levar o BMW…
  • 2 Causa habituação: depois de o conduzir vai perceber que os outros são apenas automóveis. E nunca mais vai querer comprar outra “coisa” que não um Panamera
  • 3 Anda que se farta. Uma distração e… você não sabe se o polícia estava a olhar por inveja ou por qualquer outra razão…
  • 4 Nunca vai passar despercebido. Nunca mesmo! Já andámos com muitos automóveis (911, Bentley, etc, etc). Nenhum dá tanto nas vistas. Mas é para o carro que estão a olhar.
  • 5 Não há cruzamento onde tenha prioridade. Tenha sempre um livro à mão pois ninguém o vai deixar passar. Respire fundo e não valorize demais aquela cara de “lá porque tens um Panamera achas que passas primeiro…”

 

Artigo publicado na Revista Turbo nº 394, de julho de 2014