OPEL ASTRA SPORTS TOURER vs CONCORRENTES

Texto: Marco António / Fotografia: José Bispo

Considerado o melhor carro do ano, o novo Opel Astra recebe agora uma das versões mais importantes da gama: a carrinha Sports Tourer, que tem pela frente sérias concorrentes diretas

O mercado das carrinhas começou por ser pouco interessante e considerado à margem das outras versões, normalmente mais desenvolvidas quer do ponto de vista tecnológico quer numa perspetiva mais geral daquilo que as pessoas mais apreciam num automóvel. Consideradas carros de trabalho, cedo evoluíram para proporcionar os mesmos prazeres dos outros.

 

A Opel foi uma das marcas que mais contribuiu para essa evolução ao longo das nove gerações que antecederam a nova Astra Sports Tourer. Dez gerações que representam um total de 2,5 milhões de unidades vendidas. São poucos os modelos com esta expressão e com uma história tão vasta. Se no passado as carrinhas não despertavam tanto interesse, hoje em dia são muitas vezes as preferidas, incluindo neste segmento de mercado onde são muitas vezes a configuração mais vendida da respetiva gama.

 

MERCADO EM EBULIÇÃO

O interesse do mercado é tão grande que a sucessão de novidades não para. A Astra Sports Tourer e a Renault Megane Sport Tourer que está prestes a chegar são apenas dois exemplos. Duas propostas que irão com certeza ocupar os lugares do pódio juntamente com a Peugeot 308 SW que é presentemente a carrinha mais vendida.

 

Para este desafio, onde tiramos a prova dos nove às qualidades da nova Astra, escolhemos, para além do modelo francês, dois outros modelos alemães: a VW Golf Variant e a Ford Focus SW, duas propostas que continuam a atrair um numeroso grupo de clientes que acreditam que a qualidade continua a ser dominada pelas marcas alemãs. Se bem que já não seja bem assim, a verdade é que continuam a ser referencias importantes, sem cultivarem aquele ar espartano e redutor. A prova disso é o Opel Astra que, partindo de uma folha em branco, se apresenta como um produto integralmente novo e cheio de inovações.

 

O segredo para esta reviravolta baseia-se num processo de melhoria contínua e, por isso, foi com base nessa premissa que o Astra melhorou consideravelmente alguns dos pontos mais criticados da anterior geração. Um deles, talvez o mais importante, era o excesso de “gordura” (leia-se peso). A cura de emagrecimento foi tão grande que a versão mais leve pesa menos 190 quilos que o anterior modelo.

 

Este resultado pressupôs, no entanto, algumas condições e uma delas é o facto de o novo Astra não receber motores com mais de 1.6 litros de cilindrada. Uma opção apenas possível graças a um grande esforço de “downsizing”, que começa no pequeno motor de 3 cilindros. Uma das vantagens dessa decisão são os consumos e as emissões. É o caso da versão 1.6 CDTi de 110 CV escolhida para este comparativo, que provou ser a mais económica e aquela que se desvia menos das médias de consumo que a marca anuncia. Igual potência para a VW Golf Variant 1.6 TDi, enquanto a Peugeot 308 SW 1.6 BlueHDi e a Ford Focus 1.5 TDCi alinharam com as versões de 120 CV.

 

MEDIR A INFLUÊNCIA DO PESO

Este é um comparativo diferente que teve em consideração a influência do peso tanto nas prestações como nos consumos, no comportamento dinâmico e também nos custos de utilização. Sobre esta matéria considerámos os custos totais de utilização,um dado que as marcas presentes tentam a todo o custo melhorar.

 

Neste capítulo, a Opel apresenta valores interessantes, a par de outras virtudes como é o caso de um conjunto de sistemas inéditos neste segmento de mercado. Sistemas que tornam as carrinhas cada vez mais apetecíveis. Mas vejamos o que cada uma oferece e como cada uma se comporta num cenário cada vez mais concorrencial e disputado. Para este confronto, o critério de escolha foi tão somente o volume de vendas e por isso ficaram de fora propostas igualmente interessantes, nomeadamente as marcas coreanas (Hyundai e a Kia) e as marcas japonesas, com destaque para o Honda Civic e Toyota Auris, pelo que, fica desde já lançado o desafio para um comparativo mais alargado quando aparecer a Renault Mégane Sport Tourer em setembro.

Embora não seja objeto de avaliação, o estilo continua a ter um peso preponderante na hora de escolhermos um carro e as carrinhas não são exceção, a par de outros valores como a qualidade e a capacidade da mala

 

Para além de favorecer as prestações, a redução do peso da Astra contribui para valorizar a qualidade de uma carroçaria que, mantendo as mesmas dimensões do anterior modelo, tem um visual mais agradável, em linha com os modelos mais recentes, nomeadamente a Peugeot 308 SW. Mesmo assim, não se destaca assim tanto na qualidade quando comparada com as concorrentes escolhidas para este comparativo (onde as mais velhas são a VW Golf e a Ford Focus), daí a razão de termos optado por dar a mesma pontuação a todas nesta matéria.

 

O mesmo já não acontece quanto à capacidade da mala, onde o destaque vai para a maior volumetria da VW Golf Variant com 605 litros. Mas se na configuração de 5 lugares a primazia é da Golf, quando reabatemos os bancos a Opel toma a dianteira, ao garantir uma capacidade de carga um pouco maior, ao mesmo tempo que oferece um conjunto de acessórios (FlexOrganizer) que ajudam a organizar e a acondicionar certos objetos, uma opção que já existia na anterior geração e que a Opel melhorou neste novo modelo da Sports Tourer. Neste capítulo, que acaba por estar na base da razão de ser de uma carrinha, a mala mais pequena, em qualquer das configurações, acaba por ser a da Ford Focus, com apenas 490 litros. Em compensação desforra-se no tamanho do habitáculo, um resultado surpreendente se tivermos em conta que a maior distância entre eixos pertence à Peugeot, mas sobre a habitabilidade falaremos a seguir.

 

Agora interessa referir que na acessibilidade a Astra volta a ser a melhor, tanto à frente como atrás e na mala, onde estreia um sistema que permite abrir e fechar a porta da mala com um simples movimento do pé sob o para-choques, desde que tenhamos a chave connosco. Esta é uma novidade no segmento que, juntamente com a possibilidade de regularmos a amplitude da abertura da tampa da mala, facilita bastante o acesso, especialmente quando estamos com as duas mãos ocupadas.

 

Este sistema faz parte de um conjunto de outras inovações oferecidas pela décima geração da carrinha Astra, nomeadamente no domínio da segurança ativa, onde as novidades ofuscam as concorrentes, desde o controlo de estabilidade com inúmeras funções, entre as quais destacamos a vetorização de binário por travagem, até à nova geração do Opel Eye, agora também com novas funções. Na VW Golf Variant destacamos o contributo do diferencial eletrónico XDS no comportamento dinâmico, quando a tração desafia um comportamento que se quer mais equilibrado.

O habitáculo é um lugar privilegiado do automóvel e nele se concentram grande parte das nossas atenções

Embora seja bastante mais curta e tenha uma distância entre eixos mais pequena, a Ford Focus SW bate por uns escassos três pontos a Astra Sports Tourer no índice de habitabilidade. Uma diferença que se fica a dever, sobretudo, ao maior comprimento do habitáculo devido à mala mais pequena. Curiosamente, o espaço para as pernas atrás é o mesmo, exceto quando puxamos o banco da frente todo para trás, o que só acontece com condutores muito altos.

 

A mais acanhada nesta matéria é a VW Golf Variant, o que até se percebe por ter uma bagageira enorme. A Peugeot acaba por estar numa posição intermédia mas com a vantagem de ter o habitáculo mais bonito dos quatro, graças ao tablier minimalista, que transfere a maioria dos comandos para o ecrã tátil de 9,7 polegadas. Neste caso, todos os sistemas de info-entretenimento optaram por ecrãs táteis, sendo o mais pequeno e o mais simples o da VW Golf, representada neste comparativo pela versão Confortline. Neste domínio, a Astra é novamente a vedeta, ao apresentar uma versão evoluída do sistema InteliLink capaz de interagir com o sistema IOS da Apple ou com o sistema Android. Embora esta geração da Astra tenha reduzido um grande número de comandos, a verdade é que não é tão radical quanto a Peugeot, que reduziu também o tamanho do volante.

 

Esta é uma opção que se estende a outros modelos da marca e que tem como objetivo facilitar a manobrabilidade e a leitura dos instrumentos. Convém salientar, no entanto, que isso nem sempre acontece e que depende muito da altura do condutor. Os mais baixos têm alguma dificuldade em estarem no mesmo campo visual dos instrumentos para terem uma leitura correta das informações mais relevantes, como a velocidade ou o regime do motor, mesmo tendo em conta que, neste último, o ponteiro se movimenta ao contrário dos outros.

 

Voltando à questão da habitabilidade, o aumento da largura da Astra nos lugares traseiros, devido à utilização de materiais menos volumosos nas portas, permite lá instalar três cadeiras de bebé. No nosso teste não instalámos cadeiras, mas colocamos com facilidade os três manequins, que cheios de água, permitiram efetuar as medições com peso e, ao mesmo tempo, avaliar o comportamento dinâmico nessas circunstâncias.

 

Com níveis de ruído e um índice de articulação muito semelhantes, o conforto ficou resumido ao desempenho de cada uma das suspensões e, nesse aspeto, a nossa atenção recaiu sobre as virtudes da suspensão multilink da Ford Focus. Esta garante um elevado nível de conforto a bordo, a que também não é alheio o facto da Focus e da Astra terem jantes de 17 polegadas (e pneus de perfil mais alto no caso do Ford). Apesar de ser a mais velha, a carrinha Focus não descura a segurança dos ocupantes, oferecendo os mesmos sistemas de proteção, ao mesmo tempo que alcança os mesmos resultados nos testes de segurança EuroNCAP.

 

Das quatro carrinhas presentes a Golf Variant é a única a oferecer um airbag de joelhos para o condutor. Todas as outras omitem esse equipamento. E por falar em protecção, destaque ainda para as múltiplas ajudas usadas para ampliar a visibilidade. Seja através de sensores (que na Ford Focus estão a toda a volta), seja através da tradicional câmara de marcha atrás com guias, apenas disponível na Opel e na Peugeot e outras ajudas como o aviso do ângulo morto.

Na tecnologia o destaque vai para os motores mas também para as suspensões e para as caixas de velocidades

Embora os pequenos motores de 3 cilindros a gasolina estejam a ganhar terreno, a verdade é que os diesel ainda dominam este segmento. Se a Astra e a Golf marcaram presença com as versões de 110 CV, a 308 e a Focus alinharam com versões de 120 CV, uma diferença relevante na superior capacidade de ultrapassarem o aumento da relação peso/potência. Um objetivo para o qual não foi alheio o desempenho do escalonamento de cada uma das caixas manuais de 6 velocidades perante o aumento de 405 Kg.

 

Passando dos motores para as suspensões, salta à vista o desempenho da Ford Focus, a única com uma suspensão traseira de braços múltiplos, enquanto a Opel Astra aperfeiçoou o eixo traseiro, composto por uma barra de torção. Só é pena que esta versão não possua a articulação de Watt. Mesmo assim e por comparação com a multilink da Ford, a barra de torção garante maior rigidez, com menor perda de camber na oscilação da carroçaria em curva, uma caraterística que acabou por ser determinante na estabilidade lateral aquando da maior transferência de peso com a carrinha carregada.

 

O esquema da Peugeot e da Golf teve mais dificuldade em gerir essas mudanças de peso e definir com tanto rigor as trajetórias. Na Golf compensa o facto do diferencial eletrónico (que atua na travagem) controlar pequenos deslizes enquanto na Astra a vetorização de binário melhora a agilidade, permitindo uma melhor resposta da direção ao efetuar pequenas intervenções de travagem, enquanto o binário pode também ser aumentado para contrabalançar o efeito. Graças a estas ajudas diminui a tendência subviradora que se acentua com o aumento do peso, pelo que, a Astra e a Golf são mais neutras quando carregadas.

 

Os resultados obtidos demonstram que a VW Golf Variant 1.6 TDi Bluemotion foi a que apresentou maiores desvios, quer nas acelerações, quer nas recuperações. Isso deve-se, sobretudo, ao escalonamento mais longo da caixa de velocidades quando comparado com a escolha feita pela Ford, que se revelou mais rápida na generalidade das medições feitas, ainda que não seja a que tem o maior índice de elasticidade. Em compensação o seu motor revela um rendimento acima da média. Esta vantagem tem, no entanto, o reverso da medalha, como iremos ver no capítulo da economia, porque se é verdade que a Focus foi a mais rápida em qualquer dos dois cenários, foi também a mais gulosa em termos de consumos! Neste caso, a mais equilibrada acaba por ser a Peugeot 308 SW 1.6 BlueHDi, seguida da Opel Astra que, como iremos ver, é a mais económica.

 

Para além de alterar significativamente as acelerações e as recuperações, o aumento do peso amplia bastante a travagem, embora neste capítulo os resultados sejam muito semelhantes. O aumento médio do espaço de imobilização a partir dos 100 Km/h foi de 13 metros, um valor que, não sendo muito elevado, altera significativamente a reação, o tempo de travagem e a resistência à fadiga, onde os melhores resultados pertenceram à Peugeot 308 e à VW Golf, como demonstrado após um volta à pista, onde efetuámos uma sucessão de travagens e verificámos também a interferência do peso na agilidade e na definição das trajetórias. Uma situação onde os melhores foram a Opel Astra e Peugeot 308 SW, ainda que as diferenças não justifiquem grande destaque quando comparadas com a VW Golf Variant 1.6 Bluemotion de 110 CV e a Ford Focus SW1.5 TDCi de 120 CV.

Neste capítulo concentrámo-nos nas acelerações e nas recuperações, com a novidade dessa avaliação a ser feita em função do peso, usando material especifico

Neste teste introduzimos a variável peso. Para isso utilizámos quatro manequins específicos que, cheios de água, pesam 75 quilos cada, simulando um passageiro adulto. Atrás colocámos na mala vários módulos para simular uma carga de 30 quilos. No total, introduzimos dentro de cada carrinha uma carga de 405 quilos. A ideia foi medir as prestações sem e com carga e analisar a influência do aumento da relação peso/potência nas prestações e no comportamento geral do carro, um aspeto já abordado anteriormente à luz das capacidades dinâmicas de cada uma das carrinhas.

 

A economia é um dos aspetos mais relevantes, por isso analisamos este tema de uma forma mais global através do custo total de utilização.

Partindo das versões mais baratas (ainda que todas as marcas tivessem alinhado com versões mais caras) e não tendo em conta o equipamento extra que cada uma das versões ensaiadas oferecia, a proposta mais em conta é a Ford Focus 1.5 TDCi SW que, por menos 200 euros que a Opel Astra Sports Tourer 1.6 CDti, tem mais 10 CV! Neste caso é interessante verificar o esforço feito na valorização do “value for Money” ou seja em melhorar a relação preço/ equipamento, com destaque para a Opel, que introduz nesta nova geração muitas novidades, algumas inéditas como os faróis IntelliLux, que só vemos nos segmentos mais altos.

 

Mas se o preço é um dado importante, neste comparativo introduzimos um outro dado tão ou mais importante quanto o preço. Trata-se dos custos globais de utilização (TCO) que, como já dissemos, são compostos por vários fatores, que vão desde o simples consumo, aos pneus, passando pelo valor de retoma (neste caso, considerado ao fim de 36 meses ) e os custos de manutenção. Este é um dado interessante e revelador do esforço que as marcas fazem em domínios tão simples como a redução do consumo e a emissão de CO2 onde a Opel alcança um excelente resultado, frente aos seus principais adversários.

 

Entre estas quatro carrinhas, a Opel Astra Sports Tourer foi a que alcançou menor consumo, sem peso e com peso, a que corresponde o desvio mais baixo em relação ao valor oficial de 3,8 l/100 Km. A mais gastadora acabou por ser a Ford Focus, com um desvio que chegou aos 78,9 por cento com a carrinha carregada, enquanto a Peugeot e a VW Golf alcançaram nas duas situações os mesmos valores, embora com um desvio maior para a Peugeot em relação ao valor anunciado. O bom resultado alcançado pela Astra deve-se, sobretudo, à forma superior como o binário se relaciona com a potência ao longo dos vários regimes, bem como ao bom escalonamento da caixa manual de seis velocidades.

  1. A Astra é inovadora e gasta pouco
  2. A 308 SW continua a ser uma das melhores propostas do mercado
  3. A Focus surpreende pelo superior conforto devido a ser a única com suspensão multilink atrás
  4. A maior mala está na Golf. mas a caixa mais longa trai as prestações