País Basco, País Vasto

Texto: Júlio Santos

Vasto na cultura, na diversidade da paisagem, na gastronomia (30 estrelas Michelin) e na arquitetura. Vasto nas razões que explicam o ancestral desejo de demarcação face ao restante território espanhol. Vasto nos motivos que tornam obrigatória uma visita demorada. Detalhada. Bem-vindos ao País Basco.

 

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De que é “feito” um país? Da sua cultura mais do que do poderio económico. Da harmonia da sua diversidade, mais do que da dimensão. Da abnegação do seu povo – da capacidade para sofrer, erguer-se e triunfar – mais do que de feitos efémeros ou mesmo da imponência das suas fronteiras. Da sua língua e do orgulho nas suas raízes. É de tudo isto que é “feito” o povo basco. É isto que legitima o ancestral desejo dos bascos a uma autonomia que nunca foi mendigada, antes foi construída com sacrifício, quantas vezes com excessos.

Lugar de passagem ou permanência de muitos dos povos que habitaram a Península, o País Basco (Euskadi) vê as suas origens perderem-se no tempo; ergueu-se de muitas batalhas, perdeu e reconquistou a autonomia vezes sem conta. Viu, mesmo, a sua língua (uma das mais antigas na Europa) ser proibida durante a ditadura de Franco, chegou a ter leis próprias e um sistema fiscal autónomo. O que perdeu não se compara com aquilo que foi capaz de manter. Sobretudo a alegria do seu povo, patente nas tradições, nas artes, em que a gastronomia bem pode ser apontada entre as mais emblemáticas, como rapidamente descobrimos (são mais de 30 estrelas Michelin, a maior concentração do mundo num mesmo espaço geográfico).

Acima de Burgos, entrando mesmo por França, estende-se este país que em Espanha compreende as províncias de Alava, Viscaya e Guipúzcoa. Às cidades vibrantes, plenas de vida, sucede-se o verde dos campos, bosques e parques naturais, tesouros dos caminheiros e dos amantes da natureza. E, por fim, alcançamos a costa agreste. De um recorte caprichoso que atira ao mar lugarejos de pescadores que outrora partiam a ganhar a vida na caça à baleia. Praias magníficas, paisagens que inspiraram quadros de múltiplos artistas que por aqui se perderam, como Pablo Picasso que pintou o sacrifício de Guernika arrasada durante a guerra civil espanhola.

É difícil não nos encantarmos com este país de que, infelizmente, ouvimos falar, pela primeira vez, pelas piores razões. A pacificação tardou mas depois do anúncio de renúncia as armas por parte da Eta, em 2011, todos acreditam (querem acreditar) que o novo tempo chegou.

Renasce a esperança e a nevoa que se dissipa deixa à vista cidades incríveis como Bilbau, popularizada pela obra do arquiteto canadiano Frank Gehry. Mais do que um museu o Guggenheim é uma homenagem à cidade outrora berço de uma indústria naval pujante, o que explica a forma de um barco ancorado na ria deste imponente edifício revestido a titânio que deve ser visitado demoradamente, de preferência ao final do dia quando o pôr-do-sol refletido nas suas paredes empresta a esta zona uma tonalidade única.

A arte (sob múltiplas formas) é, aliás, a marca de água desta lindíssima cidade. O contemporâneo serve para destacar os sinais das sucessivas culturas que por aqui passaram. O famoso terrier Puppy de Jeff Koons, a guardar a entrada do Guggenheim, desperta, justamente, o mesmo interesse que o velho entreposto de vinho que Philippe Stark transformou em centro cultural, destacando as colunas em mármore e um criterioso trabalho em ferro. Ou que o teatro Arriaga, edifício neobarroco (inspirado na Opera de Paris) ao lado da câmara municipal que nos abre as portas da cidade velha. Depois de um passeio ao longo da ria é aqui que nos apetece ver chegar o final da tarde numa das muitas esplanadas das imperdíveis tascas, autênticos monumentos gastronómicos que têm nos célebres pintxos (mais de 50 variedades) a sua expressão mais genuína.

Uma semana por aqui não vai chegar para degustar todas estas iguarias, sempre acompanhadas pelo famoso txakoli, um vinho jovem frutado e muito fresco, específico da região de Gentaria, a menos de uma hora de Bilbau. O vinho é, aliás, outra das imagens de marca do País Basco e de todo o vale do Ebro. O grande protagonista é o famoso Rioja que se funde com o verde dos inúmeros parques naturais e que assume um papel estratégico para a economia de toda a região e para a cidade de Vitória. A capital do País Basco não tem a aura de San Sebastian ou Bilbau, mas ainda assim, justifica uma visita ao seu centro histórico, formado por um bem conservado conjunto de edifícios renascentistas.

CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA 2016

Não foi bafejada pela opulência de um Guggenheim, nem pelo charme “hollywoodesco” de San Sebastian (o festival internacional de cidema é outros dos cartazes da cidade) mas as múltiplas quintas que podem ser visitadas mediante marcação (entre maio e outubro) dão-lhe um charme único. A mais antiga (1860), Marquês de Riscal, não só tem a fama de produzir os melhores Rioja (pelo menos os mais premiados) como alberga a mais antiga coleção de vinhos da Europa – conta-se que uma garrafa de 1929, ano do nascimento de Frank Gehry, “inspirou” o arquiteto para desenhar o edifício do hotel ali existente e cujo traço identifica, imediatamente, o seu autor.

Pouco mais de uma hora e meia separam Vitória daquela que será, em 2016, a capital europeia da cultura mas San Sebastian não esperou por esse evento para se abrir ao mundo. Ao mundo da cultura e do prazer de viver sobretudo no exterior, o que explica a quantidade de atividades cuja tradição ancestral teima em perdurar: do jogo da pelota basca, às regatas de “traineras” (pequenos barcos a remos semelhantes àqueles que eram utilizados para a caça a baleia), passando pelas tamboradas (festival de tocadores de tambores que decorre todos os anos em janeiro) e pela dança típica (Mutxico) que celebra, precisamente, a alegria de viver.

San Sebastian é uma cidade voltada para o exterior, apesar da quantidade de monumentos um pouco por todo o lado, evocando os mais diversos estilos arquitetónicos e assim, celebrando todos os povos que aqui deixaram a sua marca. A visita bem pode começar pelo “casco histórico”, no sopé do monte Urgull, junto ao colorido porto de pesca, cujas ruelas estreitas povoadas de tascas conduzem-nos até à magnífica igreja de Santa Maria e São Vicente, um dos únicos edifícios que resistiu ao terrível incendio que em 1813 devastou grande parte da cidade.

A partir daqui podemos seguir a orla da lindíssima Praia da Concha cuja designação percebemos melhor quando a avistamos do topo do monte Igueldo, que alcançamos de carro ou utilizando o funicular cujo bilhete (2,2€) já contempla o acesso ao parque. As vistas sobre a cidade são de cortar a respiração, sobressaindo, então, a lindíssima baia em forma de concha que bordeja a cidade e onde se destaca, também, a graciosidade da ilha de Santa Clara acessível de barco ou a nado, para os mais afoitos, a partir, precisamente da Praia da Concha.

No verão, as águas tranquilas do mar da Cantábria (a temperatura média da agua pode chegar aos 22 graus) mais do que convidam a um mergulho numa das inúmeras praias da costa basca onde a tradição e a tranquilidade dão as mãos para nos receberem de uma forma única. Este é o tempo para visitar e encantar-se com o País Basco.

 

Peugeot 3008 – EM BOA COMPANHIA

Esta viagem de quase dois mil quilómetros pelo País Basco revelou-se um desfile permanente de surpresas, todas elas bastante agradáveis. A confirmação foi, então a capacidade de o Peugeot 3008 cumprir longos trajetos oferecendonos os mais elevados padrões de conforto. São raros os automóveis capazes de nos levar desde Lisboa a Bilbau em ritmo que não era apenas “de passeio” e à chegada termos a sensação de que estávamos prontos para continuar. Mas, ainda assim, também no caso do crossover da Peugeot surpreendemo-nos com a média de consumo de 5,9 litros do motor 1.6 BlueHDi, com 120 CV.

O amplo espaço para pessoas e bagagem, a elevada qualidade de construção, evidente em detalhes como a total ausência de ruido a bordo e o excelente nível de equipamento da versão Style cativam imediatamente mas no caso de uma viagem tão longa sobressaem, também, as capacidades dinâmicas, como a agilidade e a plena disponibilidade do motor. Sem dúvida, o companheiro ideal para as férias em família.

 

 

Artigo publicado na Revista Turbo nº 406, de julho de 2015

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