Para nunca perder o Norte – Viagem Turbo Minho

Texto: Júlio Santos

Por estes dias em que perdemos o Norte e já só nos imaginamos estiraçados numa praia que apenas existe na nossa imaginação, pare e pense naquilo que realmente procura. E, então, quase inevitavelmente, seguirá em sentido contrário. Até onde Portugal termina. Aí começam umas férias dignas desse nome.

Apontámos a norte. Não para sermos diferentes mas porque valorizamos cada segundo de descanso. Ler um bom livro à sombra de um salgueiro debruçado sobre o rio de águas transparentes, jantar refastelado no restaurante da praça central, sem marcação prévia nem o olhar recriminatório de alguém que está há uma hora à espera de mesa. Apontámos a norte porque, por estes dias, é aí que encontramos a tranquilidade que valorizamos acima de tudo, a genuína simpatia de quem tanto é capaz de aconchegar-nos com dois dedos de conversa ou respeitar a desejada privacidade.

Apontámos a norte pelo privilégio único de termos a certeza de que aqui o tempo é nosso; basta afastarmo-nos dois passos ou pedalarmos cinco minutos para termos aos nossos pés uma paisagem desenhada propositadamente para nós, para aquele momento. Apontámos ao norte: pedalámos pelas margens do rio Minho, desde Vila Nova de Cerveira a Monção, perdemo-nos na capital das artes e surpreendemo-nos com o desvelo com que estas gentes cuidam, com orgulho, das suas terras. Ainda bem. Três dias de encanto. Mas foi mesmo tanto tempo?

 

ARTE… DE BEM PEDALAR

A base ideal para esta visita ao Alto Minho bem pode ser Vila Nova de Cerveira, a capital das artes, com uma agenda de eventos que justifica muito bem esse cognome. Claro que a visita ao Aqua Museu Rio Minho vai ficar gravada nas memórias dos mais pequenos e que um par de horas não é demais para o Museu Bienal de Cerveira (www.bienaldecerveira.pt). Porém, basta um passeio nas ruas desta simpática vila, através das ruas estreitas, das lojinhas, típicas ou à beira do rio Minho, no bem arranjado parque multiactividades, para compreendermos o porquê de este ser um dos pontos de permanência preferidos pelos turistas que procuram a região.

Para Cerveira existe, além disso, um projeto (em parte já concretizado) de transformar a vila na meca do cicloturismo. Além da ciclovia de quatro quilómetros que bordeja o rio na direção de Caminha (por agora chega a Lanhelas), a ideia é que essa ligação seja integralmente concretizada, o que irá permitir pedalar até Viana do Castelo, num percurso de mais de 40 quilómetros. Em alternativa, também em projeto, Cerveira pode ser o ponto de partida para o trajeto em ecovia/ciclovia (passeio a pé ou de bicicleta) entre Ponte de Lima e Ponte da Barca, com inúmeros trechos alternativos e desafiantes que prometem “encher” todo um dia.

Lá voltaremos quando estes dois percursos forem uma realidade (o que deve acontecer dentro de dois anos). Por esta vez bastou-nos (e de que maneira) a ligação entre Vila Meã, a cinco quilómetros de Vila Nova de Cerveira, e Monção, pela denominada ciclovia que nos conduz primeiro a Valença, sempre à beira do rio Minho e daqui até Monção.

A primeira etapa, à sombra dos salgueiros, começa por acompanhar o percurso do rio, levando-nos através de pontes em madeira e trilhos de grande qualidade, onde até os mais pequenos estão em total segurança, até junto do antigo posto fronteiriço de Valença. Aqui, após um trajeto curto por entre as ruas da vila e ao redor das muralhas da Fortaleza, iniciamos a segunda etapa até Monção, que aproveita (muito bem) o antigo caminho-de-ferro, num exemplo do que deve ser a reconversão de estruturas desativadas. O trajeto de 12 quilómetros é quase absolutamente plano e o piso de grande qualidade, atravessando, na companhia do Minho, extensões imensas de vinha Alvarinho. Não vale a pena ter pressa! Leve consigo a camara fotográfica e desfrute. Apenas! Páre numa das antigas estações e tente imaginar o movimento dos que, noutras épocas, partiam desses pequenos lugares, à sorte do mundo. É, nos dias de hoje, um exercício que nos deixa a pensar se, afinal, o país mudou, realmente, assim tanto.

Bom, o melhor é retomar o caminho até Monção e parar para beber uma água na praça central. Aí pode visitar a Igreja da Misericórdia e, principalmente, deixar a bicicleta durante alguns minutos para caminhar a pé por entre as ruas estreitas. Além das vistas deslumbrantes sobre o rio, não deixe de apreciar (e comprar) o rico artesanato local, com destaque para os bordados e rendas, tecelagem, trabalhos em madeira e olaria. No regresso pode optar por atravessar para o lado espanhol, também em ciclovia, até Tui, e daí, através da antiga ponte, de novo até Valença, seguindo para Vila Meã onde temos a nossa base: o excelente Hotel Minho.

 

BONS VENTOS E MUITO MAIS

Não há fadiga mais revigorante do que a que resulta de um bom passeio de bicicleta. Experimente e verá! Mas a tarde já vai avançada e a hora da refeição principal… já lá vai. Melhor assim! Menos remorsos por nos perdermos nas “tasquinhas” de Tui, a menos de 20 quilómetros. Esqueça isso do que “é nacional é que é bom!” A animação na praça principal e nas ruelas que dela

partem, nada tem a ver com o ambiente sombrio que se vive do lado de cá. Sim, é verdade que não temos razões para sorrir ou para euforias mas… e os espanhóis têm? Em Tui apetece ficar na rua até às tantas. Em Valença ou Monção estamos desejosos de recolher ao aconchego do Hotel. Há vida. E há a tabla de quesos (e os revueltos de Grelos e…) na esplanada do Jaqueyvi. Onde voltamos e voltamos e voltaríamos já, outra vez. Lá se foram (regressaram) as calorias queimadas no passeio de bicicleta…

O dia seguinte terá que ser mais tranquilo. Seguimos o trajeto celebrizado pelos festivais de verão (Vilar de Mouros e Paredes de Coura) mas não conseguimos imaginar o contraste que esses dias trazem a esses lugares quase abandonados onde agora nada (nada mesmo) acontece. Paredes de Coura é uma pequena vila cujo casario branco se desenvolve ao redor de uma praça central onde se joga às cartas e se desfiam ideias sobre “essa história lá do BES…” Já à saída vale a pena tomar a direção da Praia Fluvial, descer até lá baixo e… pegar no livro.

O frondoso parque em relva, muito bem cuidado (antes da chegada dos festivaleiros) convida à preguiça. A tranquilidade é absoluta. Na magnífica esplanada (obra cara) estamos praticamente sozinhos. O café sabe mesmo muito bem mas perguntamo-nos quanto tempo vai durar o negócio… para o ano, se ali voltarmos (ou quem ali voltar) se calhar vamos lamentar o facto de aquele “espaço magnífico e nem um simples local para tomar um café…”. É assim: damos valor ao que não temos… Ao fundo há um casal que passeia e mais à esquerda, dois ciclistas que regressam do privilégio que foi refrescarem-se sozinhos na convidativa piscina natural formada logo abaixo da vigorosa cascata. Pouse o livro e, se não se esqueceu (não esqueça) do fato de banho… usufrua deste Algarve, ali inteirinho só para si…

Regresse a Vila Nova de Cerveira pela N13 e em Lanhelas vire à esquerda para a estreita Municipal (CM) 1001 que o conduzirá até Vilar de Mouros. Antes da Ponte medieval, à esquerda, há um bom restaurante com varanda sobre o rio, mas se optar por não parar, atravesse a ponte e no imenso recinto siga até ao fundo na direção da azenha onde encontrará, também, uma convidativa praia fluvial.

No regresso, opte pela estrada interior, em direção a Caminha onde todos os anos, no final de julho, tem lugar a Feira Medieval, a mais antiga que se realiza em Portugal (desde 1291). Jantar em Caminha e, se for caso disso, visitar a feira é, apenas um dos muitos motivos de interesse desta vila no estuário do Minho, onde hesitamos entre nos perder nas ruas estreitas (que nos conduzem por um património histórico de riqueza invejável) ou (coragem!) mergulhar nas águas geladas de praias com não menos história (Moledo, Vila Praia de Ancora…). À noite, nem que seja para uma quase nostálgica despedida, não deixe de visitar a Fortaleza de Valença, onde a vila começou por se desenvolver para a proteção dos (então) inimigos que vinha da outra margem do rio. Agora é local de lojas e souvenires para turistas e uns quantos restaurantes que servem os inevitáveis pratos locais. Imperdível. Como o Minho!

 

AUDI Q3 2.0 TDI QUATTRO

As dimensões compactas do Audi Q3 permitiramnos explorar as ruelas de locais como Monção e Vila Nova de Cerveira. No entanto, levou-nos de Lisboa ao Minho com absoluto conforto, enquanto a vocação SUV foi preciosa para nos aventurarmos (com sucesso) por alguns caminhos onde por vezes a bicicleta torcia o nariz… A par do interior bem equipado e com espaço suficiente para pessoas e bagagem, apreciamos o desempenho dinâmico já que, com facilidade, mantivemos ritmos bastante “apressados”. O consumo médio de viagem de 7,7 litros, tendo em conta a utilização e a tração integral, pode considerar-se um valor bastante justo, nomeadamente para um automóvel premium. O mesmo se pode dizer do preço a começar nos 42 mil euros para a versão quattro. Até porque o equipamento oferecido de série é bastante completo.

 

HOTEL MINHO

A meia dúzia de quilómetros de Vila Nova de Cerveira, em Vila Meã, o Hotel Minho (www. hotelminho.com ou 251700241) é a base perfeita para explorarmos toda uma região de encantos. O ambiente acolhedor e de grande qualidade, o serviço marcado pela simpatia e o profissionalismo caraterizam esta estrutura que nos brinda com um retemperante Spa.

 

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