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eCall: Milagroso ou malandreco?

Texto: Júlio Santos
Data: 2 de Abril, 2017

Dentro de um ano o seu carro vai ter mais um botão. O eCall salva vidas mas pode fazer muito mais. Pode ser milagroso ou… malandreco

 

O sistema eCal vai estar operacional dentro de precisamente um ano: todos os carros vendidos na Europa a partir de 1 de abril de 2018 terão que dispor deste sistema que, em caso de acidente, envia automaticamente um aviso, com a localização do sinistro, para o serviço de emergência do país. De acordo com o Secretário de Estado da Administração Interna, a partir de setembro o “112” está tecnologicamente apetrechado para receber esse alerta automático e despoletar as ações necessárias. Jorge Gomes refere, ainda, que estão a ser estudados mecanismos que incentivem a instalação de dispositivos com os mesmos fins em todos os carros já em circulação.

O eCall funciona em diversos países europeus e nos EUA há já alguns anos. Os resultados positivos levaram, em 2013, a que o Parlamento Europeu encarasse a sua instalação obrigatória em todos os veículos novos, o que, como referimos, acontecerá dentro de um ano. A suportar esta decisão está o facto de o sistema permitir encurtar em cerca de 50% o tempo de espera desde a ocorrência do sinistro até à chegada dos meios de assistência, o que permitirá salvar 2500 vidas todos os anos.

Mas o botão “milagreiro” que trabalha segundo princípios simples (geolocalização) já devia, então, estar implementado há muitos anos. Porque é que isso não aconteceu? Porque ele não está isento de polémica. Na verdade estamos a falar de dois sistemas que vão (ou poderão) operar em paralelo: o sistema básico, que atua de forma automática, emitido o referido aviso de ocorrência para as autoridades (este, então o obrigatório); ou um conjunto mais complexo de serviços que muitas marcas já comercializam ou oferecem e que têm associados, além do eCall obrigatório, muitas outras informações, aparentemente muito aliciantes. Aqui começa o problema, já que as informações são ao mesmo tempo enviadas para os serviços de emergência mas, também, para os computadores das marcas que podem usar essas informações, sem qualquer tipo de controlo e com vantagens competitivas importantes face, por exemplo, aos operadores independentes. Podem saber que o seu carro está a precisar de revisão ou de uma reparação e avisa-o disso mesmo. Útil? Sem dúvida. Mas a verdade é que essa informação “preciosa”, não chega em pé de igualdade aos operadores independentes. Imagine que você prefere fazer a reparação na oficina em que confia e que não faz parte da rede oficial da marca. Esta não vai estar informada e, portanto, quando chegar perto de si… já alguém reparou o seu carro. É isto que o Parlamento Europeu não quer e, por isso, tudo está a fazer para que operadores oficiais ou independentes tenham acesso simultâneo à informação, princípio essencial do direito dos consumidores.

Sabemos no que está a pensar: “eu só vou ter no meu carro o serviço básico que me liga ao centro de emergência”. A ideia é boa e os propósitos louváveis mas do que não duvidamos é de que os construtores tudo irão fazer para convencer os seus clientes de que o melhor é estarem ligados á marca que, em automático, irá avisar os meios de emergência e, além disso, facultar-lhe o acesso a serviços complementares, como informações de trafego e rotas, etc. A prerrogativa de aceitar é sua mas…

E, de novo, onde está o problema? A resposta prende-se com algo que é muito importante, além da já referida ausência de condições de igualdade para as oficinas oficiais e independentes. A questão coloca-se do lado da proteção de dados. Um automóvel, em situação normal, pode hoje chegar a emitir cerca de 20GB de dados/hora. Esses dados, sobre os seus hábitos, rotas, etc, podem depois, ser comercializados/utilizados da forma que escapam totalmente ao seu controlo. Não o assusta?

A decisão é sua. Ou deveria ser!

 

Foto: sistema OnStar da Opel, onde surge a vermelho o botão de ecall.