Mercedes quer “inventar novamente” o automóvel

Texto: Nuno Fatela
Data: 28 Fevereiro, 2018

Mais de um século após ter inventado o automóvel, a Mercedes está agora apostada numa nova revolução que irá modificar totalmente a forma como nos relacionados com as viaturas. Com o novo MBUX a ser a face dessa transformação, que será muito mais abrangente,  o objetivo é que no futuro sejam os carros a adaptar-se às pessoas e não os humanos a ir de encontro às especificidades das viaturas.

Uma das transições mais importantes da história da Humanidade foi a introdução do antropocentrismo, que coloca o homem no centro do pensamento, alteração considerada fulcral para o início de um dos períodos áureos nas artes, o Renascimento (em oposição ao teocentrismo da Idade Média). Esta palavra pode agora ser aplicada ao automóvel, com a transformação preconizada pela Mercedes, que procura também agora uma visão totalmente antropocêntrica nas suas viaturas, em que passam a ser os carros a adaptar-se aos humanos e não os condutores a ter de ir de encontro às características que encontram nos veículos.

O Mobile World Congress foi escolhido para a primeira apresentação ao público do MBUX.
Mercedes-Benz User Experience é o que esta designação representa e procura revolucionar a interação entre pessoas e carros
Colocar o ser humano no foco das atenções é o objetivo primordial deste novo interface que será utilizado em todos os modelos da marca.
Para demonstrar isso, foram colocados dois “protótipos” do cockpit do novo Classe A, onde se pode experimentar o MBUX.
Os dois pequenos quadrados no volante são sensores táteis que permitem controlar os ecrãs dedicados à instrumentação e infoentretenimento.
Ao passar com o dedo sobre este local, na vertical e na horizontal, é possível navegar entre os vários menus e submenus. A pequena seta funciona quando se quer regressar ao ecrã inicial.
No painel de instrumentos digital existe, além dos tradicionais mostradores de velocidade, rotações e consumos, outros grafismos dedicados a Forças-G, performance ecológica e mais informações
Para facilitar a navegação, este ecrã pode ser também utilizado como um grande mapa que ajuda o condutor a seguir a rota até ao seu destino
No topo do ecrã da direita é possível escolher qual o utilizador. Desta forma, e com recurso a inteligência artificial, o MBUX individualiza parâmetros como condução, bancos, climatização e até os grafismos.
Além disso, reconhece até os padrões de comportamento do condutor e pode, por exemplo, recordar o condutor de tarefas quotidianas como chamadas
A imagem e utilização deste ecrã do infotainment recorda a organização e funcionamento dos smartphones, facilintado as tarefas
A possibilidade de aumentar ou reduzir as dimensões do mapa com movimento de dedos, como em muitas aplicações, é um exemplo desse comportamento intuitivo
Além disso, os evoluídos comandos vocais com um nível de linguagem natural e aprendizagem pela inteligência artificial estão também em destaque
O MBUX é também um sistema já preparado para a partilha de viagens.
Para isso existe o Mercedes me, uma aplicação que permite o envio de chaves digitais para aceder, por tempo predefinido, aos modelos equipados com o MBUX
A 'Sarah' também veio ao Mobile World Congress. Este é um assistente digital, criado pelos serviços financeiros da Mercedes, que recorre à inteligência artificial e ajuda os clientes na configuração do seu futuro automóvel.

Este foi o mote para a presença da marca no Mobile World Congress, onde deu a todos a possibilidade de experimentar o seu novo interface MBUX, que estreia brevemente com a quarta geração do Classe A. Uma novidade que vai muito além da digitalização das informações disponibilizadas aos ocupantes, pela total eliminação de painéis analógicos, pois atrás dos elegantes ecrãs escondem-se outras potencialidades que vão permitir o “Renascimento” na ligação entre pessoas e automóveis.

A utilização da inteligência artificial é transversal, pois transforma o automóvel num assistente pessoal que aprende e conhece as preferências e também as rotinas do condutor. Juntam-se ainda outras características neste interface que ajudam a tornar a utilização mais intuitiva, como já tinha sido destacado na CES, e que passam pelos comandos vocais extremamente evoluídos, a possibilidade de recorrer à realidade aumentada para facilitar a compreensão dos mapas e ainda a inclusão de atributos como a chave digital partilhada por smartphone que o habilita às modalidades de car-sharing.

O MBUX é uma das faces visíveis da iniciativa CASE da Mercedes, em que são demonstradas as maiores apostas da marca para o futuro. Esta sigla remete precisamente para essa transformação – Conetado, Autónomo – partilhado (Shared & Services) – Elétrico. Neste novo cockpit em estreia com o Classe A estão em foco o primeiro e o terceiro ponto, pela utilização da Cloud e pelas potencialidades da inteligência artificial.

 

Ao comando do MBUX

Além de ter disponível um novo Classe A no seu stand do Mobile World Congress de Barcelona, estavam ainda no grande espaço logo à entrada do Hall6 deste imenso evento de novas tecnologias dois pequenos “protótipos” onde se podia descobrir o novo interface que a marca irá introduzir com o Classe A e depois expandir aos restantes modelos. Ao testar este sistema, o primeiro adjetivo para o definir é, sem dúvida, “intuitivo”.

(MBUX na CES 2018)

O volante passa a ter embutidos dois pequenos quadrados pretos na zona dos comandos que permitem uma navegação mais fácil e segura pelos ecrãs. Como o MBUX contempla dois ecrãs digitais, para o painel de instrumentos e o infotainment, o controlo tátil da esquerda serve para navegar pela instrumentação e o da direita permite explorar o rádio, sistemas de controlo do carro, navegação e muitos outros aplicativos. E quando falamos de caráter intuitivo, ele é bem exemplificado no caso do painel de instrumentos digital.

Como antigamente, ele está dividido em três secções, originalmente com o velocímetro na esquerda, o conta-rotações na direita e dados como consumos ao centro. Mas existe a possibilidade de apresentar variadas informações, como mostradores com a Força-G sentidas pelo automóvel, performance ecológica e outros. E, para ir “passeando” entre os vários menus basta apenas ir passando com o dedo na horizontal (para escolher entre as informações da esquerda, centro e direita) e na vertical para alterar os dados apresentados. Além disso, é ainda possível aceder a alguns atributos integrados nos menus de infotainment e, para facilitar a navegação, tornar este ecrã somente num grande mapa contínuo que facilita bastante a compreensão da rota até ao destino.

Do lado direito temos as várias opções de infotainment e ainda dos menus do próprio automóvel. Este ecrã é tátil e tem uma operacionalidade bastante similar aos smartphones, especialmente quando apresenta mapas, já que os movimentos dos dedos para abrir a imagem ou a tornar mais específica da rota é igual a aplicações como o famoso Google Maps. Também neste ecrã o comando tátil no volante facilita bastante as operações, já que ao fazer um movimento para cima podemos ir para a “barra de menus” onde encontramos navegação, áudio, aplicações ou informações do automóvel e depois ao passar com os dedos para a esquerda e direita podemos escolher entre as várias opções.

Para tornar ainda mais fácil a execução das várias tarefas de forma intuitiva, existem outros botões junto dos comandos táteis do volante, como um que serve para regressar aos menus principais (lado esquerda, no topo dos controlos) e outro com o símbolo de uma casa para regressar sem problemas ao menu inicial. No entanto, esta utilização dos comandos táteis no volante é apenas um dos patamares de inovação e de controlo do MBUX.

 

Inteligência ao dispor do condutor

Como se não bastassem estas possibilidades, o MBUX conta ainda com o sistema de comandos vocais mais evoluído, que torna mais fácil dar ordens por voz ao automóvel e ao qual se acede dizendo simplesmente “Hey Mercedes”. Além de contar com um vocabulário bastante evoluído, ele recorre ainda à inteligência artificial para conseguir ir adicionando dados ao seu vasto portefólio e compreender os sotaques de cada utilizador. O responsável pelo desenvolvimento do novo interface da Mercedes, Georges Massing, não duvida em afirmar que este é o seu atributo favorito, destacando que “ele faz a vida tão fácil e fantástica. Com o Hey Mercedes temos tudo o que precisamos sempre disponível”, enfatizando o lado prático da utilização mas igualmente as vantagens ao nível da segurança.

 

A capacidade de aprendizagem do carro, com a inteligência artificial, é efetivamente um elemento-chave neste sistema desvendado pela Mercedes. Como explicou também Massing, a intenção foi “procurámos fazer do automóvel um companheiro digital, que permite utilizar ao máximo o carro e de forma tão fácil quanto possível”. Este responsável da Daimler explica que isso será visível em três patamares.

Além dos comandos vocais, também  é implementada ao nível da “personalização. Isto significa que podemos adaptar mais de 100 componentes para a personalidade de cada um, como o comportamento de condução, posição dos bancos, tudo isso pode ser adaptado ao condutor”. E ainda no conhecimento do condutor, pois “o sistema consegue aprender com os hábitos e sabe que de manhã, ao ir para o trabalho, se costumas ouvir uma estação de rádio e durante a tarde outra diferente, ele faz essas sugestões. Também com os destinos habituais, não precisamos mais de estar à procura para experimentar essas coisas. É uma enorme utilização da inteligência artificial que agora possuímos, também com a visão 3D na navegação e explicação das diferentes funções do carro para explicar o seu funcionamento”.

A bordo dos pequenos ‘protótipos’ do cockpit do Classe A foi também explicado o comportamento deste ecossistema. Além de conhecer hábitos como a escolha de música do condutor, ele sabe rotinas em outras áreas. Por exemplo, se uma pessoa liga todos os dias para casa quando sai do trabalho, o MBUX passará a perguntar automaticamente, ao reconhecer a rota, se desejamos fazer essa ligação habitual. Mais um exemplo da forma como o automóvel poderá ser revolucionado e da forma como a Mercedes pretende mudar a ligação entre homem e máquina, com uma visão antropocentrica. Algo que visa expandir no futuro com vários projetos nascidos de parceiras e a cargo de equipas “da casa” e que visam a introdução de novos atributos como formas mais fáceis de navegação e partilha de viagens. Iniciativas que explicaremos mais ao detalhe num próximo artigo.

 

Nesta oportunidade de experimentar o MBUX, foi a forma intuitiva e simples de utilização dos controlos do volante que se destacou. Mas sem dúvida que a inteligência artificial é colocada como o centro da transformação que terá início com o Classe A, já que o conhecimento dos hábitos e preferências do condutor, não apenas nos mais de 100 componentes adaptáveis (modo de condução, bancos, etc) mas igualmente nas rotas e tarefas quotidianas promete estar em foco. Algo que procura ajudar a Mercedes na reinvenção do automóvel, para que no futuro seja mesmo o carro a adaptar-se ao condutor, colocando-o mesmo no centro de todas as atenções e sem necessidade de fazer compromissos na sua mobilidade.

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