A condução inteligente: o impacto das cidades e das tecnologias


Data: 10 Fevereiro, 2018

A forma como nos movemos irá alterar-se nos próximos anos, e essa transformação esteve em foco no Forum Nissan da Mobilidade Inteligente, com o papel das cidades a ser considerado fulcral para a mudança de paradigma. Também a introdução de novas tecnologias foi abordada nas várias intervenções.

A mudança nos automóveis, através das motorizações elétricas, foi o tema para o painel que fez o arranque do segundo Fórum Nissan da Mobilidade Inteligente (após a esclarecedora sessão de abertura com intervenção do Ministro do Ambiente), uma área onde as mudanças na sociedade, na forma como nos relacionados com as marcas e ainda a introdução de novas tecnologias foram alvo de análise. Também o papel das cidades, enquanto grandes centros de decisão e motores para a transformação da mobilidade foi alvo de análise, através do exemplo da Câmara Municipal do Porto.

 

O presente e o futuro através das mudanças em curso

O primeiro painel do dia foi introduzido por Ponz Pandikuthira, o Vice-Presidente de Planeamento de Produto da Nissan Europa, que nos deu uma visão sobre a evolução da mobilidade. Começando desde logo por recordar dados impactantes, como o maior engarrafamento do mundo (Pequim 2010, com 100km numa estrada e 10 dias para ficar solucionado), os 1,25 milhões de mortos nas estradas (90% por erro humano) e a baixa eficácia dos motores de combustão (cerca de 30% de eficiência).

Deu depois um bem especial e relevante exemplo pessoal, quando seguiu a 307km/h com um Nissan GT-R na Autobahn. Tudo legal, mas não deixam de ser “curiosos” os dados relativos aos 64,5L/100km de consumo instantâneo. Um registo que daria um sorriso largo a qualquer magnata do petróleo, mas que claramente não é sustentável. Pandikuthira recordou ainda que, além das motorizações elétricas, existem outros pontos onde a evolução é necessária, como a segurança. Pois conclui, em jeito de brincadeira, que “a velocidade não é o problema, bater em coisas é o problema”…

A mudança no mundo em que vivemos é algo a que as marcas não são alheias, com o aumento da população e da sua vinda para as cidades. Estima-se que 42% da população pertença à Classe Média em 2020 e que ela se concentre em grandes aglomerados urbanos. Por isso Pandikuthira afirma que serão as cidades. enquanto pólos económicos e até  mais do que as próprias nações, a forjar a transição para a Mobilidade Inteligente. Uma prova disso? O facto de Lisboa sozinha contribuir com 37% do PIB nacional, tornando-a (como outras metrópoles) num grande consumidor primário que exige transformações na forma como as pessoas se movimentam.

E essa alteração começa já a ser visível em vários pontos, com a redução das emissões, introdução das motorizações elétricas, novas infraestruturas, incentivos à mobilidade “limpa” e constrangimentos aos diesel. No caso dos veículos elétricos, as perspetivas são já bastante animadoras e explicam porque cada vez mais marcas revelam planos nesta área. Depois dos 100000 comercializados na Europa em 2017, deve ser batida a fasquia dos 300.000 veículos de emissões 0 em 2020 e o número continuar a subir para 2 milhões de viaturas em 2025.

 

Outra área é a segurança, e a Nissan prevê que os autónomos vão ter impacto essencial no aumento da proteção, pois à capacidade de andarem sozinhos os carros vão juntar a comunicação com outras viaturas e infraestruturas. Por isso será essencial o contributo do aumento da conetividade automóvel, onde o segredo está no 5G. Pandikuthira explica que ela será 100 vezes mais rápidas do que as atuais ligações 4G, e que a revolução será equivalente à passagem dos modems para a a banda larga.

A sustentabilidade é tema chave no mundo dos transportes e do ambiente, e o Vice-Presidente da Nissan Europa recordou desde logo que existem energias renováveis disponíveis para cumprir todas as necessidades do mundo. E o problema que representam nem é distinto dos combustíveis fósseis. Da mesma forma que existem os reservatórios e os oleodutos e gasodutos, o problema com as energia solar, eólica e hídrica está no armazenamento, transporte e sua disponibilização. Não é preciso dizer que o sol apenas brilha durante o dia, e que numa habitação é durante a noite, quando as pessoas estão em casa, que as necessidades de consumo são mais elevadas. A solução passa pelo XStorage e outras formas de armazenamento.

Existem diversas vantagens neste sistema, recordou Panz Pandikuthira. Desde logo por permitirem uma segunda vida às baterias dos veículos elétricos, aumentando a sua sustentabilidade. Além disso, melhora a eficácia da rede elétrica, reduzindo os problemas dos picos de consumo. E, melhor ainda para os clientes, vai permitir ganhar dinheiro futuramente com as transferências V2G (Vehicle-to-grid) em que as pessoas podem fornecer eletricidade à própria rede e obter ganhos.

A terminar, e deixando pistas sobre como poderá ser extensa e impactante a alteração trazida pela Mobilidade Inteligente, este orador concluiu a sua apresentação com uma citação de Bill Gates. “Sobrestimamos sempre a mudança nos próximos dois anos e subestimamos a mudança que vai ocorrer nos próximos dez anos”.

 

A relação das pessoas com as marcas vai mudar…

Foi depois a vez de ter início a exposição referente a “Produtos, Experiência de Cliente e Condução Autónoma”, tema introduzido por Raphael Meillat, da equipa de Marketing Intelligence da Nissan na Europa, uma divisão que tem como principal foco de análise o comportamento das pessoas. Por isso, esta foi uma apresentação centrada na mudança do comportamento dos consumidores e da forma como eles se relacionam com os carros e as marcas. Propósito, autenticidade, consistência e confiança são alguns dos principais requisitos enunciados aos fabricantes…

As gerações mais novas, e a relação generalizada que criam com os carros é tema principal desta apresentação. Pela forma como muitos, ao contrário do que acontecia antes, olham para os carros como uma prisão à sua mobilidade sem paragens e bloqueios. Uma situação que se explica claramente pela dificuldade de locomoção em ambiente urbano, mas que aparentemente não é sentida de forma tão expressiva com os veículos elétricos, considerados como parte da “rota para maior liberdade”.

Neste campo das novas motorizações, Raphael Meillat recorda que “experimentar é acreditar”, pois as dúvidas iniciais são rapidamente superadas. Segundo explica, criar confiança é essencial, pois ao experimentarem este conceito de emissões 0 e condução autónoma os clientes habitualmente ficam convencidos pela segurança, tranquilidade e redução do cansaço e stress.

 

A forma como as pessoas se relacionam com marcas e outras entidades foi o tema final, pois a perda de confiança sentida em relação aos média e aos governos também significam a quebra das tradicionais relações com as marcas. Por isso Meillat considera que é necessário um esforço de afirmação muito superior por parte dos fabricantes.

No caso da Nissan, explicou-nos posteriormente em entrevista este especialista, o objetivo passa por “ter um propósito, ao contrário do que habitualmente as marcas faziam e que passava apenas por forçar as vendas de automóveis. Queremos significar algo mais, que o transporte é um problema e simultaneamente uma solução. Temos de olhar para nós mesmos ao espelho e reconhecer que fomos parte do problema, mas fomos a primeira marca a reconhecer verdadeiramente que agora tinha de ser parte do problema”.

Por isso concluiu que “estamos a lidar com um público mais jovem, que estão a perceber que o planeta que herdaram dos seus pais não está em tão boa forma como costumava estar. Por isso, fazem escolhas em relação ao que sentem ser o mais acertado. Como companhia queremos ser honestos e merecedores de confiança, enfrentando e dando resposta a esses problemas, com o Leaf e projetos como o Leaf4Trees. Se te parecer autêntico, verdadeiro, mais emocional, acho que temos mais hipóteses de mostrar-nos como honestos e com vontade de resolver os problemas”.

 

O exemplo do Porto

O Vice-Presidente com o Pelouro de Inovação e Mobilidade da Câmara Municipal do Porto, Filipe Araujo, foi o segundo interveniente neste painel, dando-nos o exemplo da edilidade. Esta tem sido uma das municipalidades nacionais a apostar com mais força na mobilidade elétrica, como já lhe tínhamos dado conta neste artigo, e Filipe Araujo voltou a frisar as dificuldades, os investimentos e também a forma como esta mudança tem vindo a ser bem recebida pelos munícipes.

As portas abertas pela tecnologia e o consumo crescente de dados

Rui Costa, da Veniam, foi o último interveniente neste painel, enfatizando a forma como a conetividade vai ter impacto no automóvel. Um dos exemplos práticos está na necessidade de conetividade dos automóveis e pessoas nas famosas Ramblas de Barcelona. Atualmente as pessoas necessitam 330 MB/hora, enquanto os automóveis não tiveram qualquer requisito. Mas em 2025, com o advento da comunicação do carro para o exterior (V2X) e condução autónoma, a balança vai alterar-se, e enquanto as pessoas gastarão 1,6GB os automóveis vão consumir 30 GB.

Este especialista recordou que os automóveis são, efetivamente, bastante complexos. Enquanto um avião contempla 3,4 milhões de linhas de código, um veículo exige 100 milhões de linhas de código. Verdadeiramente “famintos de dados”, as estimativas indicam que eles mensalmente vão gastar 0,34GB em telemetria, 2GB na capacidade para receber upgrades, 10GB para o Wi-Fi dos passageiros e 50GB na mobilidade. Mas, demonstrativo do potencial disruptivo da condução autónoma, ele exigirá 30 TeraBites por mês em dados.

Isto coloca o envio de informações para a Cloud como uma necessidade fulcral, estando a Veniam envolvida em diversos projetos sobre o tratamento destes dados em diversas cidades. Rui Costa concluiu a recordar que os automóveis estão a “tornar-se participantes ativos na internet”, tornando o acesso rápido uma exigência primordial para o futuro da mobilidade.

 

Resumo:

A forma como as cidades, pelo aumento da população urbana, potencial de conetividade entre automóveis e infraestruturas e até pela alteração potenciada pelas novas gerações, vão fomentar a mudança na mobilidade foi claramente destacada nestas intervenções. Com a CM do Porto, através da aposta na mobilidade elétrica e nos case-studies apresentados, serviu de exemplo para a mudança de paradigma que está a acontecer, ficou neste primeiro painel demonstrado o papel das metrópoles na mudança da forma como as pessoas se movem. Uma revolução que está já em andamento e que, como ficou bem patente, será ainda mais expressiva a curto-prazo.

 

(Algumas das apresentações aparecem nas fotogalerias numa versão mais reduzida. Para poder ver a totalidade destes suportes e também o vídeo das apresentações, pode aceder ao site oficial do Forum Nissan da Mobilidade Inteligente)

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