Brincar com um mar… que não é para brincadeiras

Texto: Júlio Santos

O surf recolocou Peniche “nas bocas do Mundo” mas, mais importante, suscitou o interesse, nacional e internacional, por uma das mais belas regiões de Portugal. A verdade é que Peniche é muito mais do que Supertubos. É uma fascinante descoberta onde todos querem voltar. E é fácil perceber porquê.

As flores e as velas permanentemente acesas testemunham o significado do santuário a Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos pescadores e da cidade de Peniche que a boa mesa, primeiro, e o surf, nos anos recentes, colocaram no mapa.

O mar aqui não é para brincadeiras – dizem nos a cada dois dedos de conversa. Homens e mulheres, cada um à sua maneira, respeitam-no. Temem-no. Mais difícil do que encontrar quem já tenha perdido um ente querido é descobrir quem queira falar disso. As feridas curam-nas cada um à sua maneira. Elas, no negro carregado e no passo vagaroso até ao santuário para pedir proteção para os que ficaram. Eles, em conversa de circunstância, pela madrugada, quando a faina foi generosa e o risco compensado. Ambos, pela manhã, quando a lota se anima de negócios que dão sentido ao risco, mesmo que não ao desgosto.

A pesca, que ainda hoje garante a subsistência de muitas famílias, está na origem daquele que, para muitos, foi durante décadas o principal motivo para um domingo em Peniche – a caldeirada, especialidade local obrigatória no cardápio do restaurante mais modesto ao mais pretensioso, era originariamente a refeição dos pescadores e das famílias mais pobres que a confecionavam com o peixe de terceira escolha (que na lota ninguém licitava). Mas o mar, em Peniche, há muito que deixou de ser apenas a pesca. O turismo, assente no surf é já, provavelmente, a maior fonte de rendimento de Peniche e de toda a região Oeste onde a estrutura hoteleira é hoje completa e de elevada qualidade. Os mais jovens continuam a aproveitar o mar mas de maneira diferente. Trocaram as noites de angústia por lojas de artigos de surf, escolas de mergulho, cafés temáticos, todo um comércio novo, sempre centrado no mar, que faz com que Peniche seja um destino cada vez mais procurado, mesmo internacionalmente.

Qualquer que seja a expetativa ou a preferência, Peniche é capaz de surpreender todos, em todas as épocas do ano. O centro foi capaz de preservar a estrutura arquitetónica tradicional, destacando-se a Fortaleza mandada construir por D. João III, em 1557, para servir de base para as conquistas marítimas de então. Pelo tempo fora, aquele que é hoje o museu municipal conheceu diversas utilizações, com destaque para o facto de por ali terem passado diversos presos políticos durante o período do Estado Novo. As estruturas fortificadas, testemunho da importância geoestratégica de Peniche ao longo da nossa história, marcam o legado arquitetónico da região, destacando-se, ainda, o Forte de São João Batista, na Ilha Berlenga, edificado em 1651, com a finalidade de impedir a ocupação da ilha pelas potências inimigas. Da mesma época, o Forte da Consolação orgulhava-se de possuir algumas das mais potentes peças de artilharia, com o intuito de defender a baixa de Peniche contra os invasores. É nesta constante exposição à cobiça de forças estrangeiras que nasce a expressão “amigos de Peniche” com a qual nos referimos a alguém que, sendo-nos próximo, está pronto a atraiçoar-nos. Uma associação injusta já que a expressão resulta do facto de os ingleses, que era suposto ajudarem os portugueses a libertarem-se do domínio espanhol, em 1578, terem sido os primeiros a bater em retirada, quando as coisas se complicaram. Desembarcada em Peniche, com o objetivo de rumar a Lisboa, a armada comandada por Francis Drake nunca chegaria ao local da batalha, o que levou os desesperados comandantes portugueses a perguntar “onde estão os nossos amigos de Peniche?” Histórias que perduram no tempo, com maior ou menor rigor, e é, afinal, do encontro da tradição com condições ímpares para os amantes do mar, que resulta o facto de Peniche estar na moda.

O MAR NO CENTRO DE TUDO

Na Ilha da Berlenga, declarada Reserva da Biosfera pela Unesco, as águas cristalinas são (apesar da temperatura) uma espécie de paraíso para os praticantes de mergulho, dada a diversidade da flora e fauna marinha. Já designações como Consolação, sobretudo, Supertubos, há muito que entraram no léxico daqueles que procuram os melhores “spots” de surf no Planeta, enquanto Praia d´el Rey, ali bem perto, possui aquele que é tido como um dos mais belos (e desafiantes) campos de golfe da Europa. Mas mesmo os menos ativos não deixarão de encontrar inspiradores argumentos para regressar a Peniche, ao longo de um passeio pelas ruas típicas da cidade – não se espante se num dos restaurantes reconhecer caras famosas, como Kelly Slater, campeão do Mundo de surf por 11 vezes, que elege Pe niche como um dos seus destinos favoritos – ou então, percorrendo a tão bela quanto traiçoeira orla que nos conduz desde a Nau dos Corvos até à praia da Gamboa. Aí mesmo, nas portas da cidade, pode aproveitar para tomar um café contemplando o mar, ou ganhar coragem para continuar pelo areal imenso até ao Baleal, minúscula península de tasquinhas e esplanadas debruçadas sobre o mar onde nos dias de tempestade percebemos o porquê de locais e forasteiros garantirem que “o mar aqui não é para brincadeiras”.

Do Baleal até Ferrel, outro local colocado no mapa graças ao surf (as múltiplas lojas e cafés temáticos mostram isso mesmo) são escassas centenas de metros, no caminho que nos conduz a Óbidos. Com um calendário de eventos, distribuídos ao longo de todo o ano (Vila Natal, Festival do Chocolate, Mercado Medieval), que potencia a divulgação do município, a visita ao interior das muralhas desta vila medieval é uma experiência fascinante, destacando-se a cuidada conservação de todos os edifícios e o aconchego dos cafezinhos onde a “Ginjinha de Óbidos” é a mais do que justa rainha.

Para final de “festa” não faltam em Óbidos excelentes restaurantes, o mesmo acontecendo, aliás, em Peniche mas a nossa escolha recai sobre a Tribeca, em Serra d’el Rey, restaurante que tem o nome de um dos mais famosos bairros de Nova Iorque mas que vale pela excelente atmosfera, qualidade do serviço e, principalmente, pela qualidade da cozinha que apresenta. Dificilmente haverá melhor epílogo para uma viagem a Peniche e, se esta for a sua escolha, atrevemo-nos a assegurar que dificilmente resistirá ao desejo de regressar.

 

Viagem publicada na Revista Turbo nº 411.

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